What’s My Thang – Ato 2

Black Swan Art Film
Catharina Maciel, Juliana Follador e Kimberly Mello
Revisado por: Laís Nahara

Sentiram saudades? Estão bem? Esperamos que a resposta seja sim para ambas as perguntas! Hoje a equipe de arte, mais em específico a Catharina iniciará o texto explicando sobre a arte por trás da dança do M/V de Black Swan o Art Film. 

Como podemos ligar todos os “pontos” e todas as artes que enxergamos, ouvimos e sentimos sobre esse M/V? Nossa equipe definiu que a melhor forma é compartilhando o que sabemos, e captando como vocês recebem essa informação, por isso o texto “What’s my thang” reflete o que entendemos a partir do music vídeo, para que vocês possam agregar um pouco do nosso repertório e a partir disso abriremos definitivamente o espaço para vocês preencherem o Ato 3.

Desde o Ato 1 já recebemos lindas devolutivas que nos tiraram lágrimas e diversos sentimentos quais não havíamos sequer imaginado, e acreditamos que vocês precisam ver isso e serem vistos. 

Com essa pequena introdução daremos início à análise realizada pela Catharina qual esperamos que chegue ao seu coração.

“Um bailarino não é grande por causa da sua técnica, ele é grande por causa da sua paixão – essa é uma das mensagens da Martha Graham, que também tem uma citação no inicio do Art Film. Ambas estão conectadas ao conceito da música, o medo de se perder na busca da perfeição (técnica) e perder a paixão, Graham fala isso sobre grandes bailarinos e movimentos mas também é possível relacionar com o medo do BTS de perder o prazer e o amor por produzir música e sua arte.

Como contextualizado em “Do your thang – Ato 1”, o MV tem como uma das inspirações o filme “Cisne Negro”, nele a bailarina  Nina se perde durante a busca pela performance perfeita. Os diretores da MN Dance Company (companhia que coreografou e performou no art film) comentam que essa busca pela perfeição pode sim afetar os bailarinos – “achamos que todo bailarino (ou artista) pode se relacionar com o significado da música em algum momento da vida, você se esforça cada vez mais para buscar a perfeição, mas pode facilmente ser pego pelos seus medos, perdendo a alegria e prazer.” Para representar essa mensagem, é possível identificar que a companhia usou de um mistura de diversas técnicas de dança e diferentes estilos também, porém neste recorte iremos observar com um olhar baseado no ballet clássico, dança moderna e dança contemporânea.

Podemos traçar um paralelo entre música e dança quanto processo de criação. Noverre, bailarino e coreógrafo francês que propunha reflexões junto a um ballet/dança com expressividade em contraposição ao ballet de corte na época, diz – ” o êxito nas composições somente é possível se o coração se inquieta, se a alma com vivacidade se emociona, se a imaginação se incendeia, se as paixões trovejam e o gênio clareia” (Monteiro, 1998). Logo, seria possível se expressar e criar sem paixão? E o medo de não ser perfeito ou não compreendido? 

Graham por sua vez dizia em relação aos seus movimentos, criações e gestos – “não quero que sejam entendidos, eu quero que sejam sentidos.”

O corpo é um portador de signos e também um suporte de identidades ao mesmo tempo em que é gerador de significados (GONÇALVES, 2009). Na dança, ele sofre transformações para se tornar veículo da arte. Portanto, é importante ter a capacidade de conectar o movimento à emoção, para que isso seja possível é necessário que o artista tenha a habilidade em executar o controle técnico para ser instrumento de expressão. Tal habilidade está ligada ao conhecimento de princípios sinestésicos  e da estrutura anatômica. 

Sendo assim, é possível notar o preparo e a destreza dos bailarinos ao longo do Art Film, percebendo a importância da boa execução e conhecimento  de alguns princípios fundamentais como uso da energia e da oposição. Quanto ao uso apropriado de energia, significa utilizar somente a quantidade de força necessária para realizar um movimento desejado, como  por exemplo, você pode notar a diferença na intenção (uso de energia) nos movimentos dos braços do bailarino principal no início do vídeo e depois no final do art film, o emprego da força muda e assim também a mensagem expressada. O segundo conceito abrange o princípio de que para cada ação há uma reação igual e oposta, o  dançarino deve desenvolver a consciência de uma energia fluindo, simultaneamente, em direções opostas, e a percepção e uso deste princípio ajuda a adquirir controle e domínio do movimento, como pode ser observado em algumas movimentações do bailarino principal nessa “luta” e tentativa de se libertar.

 Nas primeiras cenas podemos notar que o bailarino principal está tentando fugir dos outros, podendo ser interpretado de diferentes formas. Os dançarinos de preto são a representação das sombras do personagem principal. É possível perceber que, na imagem,  esses bailarinos em conjunto formam um “desenho” de asas, ao mesmo tempo que representa o personagem principal tentando escapar das suas sombras, podendo ser uma fuga da dor, da morte, de limites que o aprisionam,  de “sacrifícios/fardos”. 

Observando os movimentos também é possível interpretar uma tentativa constante em criar suas próprias asas, pois existe uma movimentação na parte das costas, ombros e na extensão dos braços bem rígidos, como se as asas estivessem tentando voar mas não tivessem nenhuma articulação, logo, pouco movimento e mobilidade.

Imagem 01 – indivíduo tem suas sombras (bailarinos de terno preto) ao seu redor, o limitando e manipulando
"O coração já não acelera mais
Quando escuta a música começar
Estou tentando levantar
Mas parece que o tempo parou
Oh, essa seria a minha primeira morte
Aquela que eu sempre temi"

Neste momento, os dançarinos que representam suas sombras,  ditam os seus movimentos, limitam e machucam, por fim, o derrubam e o esmagam. 

Imagem 02 – as sombras machucam o personagem principal, que se contorce no chão,  pisando em cima dele
"Meus pés errantes presos à uma rotina sim, sim, sim
Todos os ruídos e sons foram cortados, sim, sim, sim
Isso está me matando agora, me matando agora"

A partir daqui, um quadrado com “grades” surge, o personagem principal não fica somente “preso” por isso mas também pelas suas sombras.  Os bailarinos de preto, que retratam suas sombras, são  as “asas dele”, elas realmente manipulam e movem o personagem principal como uma marionete. Essa manipulação também pode representar os “sacrifícios” em uma busca exaustiva pela excelência, uma vez que o trecho nesse momento é – meus pés presos a uma rotina, o bailarino principal tenta se desvencilhar porém tem somente um pé no chão enquanto todas as outras partes do seu corpo são puxadas em diferentes direções, se esforçando muito para ter um equilíbrio e se manter de pé.  Apesar de tudo, destas “asas – sombras” pesarem, ele segue em movimento com esse voo mesmo que dolorosamente. Todos os ruídos e sons foram cortados, sim, sim, sim; Isso está me matando agora, me matando agora”ou seja, isto está fazendo seu coração parar? Perdendo a paixão? Ao mesmo tempo que essa situação o prende e limita, a dor move ele, o manipula no espaço, enquanto tenta fugir daquilo também o molda.”

 Nesta cena, ainda cabe destacar a importância da organização corporal do bailarino. A sua postura, tônus muscular e centro do corpo devidamente preparados, permitem que ele tenha um maior controle quando manipulado pelos outros dançarinos. Como por exemplo, seu “firme” tônus preparado dá uma liberdade para que os outros pudessem o levantar.

Imagem 03 – dançarino principal se encontra em uma “jaula”,os bailarinos de preto representando  suas sombras o manipulam e puxam como se estivesse acorrentado

Quando ele consegue se desvencilhar e sair da “prisão”, o seguinte trecho começa: 

"Mais fundo Sim, acho que estou indo mais fundo 
Eu continuo perdendo o foco Não, me solte
Deixe os meus próprios pés me guiarem
Eu vou mergulhar em mim mesmo
No meu mais profundo interior
Eu me encontrei"

Quando ele consegue se desvencilhar saindo da “prisão”, quer andar com os “próprios pés” como diz a letra, todavia parece perceber a necessidade de aprender como usar as suas sombras a seu favor, e para aprender isso, precisa ser vulnerável e mergulhar para dentro. Nessa sequência, o bailarino sai de uma segunda posição de pernas, realiza um plié* profundo como impulso para “se jogar” nos outros bailarinos, “se entregando” a elas.

"As ondas passam
De forma sombria por mim, como um espasmo
Mas eu nunca mais serei arrastado para longe
No interior
Eu me encontrei, me encontrei
Batimentos cardíacos pulsando em meus ouvidos, tum, tum, tum
(...)
Nada pode me devorar
Eu grito ferozmente"

Diferente do filme em que Nina se entrega mas se perde, no art film isso não acontece. Logo quando esse trecho inicia, depois dele se entregar, e começar um caminho de autoconhecimento “nunca mais serei arrastado para longe”, ele finalmente fica sozinho e toma uma postura enfrentando suas sombras e sabendo se defender, o que faz com que ele volte a sentir a paixão (coração) – Batimentos cardíacos pulsando em meus ouvidos, tum, tum, tum (…) Nada pode me devorar, eu grito ferozmente – é nítida a mudança de espírito no comportamento do seu corpo e na sua postura ereta, ao mesmo tempo inclinada para frente com seus braços em direção ao restante do grupo em uma posição de pernas quarta posição allonge*, ou seja, tem uma base mais sólida e apoio na perna estirada de trás.

imagem 04 – Indivíduo encara o desconhecido, seus medos, sua sombra. – Representação por Juliana Follador

Gostaríamos de convidar você a uma pausa para se auto observar e entender mais sobre o processo. Qual mensagem que a sua linguagem corporal expressa? Quais sentimentos você consegue identificar nos movimentos dos bailarinos? Você sente algo ao ver os movimentos deles no MV? Você imagina como é o preparo deles? Fazem ideia de como os membros do BTS acolheram essa colaboração? Com estas perguntas esperamos ajudar você a começar a conhecer seu processo criativo, também adoraremos saber suas respostas.

Na sequência, o bailarino segue sua jornada sozinho, realiza movimentos mais amplos e livres, ainda aprendendo a caminhar sozinho, ao mesmo tempo que parece estar em um processo de criar as próprias asas. É realmente lindo ver o trabalho do dançarino, isolando muito bem partes do corpo para que seja possível realizar movimentos nas outras partes e também é  perceptível a semelhança com a coreografia do ballet, similar ao pas de bourrée* e os movimentos característicos dos braços, que estão bem mais articulados do que no início do MV, pois ele está mais livre conforme gif abaixo.

gif 05 – personagem principal se distancia de sua sombra começando sua jornada sozinho; criando suas próprias asas, voando sozinho e tendo mais mobilidade nos seus braços (asas)

Logo após, é possível notar uma mudança no comportamento do personagem, estaria ele continuando no processo de mergulho? Ou é apenas  um momento de autoavaliação? Pausa para se preparar para o que está por vir? Ele inicia a descer as escadas, com uma postura ereta, costas alongadas, queixo para cima… Ele caminha confiante.

Na próxima sequência de movimentos, o bailarino principal está em destaque no espaço e ele se posiciona em um quarta posição de pés* e em plié*, ou seja, uma posição estável e com uma base sólida em que ele tem controle e dificilmente será derrubado, em contraste com o inicio do art film, onde por exemplo na “prisão” ele tinha por vezes somente um pé no chão. Nessa organização corporal, estando centrado com uma base estável e um bom trabalho de contrapeso, o dançarino tem liberdade na parte superior do corpo, logo quando os demais bailarinos de preto vão em direção ao personagem principal para atacá-lo, esse consegue facilmente se defender. 

imagem 06- personagem principal se encontra em uma posição estável, aprendeu a lidar com suas sombras e a se “defender”

O personagem, em contraste com antes, não é mais manipulado e possui controle, lidera os movimentos, enquanto os demais integrantes o seguem. Inclusive em alguns momentos da coreografia essa ideia de seguir – fazer depois o movimento, é expresso lembrando um canon*. Ainda que ele lidere é possível notar uma certa “dificuldade”,  os braços são rígidos e os movimentos fortes.

gif 07 – indivíduo com controle da situação, as suas sombras, liderando os demais bailarinos.

Por fim, diferente do filme, a mensagem transmitida é que o personagem integra suas sombras e aprende a usá-las ao seu favor. Na última cena,  os bailarinos de preto, que representam suas sombras, o cercam da mesma forma que no início da coreografia, mas dessa vez eles o levantam. É possível observar que o bailarino principal tem os movimentos dos braços mais suaves e articulados, estando assim mais livre e leve para voar. Logo, como artistas devemos abraçar nossas “sombras” e saber utilizá-las ao nosso favor, isso também nos torna únicos, sabemos que só existe um de você, essa mensagem é passada na própria letra de Black Swan, “Do your thang” algo como “faça o que você sabe” (Faça sua jogada) podemos relacionar também com outra fala de Martha Graham, “há uma vitalidade, uma força vital, uma energia, um estímulo que se traduz em você pelo seu ato o tempo todo, essa expressão é única, se você a detém, ela nunca existirá por nenhum outro meio e se perderá.” O prazer, a paixão e a satisfação devem ser mais importantes que represálias e as avaliações em busca da perfeição.

gif 08 – personagem principal finalmente aprende usar as suas sombras a seu favor, elas o levantam, e ele voa com suas próprias asas.
imagem 09 – Indivíduo aceita sua sombra como parte de quem ele é, e a partir disso constrói suas asas para voar e se mantém – representação por Juliana Follador

Por último queremos partilhar um pouco da criação de vocês dentro do painel de arte, portanto, caso você tenha realizado alguma fanart, algum texto, poema, música, vídeo de dança sobre nossos textos, sobre o impacto dos nossos textos e queira partilhar conosco, sinta-se livre para nos mandar por email: baa.arte@gmail.com ou use a TAG #ArtecomBAA para partilhar o seu trabalho, lembre que você é único e somente você vê o mundo com os seus olhos, e nós temos interesse em sabermos sobre.

REFERÊNCIAS

  • BTS (방탄소년단) ‘Black Swan’ Art Film performed by MN Dance Company. https://youtu.be/vGbuUFRdYqU
  • Entrevista MN Dance Company. https://extra.globo.com/tv-e-lazer/musica/coreografos-de-video-artistico-do-bts-falam-sobre-black-swan-em-entrevista-exclusiva-24201599.html
  • GONÇALVES, Maria da Graça Giradi. Martha Graham: Dança, Corpo e Comunicação. Dissertação de Mestrado. Uniso. Sorocaba-SP: 2009.
  • MONTEIRO, Marianna. NOVERRE, Cartas Sobre a Dança. São Paulo, Edusp/Fapesp, 1998
  • SHURR, Gertrude; YOCOM, Rachael Dunaven. Modern Dance: Techniques and Teaching.Hightstown: Princeton Book Company, 2004.(1. Ed. 1949)

GLOSSÁRIO

  • 4ª posição de pés: com os pés cruzados e afastados, um pé fica na frente do outro. Imagina-se que há um pé em posição natural entre eles;
  • 4ª posição allongée: allongé significa: alongado, estendido, esticado; logo quarta posição porém perna de trás esticada e perna da frente de base no plié;
  • 2ª posição de pés: com os calcanhares juntos, os pés ficam abertos um para cada lado, em linha reta, os joelhos seguem a linha dos dedos dos pés, e os calcanhares ficam alinhados, os pés ficam afastados entre si por uma distância aproximada de um pé;
  • Plié: uma dobra de joelho ou de joelhos; flexão;
  • Pas de Bourrée: consiste, em geral, na passagem freqüente de um pé para o outro
  • Canon: ocorre quando um movimento é realizado por um dançarino e o restante – um grupo de dançarinos executam o mesmo movimento ou frase, um após o outro, semelhante.

2 comentários em “What’s My Thang – Ato 2”

  1. Eu só vou dizer obrigada, mais uma vez. Vocês não tem noção do quanto tudo isso tem sido importante pra mim.

    1. Oi, Lilly 💜 Obrigada pela sua mensagem! Ficamos muito felizes em saber que você gostou do nosso trabalho e que lhe ajudamos de alguma forma! Esperamos que tenhamos te inspirado um pouquinho!
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