SCHOOL TRILOGY: Alice No País Das Maravilhas & A Juventude

ThyHeartfilia

Fonte: CARROLL, 2013

A obra de literatura nonsense com autoria de Lewis Carroll (pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson) é protagonizada por Alice, uma criança que vive na Inglaterra (Era vitoriana). Sua publicação foi em 1865, e, é muito importante entender o contexto da produção desse livro. A narrativa no País das Maravilhas somente pode ser totalmente entendida com acesso ao conhecimento da cultura vitoriana da época, existindo variadas piadas internas, muitos termos e trocadilhos utilizados propositalmente. Carroll se inspirou em diversos aspectos de sua vida cotidiana como um cidadão inglês: amigos, famílias, pessoas que gostava e que não gostava, situações específicas que passou e etc. 

O leitor da Inglaterra certamente era o mais capaz de entender e ficar impressionado com os incríveis intertextos feitos nas entrelinhas. Assim, recomenda-se ler versões comentadas de Alice no País das Maravilhas para nós leitores estrangeiros estarmos mais entendidos da cultura que domina a atmosfera dessa obra. Por exemplo, este texto está sendo escrito com base na versão Alice Aventuras no País das Maravilhas & Através do Espelho: edição comentada e ilustrada (Clássicos Zahar). Jorge Zahar Editor Ltda. Edição do Kindle (o contexto de Alice Através do Espelho não será apresentado aqui).

Acerca do BTS (Bangtan Sonyeondan), aqui vamos fazer pontes discursivas. Isso significa que ao longo das explorações na narrativa de Alice e suas problemáticas, será conectado falas do BTS em suas produções do período School Trilogy, seus primeiros álbuns de 2013/2014. Assim, poderemos compreender como a puberdade e os momentos de crescimento desde a infância são unânimes nessas obras que aparentemente podem não parecer relacionáveis. As experiências de Alice são mensagens muito fortes até hoje. “Alguns dizem que a arte é longa e a vida é curta / Mas agora para mim arte é vida / A vida é atividade / Apenas faça isso uh” (BTS, 길 Road/Path, 2013).

Figura 1 – Alice e sua Irmã 
Fonte: Disney, 1951

Dessa forma, mergulhando na narrativa de Alice é importante saber que a personagem é baseada na pessoa real de Alice Linddell (filha de Henry Liddell, deão da Christ Church; nascida em 4 de maio de 1852), algumas amigas e até em algumas de suas irmãs. A narrativa do livro se passa no dia 4 de maio de 1859, logo, dia do aniversário de 7 anos de Alice. E, é nesse dia em que Alice vive uma experiência inédita, ela senta na beira de um riacho junto de sua irmã que está lendo um exótico livro “que não tem imagens nem diálogos” como Alice diz; parece um grande indício de ser um texto em prosa, teórico ou apenas sem uma dinâmica visual que poderia prender os leitores (o famoso ‘livro chato’). Está na primavera, Alice segura um punhado de flores e por consequência do tédio e da brisa fresca das águas é pega no sono, não sabemos se realmente dormiu, mas o impressionante é o fato dela avistar um coelho branco de olhos rosa muito apressado correndo e seguindo um relógio. A curiosidade é mais forte e a menina vai de ímpeto atrás do animal apressado e, em seguida, o segue até entrar por uma toca que no seu interior existe um profundo buraco que a leva para um espaço em que se tem muitas portas grandes e ela agora precisa entender qual o raciocínio a qual precisa ter para sair dali.

Em seguida, Alice se depara com uma chave pequenininha em uma mesa de vidro, porém, a chave no cabe nas portas. Após certo tempo procurando algum outro tipo de porta (até porque, se há uma chave, mesmo que pequena, há uma porta para tal), a garotinha encontra uma portinha atrás das cortinas e essa era realmente a certa, assim, destrancou e viu o lindo jardim além da porta. O que não estava em harmonia com a situação era o tamanho de Alice, isso mesmo, ela precisava se adaptar para as oportunidades que a portinha estava dando. Ela vai a mesa e bebe um líquido muito gostoso que faz encolher, entretanto, esquece a chave em cima da mesa. O problema não foi resolvido, agora ela está preparada para as novas experiências do jardim, mas perdeu o acesso a essa oportunidade, ela esqueceu da chave. A menina dá meia volta e vê um bolo, come e fica grande demais quase não cabendo na sala. Por Alice não saber mais quem era, estar vivendo tantas coisas estranhas, seu corpo estar diminuindo e aumentando, ela chora e muitas dúvidas as cercam, fazendo um lago de lágrimas inundar o local. Ela mesma se questiona e percebe. Isso é ponto que é muito perceptível no livro: Alice sempre está grande ou pequena demais, demora até ela conseguir voltar a seu tamanho real para a sua idade, uma criança de 7 anos. “Minha aparência, de um estudante do ensino médio, / Tornou-se uma criança grande demais / Sem meu conhecimento ” (BTS, 길 Road/Path, 2013).

Figura 2 – Alice grande chora 
Fonte: Disney, 1951
Figura 3 – A Lagoa de Lágrimas
Fonte: Disney, 1951

Após essa choradeira, seu tamanho diminui fazendo com que ela mesma mergulhe sobre as próprias lágrimas e ela precisa se secar. Não só ela, mas todos os animais que surgiram no meio da inundação estão encharcados. E assim, um Dodô supõe uma corrida em círculos para todos se secarem. Ao longo da descrição parece um pouco incoerente, porque não há o intuito de alguém competir, todos fazem um círculo como querem, comecem quando quiserem e terminem na hora que puderem. É tão democrática essa corrida que os animais e Alice conseguem se secar no tempo mais agradável a cada um. Desse modo, o importante nunca foi a competição da ideia de corrida, e sim, o fato de todo mundo conseguir ficar seco, não interessa quanto tempo levou e nem qual maneira.

Figura 4 – A corrida do comitê 
Fonte: Disney, 1951

Com o desenvolver da narrativa, Alice vai lidando com mais personagens que confrontam a sua identidade, seu modo de pensar e da forma que foi criada para lidar com conflitos. Os diálogos de Alice com as criaturas do País das Maravilhas sempre vão gerando muita briga, desconforto e da mesma forma que ela acha que os outros são incoerentes e bizarros, também eles pensam assim dela. Quem está sendo equivocada é Alice. O fato da Lagarta, por exemplo, não entender ela é por conta da cega razão da menina de achar estranho o crescer e o encolher. Alice responde imaturamente a Lagarta perguntando se ela como um inseto terrestre vai achar estranho quando virar uma borboleta que voa, e como uma grande sábia que é, a Lagarta responde que não. Jamais seria estranho para uma lagarta virar uma borboleta, porque nós sabemos qual é esse inseto e qual o destino de vida dele. A lagarta somente ficaria como Alice, confusa e desesperada, se ela não soubesse quem é e qual seu propósito. A Lagarta não tem medo de se tornar uma borboleta, então, para ela, Alice era extremamente bizarra de não entender a importância da metamorfose.

Os adultos fazem uma confissão / Que nós temos as coisas tão fáceis / Que somos mais felizes do que merecemos / Então por que estou sendo tão infeliz? / Não há nada para conversar juntos, além de ter que estudar / Há tantas crianças como eu lá fora / A mesma vida de uma marionete / Quem vai assumir a responsabilidade por nossas vidas? (BTS, N.O, 2013).

                         

Figura 5 – Conselhos de uma Lagarta
Fonte: Disney, 1951
Figura 6 – Metamorfose da Lagarta
Fonte: Disney, 1951

Depois desse choque de realidade, comendo pedaços do cogumelo da Lagarta, a menina continua alterando seu tamanho e se esbarrando por aí com outros bichos estranhos. Estando pequena para se adaptar a estatura de quem ela está lidando ou grande para fazer outras situações. Em um desses encontros, na copa de uma árvore, Alice vê o Gato de Cheshire (gato inglês; o gato da Duquesa do capítulo 6). Alice não pensa mais em como chegar no lindo jardim que viu no início de sua aventura, ela quer apenas ir embora de onde estava. Ela pergunta ao gato qual a saída, ele com grande sorriso quer saber para onde exatamente a menina deseja ir e, por fim, ela responde que qualquer caminho serve desde que a leva a algum lugar. 

Eu estaria diferente se tivesse escolhido um caminho diferente? / Se eu tivesse parado e olhado para trás? / Oh ei você, ei você / O que eu vou ver? / No final desta estrada, onde você estará? / Oh ei você, ei você (BTS, 길 Road/Path, 2013).
Figura 7 – O Gato de Cheshire da Duquesa
Fonte: Disney, 1951

Então, o gato mostra a criança duas opções: a casa da Lebre de Março ou a do Chapeleiro. Ele explica a menina de que os dois são loucos e que ela pode escolher qualquer um, pois não vai mudar muita coisa. Alice se espanta porque para ela ser louco nunca foi um bom sinal. Logo em seguida, o gato fala que ela também é louca, não há motivos para preocupação, até porque, só de Alice estar ali no País das Maravilhas já denuncia que ela é louca. Isso faz sentido, pois Alice não tinha certeza se tudo aquilo era real ou um sonho. Aqueles sonhos em que nós não temos plena convicção de ser real ou não, revelam nossa loucura. Todos nós somos loucos, quando dormimos e vivemos um sonho somente ao acordar que percebemos toda magia que nossa mente fez inconscientemente. Seguindo esse raciocínio, podemos concluir que sonhos são um tipo de realidade a qual vivemos na hora do sono e durante nossas aventuras nesses sonhos nós somos loucos acreditando que tudo é real, o bom é que no final sempre acordamos, ou deveríamos.   

Podemos perceber que Alice não deseja de início querer chegar no jardim, tanto que ela não comenta nada com o gato. Mesmo assim, o animal pergunta sobre o jogo de croquet da Rainha, Alice sabe que não foi convidada para jogar e ele diz que a espera lá no campo do jogo. O gato sabia que uma hora ou outra a menina iria conseguir abrir a portinha e entrar no jardim da Rainha de Copas, era só uma questão de Alice compreender o momento certo. Ao decorrer dos próximos capítulos, a menina vivencia o chá maluco da Lebre de Março com o Chapeleiro e um roedor dorminhoco. 

Figura 8 –  Chá maluco da Lebre de Março
Fonte: Disney, 1951
Por que o certo se tornou errado? / E o errado se tornou certo? / Por que não estou na minha vida, mas apenas vivendo a vida dos outros? / Isso é real, não é nem uma aposta nem um jogo / Você só tem uma vida / Para quem você vive?  (BTS, Intro: O!RUL8,2?, 2013).

Alice nesse ponto da narrativa já conversou com tantas criaturas exóticas, mas segue em não entender o que eles falam, ela questiona muito a lógica das frases que falam para ela e por consequência ninguém suporta essa criança. Ela sempre tentando achar motivos para tudo, razões para os eventos que estão acontecendo e muitas vezes na vida vamos nos sentir nesse lugar de incerteza. 

Figura 9 –  Rainha de Copas e Alice no Jardim
Fonte: Disney, 1951

Após lidar com tantas pessoas estranhas nesse ‘sonho’ ela já estava preparada para estar de frente com a Rainha. Ela consegue voltar a sala inicial e pega a chave da forma correta, encolhe e passa pela portinha. Aqui ela já entende que não precisa somente estar com a chave, mas também de estar preparada para passar na porta. Assim, ela conhece a Rainha de Copas e seu perpétuo discurso “Cortem-lhe a cabeça! /Cortem a cabeça dele ou dela! ”. E na verdade, entendemos ao longo do texto que a soberana apenas fala isso da boca para fora, impaciente e explosiva em suas emoções. A Rainha se porta com autoritarismo querendo que todos a obedeçam sem questionar e nunca desperta um espírito de liderança, tudo se passa de uma voz rude e vazia de compreensão. Ela não se importa com seus liderados, é egoísta e mal-amada. 

Nos eventos finais de Alice no País das Maravilhas, a nossa protagonista toma um posicionamento mais maduro, crítico e consciente com as criaturas. Claro que Alice entende a necessidade de ser empática para com os outros, todos são livres de estar do jeito que bem querem. Subitamente, um julgamento inicia, é uma situação que surge tão inesperada que no próprio texto um dos seres mágicos puxa a menina e eles correm para esse evento. É tudo muito nas pressas, o texto nos deixa até confusos do porquê de ter um julgamento tão repentino. O que houve foi um suposto roubo às tortas da Rainha de Copas. Realmente, pelo contexto final da obra, é algo estranho, porém, ali Alice volta a crescer sem motivos, não é explicado como ela está crescendo, o texto não diz se ela comeu ou bebeu, as pessoas que estão assistindo o julgamento percebem a criança expandindo e quase não cabendo mais naquele tribunal. Alice finalmente está ficando grande demais para o País das Maravilhas, o Rei de Copas (marido da Rainha) vê a menina passando dos limites em altura e diz que ela infringiu a Regra 42ª (42 é múltiplo de 7; 7×6 = 42) do Reino: pessoas com mais de 1km e meio devem se retirar do tribunal. 

Os adultos me dizem / Que temos que sofrer apenas nesse momento / Que devemos suportar um pouco mais / Que devemos fazer o que queremos fazer mais tarde / Todos digam NÃO! / A palavra “mais tarde” não pode mais fazer nada / Não viva sua vida ficando preso no sonho de outra pessoa. (BTS, N.O, 2013).
Figura 10 –  Alice cresce no tribunal
Fonte: Disney, 1951
Figura 12 – Alice confronta a Rainha e o Rei de Copas
Fonte: Disney, 1951

Alice recusa a se retirar e antes mesmo do júri decidir se ela está errada ou não a Rainha quer impor o castigo, entretanto, não faz sentido uma sentença final sem uma decisão do júri. Alice se posiciona e fica bem claro a falta de autoridade e espírito de liderança da Rainha. Os soldados Rainha (que na verdade eram cartas de baralho com algumas partes humanas) são ordenados a atacar a menina e o que acontece é o despertar dela. “Meu coração parou quando eu tinha nove ou dez anos / Colocando minha mão no meu coração / Eu pergunto: ‘Qual foi o meu sonho? ’ / Espere, o que realmente foi isso? ” (BTS, Intro: O!RUL8,2?, 2013).

Figura 13 – Os soldados cartas de Copas atacam Alice 
Fonte: Disney, 1951
Figura 14 – Alice sonhando com o País das Maravilhas, em seguida, acorda
Fonte: Disney, 1951

Alice acorda, está no colo de sua irmã e o que parecia ser soldados em forma de cartas era apenas folhas secas que caíram em cima do seu rosto: “A armadilha da realidade que me amarrou / Quem estava sonhando sem parar / Oh, essa armadilha da juventude. ” (BTS, 길 Road/Path, 2013). Empolgada a criança conta a sua irmã mais velha sobre o País das Maravilhas e o interessante é que a moça é tomada pela atmosfera sonhadora das aventuras de Alice. Inspirar alguém a partir dos nossos sonhos pode ser mais encantador, tão real e trazer esperança, pois as transformações na vida do jovem transbordam nos fazendo aprender a nunca desistir de quem nós somos ou podemos ser.

Referências

  • BTS. Intro: O!RUL8,2?. Seul: BigHit Entertainment, 2013.
  • BTS. N.O. Seul: BigHit Entertainment, 2013.
  • BTS. 길 (Road/Path) [Hidden Track]. Seul: BigHit Entertainment, 2013.
  • Carroll, Lewis. Alice: edição comentada e ilustrada (Clássicos Zahar). Editora: Zahar. Edição do Kindle, setembro 2013.

Glossário

  • Croquet: O ‘croquet’ ou ‘cróquete’ é um jogo em que se usa um objeto para golpear uma bola de madeira ou plástico para atravessar arcos postos no gramado. Hoje em dia é um esporte bem conhecido na Europa.

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