SCHOOL TRILOGY: Alegoria Da Caverna, Platão

Maria da Glória Oliveira do Rosário

“Eu quero casa grande, carros grandes e anéis grandes / Mas, na realidade, eu não tenho grandes sonhos” (BTS, 2013a), nesses versos de No More Dream é expressa a oposição entre o desejo por itens materiais e a falta de um ideal. A música contém questionamentos em relação a aceitar aquilo que foi escolhido para nós por outra pessoa. Trata-se de uma provocação para o autoconhecimento: “Com o que você sonhou? / Quem você vê no seu espelho? / Eu tenho que dizer / Siga seu próprio caminho / Mesmo se você viver por um dia / Faça alguma coisa / Afaste a fraqueza” (BTS, 2013a).

Esse discurso que confronta o estado de conformismo e o empenho pela verdade pode ser lido no Livro VII de A República (PLATÃO, 2012). No excerto tradicionalmente denominado como Alegoria da Caverna, Sócrates convida Glauco a imaginar homens cujas pernas e pescoço estão agrilhoados à uma “morada subterrânea, em forma de caverna” (PLATÃO, 2012, p. 187) desde a infância. Sombras são projetadas na parede em frente aos homens porque o lugar no qual se encontram presos recebe a luz provinda de uma fogueira acesa numa colina, que se ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais exibem as suas maravilhas (PLATÃO, 2012, p. 187).

Sócrates prossegue com a afirmação de que as sombras dos objetos projetadas no fundo da caverna seriam entendidas como realidade, portanto, se as correntes fossem tiradas de um dos prisioneiros e se a ele obrigassem a sair do subterrâneo, sofreria. A luz machucaria seus olhos, de modo a lhe turvar a visão dos objetos dos quais antes via apenas a projeção, e isso o repeliria. Dessa forma, as sombras pareceriam para ele muito mais distintas que os objetos reais.

Figura 1 – Alegoria de Platão
Fonte: ConhecimentoCientífico.r7, 2019

Depois Sócrates pede que Glauco considere como hipótese o homem sendo retirado à força do subterrâneo. A consequência dessa exposição violenta à luz do Sol seria não conseguir discernir inicialmente a verdade mostrada a ele. O homem precisaria habituar-se à claridade para então poder ver, mas uma vez que o fizesse inevitavelmente se lembraria dos seus companheiros de cativeiro e lamentaria por eles; angústia compartilhada pelo BTS (2013b) na letra de N.O: “Dizem que estou a caminho da felicidade / Então, como você explica minha infelicidade? / Não há tópicos de conversa além de estudar / Lá fora, há tantas crianças como eu, vivendo a vida de um fantoche / Quem assumirá a responsabilidade? ”.

No texto de Platão (2012), os interlocutores concordam que o homem, após conhecer o Sol, não se conformaria com a escuridão e Sócrates adverte Glauco quanto a não dever se surpreender com aqueles que param de se ocupar com as coisas mundanas após contemplarem a elevação de sua alma por meio do conhecimento. N.O (BTS, 2013b) segue a mesma linha discursiva: “Todo mundo diga NÃO! / Não vai mais funcionar / Não seja capturado nos sonhos dos outros”.

Há uma preocupação explícita em relação ao sistema educacional tanto em No More Dream (BTS, 2013a) quanto em N.O (BTS, 2013b). Na letra da primeira existem versos que se dirigem de maneira inquisidora a alguém que não se opõe a seguir o predeterminado pela tradição ainda que com isso suas vontades sejam anuladas:

Por que você não diz nada? Você não quer estudar / Você está com muito medo de sair da escola, certo? Veja, você está se preparando para a escola / Cresça, não apenas fale, você tem uma mente fraca, garoto / (Pare!) Pergunte a si mesmo, quando você se esforçou (BTS, 2013a).

Em N.O (BTS, 2013b) temos uma insatisfação confessada quanto ao modo como se configura a escola. Na música nos é apresentada uma rotina com a qual não se pode romper porque, tal como os homens acorrentados à caverna, os alunos estão presos ao que foi escolhido para eles pelos adultos:

Sonho se foi, não há tempo para respirar / Escola, casa e sala de computadores é tudo o que temos / Vivemos a mesma vida / E temos que nos tornar o número um / Para nós, é como um espião duplo entre sonho e realidade.

Quem foi quem nos transformou em máquinas de estudo? / É o número um ou um fracasso / Eles nos prendem nas fronteiras, os adultos / Não há escolha a não ser consentir (BTS, 2013b).

A Alegoria da Caverna também contém críticas ao modo como se tenta limitar o conhecimento. Sócrates frisa que a ruptura com o estado de ignorância só se dá quando o homem, antes feito prisioneiro, pode se desprender do conhecimento restrito que dependia das formas projetadas por outros em um espaço limitado. A isso a letra de No More Dream (BTS, 2013a) ecoa ao pedir: “Pergunte-se sobre o perfil do seu sonho / Torne-se o assunto de sua própria vida, longe da repressão”.

Podemos concluir, portanto, que o diálogo inicial do Livro VII de A República (PLATÃO, 2012) é, em parte, uma discussão sobre a falta de perspectiva dos indivíduos que continuam presos ao que lhes foi determinado e não podem ver mais do que aquilo que está diante deles.

Indivíduos ensinados a desejarem — em um pastiche do trecho de No More Dream (BTS, 2013a) que inicia esta resenha — uma grande casa, grandes carros e grandes anéis, mas não a terem um propósito para além da obtenção de bens materiais ou da realização de feitos já preestabelecidos por uma tradição como, por exemplo, se formar no ensino regular, ir para a faculdade e ter um emprego. É preciso que a essas pessoas se pergunte “Ei, qual é o seu sonho? ” (BTS, 2013a).

Referências

  • BTS. No More Dream. Seul: BigHit Entertainment, 2013a.
  • BTS. N.O. Seul: BigHit Entertainment, 2013b.
  • PLATÃO. A República. Brasília: Editora Kiron, 2012.

Glossário

  • Excerto: fragmento, trecho.
  • Agrilhoados: aprisionados, presos por correntes.
  • Ascendente: aquilo que se dirige para cima.
  • Títeres: marionetes.
  • Turvar: tornar turvo, nublar.
  • Interlocutores: cada uma das pessoas que participam de um diálogo.
  • Mundanas: do mundo, terrestres, próprias do convívio humano. Tais coisas, dentro da filosofia platônica, estavam em oposição ao mundo das ideias.
  • Inquisidora: própria de um inquérito; com muitas de perguntas e questionamentos.
  • Frisa: destaca, sublinha, afirma.
  • Pastiche: nesse caso, é uma forma de reescrever o texto de alguém usando as mesmas palavras, mas modificando um pouco do sentido porque elas aparecem em um novo contexto.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *