Sangue, Suor e Cores – A Psicologia em Wings

M/v Blood Sweat & Tears

Gardênia Pereira e Alicia Mesquita
Revisado por: Brunna Martins e Julyanna Dias

Em outubro de 2016, o mundo conheceu um novo trabalho dos garotos à prova de balas. Com uma nova era, também um novo mundo se iniciava. Formado por quinze músicas, Wings nos entrega canções e mensagens sobre um lado da juventude em que encontram novos desafios, que ponderam e agonizam durante mais um percurso. Eles experimentam dores e alegrias, sendo pássaros que saem dos ninhos para se aventurarem no primeiro voo. 

O álbum, como um todo, poderia facilmente ser denominado como uma obra de arte, pela capacidade de ir além de uma experiência sonora. A experiência beira a completude, ela é sonora e visual, tornando a narrativa do álbum íntegra, mas, ao mesmo tempo, aberta para diversas interpretações. 

Quem viveu, não a esquece. Quem não, sente vontade de ter vivido. Assim como cada era é única, a experiência de vivenciar Wings é extraordinária. O despertar de sensações que essa parte da narrativa proporciona precisa ser apreciada e difundida. 

As cores predominantes na era, desempenham um papel importante na percepção e busca por tais sensações. A Psicologia das Cores explica o poder visual que tonalidades podem exercer sob a percepção humana. Tanto nas fotos promocionais, quanto no M/V e figurino, predominam certas cores que estão presentes em boa parte das produções: o verde, vermelho, azul e roxo.

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O vermelho: “a cor de todas as paixões” – do amor ao ódio. A primeira cor a ser nomeada da história da humanidade traz consigo a simbologia do fogo e sangue. Ambos elementos, em todas as culturas, trazem um significado existencial, apesar do vermelho se remeter a sentimentos como raiva e amor, dependendo da tonalidade. A autora afirma que cores secundárias e terciárias, ou seja, a combinação de outras cores com o vermelho, pode determinar melhor qual sentimento aquela cor “quer transmitir”. 

Segundo Heller (2013) para a Psicologia, o simbolismo do sangue, faz da cor vermelha a cor mais viva, a cor mais dominante das cores. É a cor da força, da vida. Ela se remete à atitudes positivas perante a vida.

M/v Blood Sweat & Tears

O roxo/violeta é a cor mais singular das cores. Ainda segundo Heller (2013), a cor não é usada despretensiosamente, tem a característica de chamar a atenção, distinguir-se da maioria. É uma cor rara que transmite poder. É chamada de cor dos artistas. 

M/v Blood Sweat & Tears

O verde é a cor intermediária. O vermelho é quente, o azul é frio e a temperatura do verde é agradável. O verde simboliza então a neutralidade, sua ação é determinada pelas cores que se colocam como pares. Segundo Heller (2013), a cor verde simboliza a vida no sentido mais literal da palavra, não só em relação a humanidade como um todo, mas tudo que de fato cresce. Nesse sentido, o verde possibilita infinitas tonalidades que trazem o mesmo significado. 

Mv Blood Sweat & Tears

Heller (2013) destaca que vermelho e verde são cores complementares, porém percebemos o azul e o vermelho como cores que contrastam com mais vigor, e trazem consigo a simbologia de força e colisão, mesmo que harmônicas. 

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O azul é a cor mais fria dentre todas as cores, essa afirmação baseia-se na experiência da pele clara que fica azul no frio, assim como os lábios. O gelo e a neve tem uma tonalidade azulada. Para Heller (2013), o azul é sempre mais sombrio. 

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Além das cores, observamos de forma geral o uso de espelhos e/ou formas em que é possível ver o reflexo. Para a psicanálise freudiana, o espelho representa a busca pelo íntimo, a busca pelo que há no interno, a busca pelo outro que habita nele próprio, a busca pelo desconhecido. Hoje, sabemos que esse conceito se repetiu em um dos mais recentes trabalhos, Black Swan, em que novamente a simbologia do espelho faz parte da narrativa. 

Segundo Jung, a psique se caracteriza pela capacidade ou atividade de criar imagens. Barcellos (2017) diz que alguns autores explicam que as imagens estão em nós, porque entraram em nós, vindas do mundo. Mas, para a teoria junguiana, as imagens estão no mundo porque saíram de nós, da alma. As imagens são sempre mais abrangentes e complexas que um conceito. Portanto, são o meio pelo qual toda a experiência se torna possível. 


Um dos pontos interessantes em Wings, envolvendo o Bangtan Universe ou não, é que sua história não é linear. Jung também afirma que temos a necessidade de transformar imagens em histórias, inserindo-as em um certo tempo. Contudo, todos os processos que pertencem à imagem, assim como a narrativa de Wings, não são lineares. Acontecem ao mesmo tempo, o tempo todo. Daí surgem muitas teorias ligando essa era a Fake Love e, como apresentamos parágrafos acima, com a mais recente Black Swan.

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Olho para mim mesmo
Em Ttukseom” 

Ainda pensando na formação da psique através de imagens, no trecho acima, da sétima faixa Reflection, é mencionado Ttukseom, que é um parque que fica ao lado do rio Hangang, em Seul. 
Jung também utiliza de figuras mitológicas para explicar muitos de seus conceitos. Assim, ancorando-se em sua teoria, é feita alusão entre Wings e o mito de Narciso.

No mito, Narciso rejeitava todas as donzelas que se apaixonavam por ele, até que uma implorou aos deuses para que ele soubesse o que é amar e não ser correspondido. Então um dia, durante uma caçada, ele encontrou uma fonte de água (geralmente representada pela cor azul nas pinturas) límpida e protegida por troncos de árvores e rochedos. Curvando-se para beber da fonte, ele viu seu reflexo, achando ser um belo espírito das águas. 

Ele tentava alcançar o reflexo, mas a água ficava turva e fazia a imagem desaparecer. Desesperado, ele mergulha na água, buscando, mesmo que inconscientemente, por si mesmo, mas acaba falecendo afogado. O que encontraram no lugar do corpo, porém foi uma flor roxa, rodeada de folhas brancas, que foi chamada de Narciso (BULFINCH, 2016).

Short Film de Awake – Flor branca é evidenciada muitas vezes  

Pode-se também fazer uma analogia entre o mito, as várias cenas e as letras em que o reflexo tem função de indicar uma busca pelo eu e como Jung entende o trabalho da Psicologia Analítica. Para ele, o cuidado será realmente efetivo quando estivermos mais próximos da imagem, “seja ela nos sonhos, fantasias (…) ou na história de um caso (como um mito)” (BARCELLOS, 2017). Ele propõe que é crucial não considerar as coisas como literalmente são, mas refletir como uma imagem.

Ao analisarmos os short films e traduções das letras, identificamos sentimentos predominantes: culpa, medo, dor, sofrimento, amor. Freud classificou dois instintos ou pulsões humanas: o de vida (associamos isso à escolha da cor verde nos M/Vs) e o de morte. A pulsão de vida objetiva a sobrevivência, presente no ID¹ (instância que satisfaz nossas necessidades) e neutraliza as tendências destrutivas do instinto de morte. No entanto, podem se apresentar impulsos agressivos, quando derivado do instinto de morte (MEDNICOFF, 2008). 

Por causa do meu amor infantil, perdi minha maneira
De sonhar
Afiei minha faca de ambição venenosa
Mas, para as ganâncias insustentáveis, a faca ficou sem corte
Eu sei de tudo
Esse amor é um outro nome para o mal
-Intro: Boy Meets Evil

Em Cypher part. 4, a rapline faz uso da raiva para construírem a força e se colocarem no topo. A ambição que os levou ao fundo do poço agora os impulsiona. Se antes eles estavam presos, agora eles dizem voar acima dos inimigos. Freud entenderia essas letras como uma formação reativa. É um processo psíquico que leva a ações que seriam o oposto do desejo original. A música fala sobre como eles saíram da “lama” para estarem livres hoje. Também menciona haters e diz, várias vezes, para eles amarem a si mesmos. Isso porque, pela teoria freudiana, eles substituem o amor pelo ódio (MEDNICOFF, 2008). 

Inclusive, como dito acima, amor e ódio são representados pela mesma cor, de certa forma confirmando a teoria.

Foi nesse momento também em que o grupo começou a ter mais sucesso e notoriedade, logo, suas conquistas passaram a ‘incomodar’ mais pessoas, que, provavelmente, desejam estar no lugar deles.

 “Ah, você quer ser a minha vida?
Vocês desesperados, apenas serão bala para o meu canhão”
- Cypher part. 4

Algo que foi “novidade” neste álbum, foi a presença dos solos. Cada membro teve uma faixa que nos arrancou suspiros e muitas reflexões. Era uma nova maneira dos garotos nos transmitirem seus sentimentos, o que gerou inúmeras teorias que intercalam o Bangtan Universe e a vivência do grupo, focando em suas individualidades. 

Pode-se observar durante os solos e a faixa título de Wings que existe uma predominância da pulsão de morte. Quando nos referimos as narrativas dos short films, do M/V de Blood, Sweat and Tears e suas letras, uma possível interpretação é a de que eles se encontram presos em uma relação da qual não conseguem se separar. 

Analisando, segundo a teoria freudiana, esta seria uma forma de não conseguir desviar a agressividade para fora, continuando um relacionamento que não os agrada, que traz dor e sofrimento, como forma de agredir a si mesmos, vivendo pelo princípio de morte (MEDNICOFF, 2008).

“Beije-me, não importa o quanto doa, torne este laço mais forte
Até que eu não sinta mais dor” 
- Blood, Sweat & Tears.

Uma outra interpretação, como já foi citado, é que, mesmo colocando o Bangtan Universe em segundo plano, Wings conta uma história. Conforme eles se dão conta de que estão em um ciclo vicioso e de abuso, os meninos se sentem culpados por terem caído naquela situação. Apoiando-se na teoria freudiana, esse sentimento de culpa pode ser explicado pelo superego². Ele é o “juiz”, instância de princípios morais, internalizado por sistemas de recompensas e punições colocados pelos pais (MEDNICOFF, 2008). 

“Eu não consigo escapar desse sofrimento
Por favor, salve o eu que está sendo punido” 
- Lie

A busca pela liberdade é retratada nesta narrativa. O ato de voar se remete à liberdade. Entendemos como liberdade, o autoconhecimento e, consequentemente, o crescimento. Quando abrimos nossas asas com coragem e nos encontramos internamente, crescemos. Esse processo é doloroso, mas somente passando por determinadas dores para que possamos despertar. Portanto, podemos relacionar ao M/V de Blood Sweat & Tears, que em vários momentos mostram lágrimas e asas. A liberdade é conquistada, mas muitas vezes dolorida. 

Mv Blood Sweat & Tears

Em Awake  e Lost, quando acordam frente à realidade distorcida e dolorosa, estão sem direção para ir, questionando-se o que fazer, que caminho tomar. Segundo Freud, o mundo externo é uma fonte de suprimentos e satisfação, mas também é fonte de ameaça, podendo causar sofrimento e tensões (MEDNICOFF, 2008). 

Nesse momento, ao que parece, eles estão despertando para o mundo, diferente do que conheciam quando estavam presos. Eles estão perdidos, mas como dizem em Lost: não desistirão do sonho.

Uma outra teoria, chamada de Logoterapia, também pode explicar partes das letras e mensagens dessas músicas. Viktor Frankl, autor dessa teoria, diz que toda vida tem um sentido. Com isso, todo ser possui liberdade para descobrir o sentido de suas próprias vidas. Para ele, é importante termos atitudes que nos aproximem da realização daquilo que tem sentido (SILVEIRA & MAHFOUD, 2008). 

Frankl dirá que nos movemos para além de nós mesmos, nos direcionando para esse sentido. Por isso que, mesmo no desamparo, o BTS não pretende desistir dos seus sonhos e daquilo que dá sentido às suas vidas, seja a arte, suas músicas e/ ou nós, ARMYs.

Estamos no mesmo barco, mas olhando em direções diferentes. Nós sete somos diferentes porque crescemos em origens diferentes e gostamos de coisas diferentes. Tudo bem, desde que reconheçamos que estamos no mesmo barco” 
- Kim Namjoon 


Mesmo com toda a dor do passado, eles mostram um caminho mais realista, nem tudo serão flores e sempre haverá pessoas que dirão comentários ruins. As lágrimas e feridas existem (e sempre existirão). Nesse álbum, eles ainda querem se esquecer para colocar os outros em primeiro lugar,  no entanto, é aí que começam a dar esperança de que dias melhores virão quando estivermos juntos.

Por fim, BTS fala sobre uma criança inocente, que era feliz e pequena, mas agora, depois de passar por tudo isso, eles fazem o que é condizente com suas vontades e desejos. O começo difícil pode prometer um futuro próspero, permitindo “voos altos”. Eles aprenderam a ser valentes, a ter fé e a não se arrepender das escolhas, pois toda aquela experiência os levou a confiar em si mesmos. 

“Leve-me para o céu
Me lembro do meu jovem eu
Eu não tinha nenhuma preocupação
Estas pequenas penas se tornaram asas
Porque eu estava cheio de fé
Que essas asas fossem me fazer voar”
- Interlude: Wings
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Terminamos essa análise com um pequeno questionamento. Talvez, em Wings, iniciou-se o bater das asas para um novo lugar. Quando eles começaram a se perceberem como pessoas que valem a pena e que são importantes, passaram a transmitir essa mensagem a outras pessoas, se transformando por sua vez, em asas para elas. 

“Eu acredito em mim, em você
E mesmo que o início seja humilde
O futuro será próspero
Voe, voe no céu
Voe, voe, leve-os para o alto” 
- Interlude: Wings

Glossário: 

  • ID¹: Para a psicanálise, é instância que satisfaz nossas necessidades) e neutraliza as tendências destrutivas do instinto de morte.
  • Superego²: Para a psicanálise é instância de princípios morais, internalizado por sistemas de recompensas e punições.

Referências 

  • BARCELLOS, G. Psique e imagem: estudos de psicologia arquetípica; Rio de Janeiro: Vozes, 2017.
  • BULFINCH, T. O livro de ouro da mitologia: histórias de deuses e heróis. Trad.: David Jardim. 2a ed. Rio de Janeiro: HarperCollins Brasil, 2016.
  • MEDNICOFF, E. Dossiê Freud. São Paulo: Universo dos Livros Editora Ltda, 2008.
  • HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Gustavo Gili, 2013.
  • SILVEIRA, D. R.; MAHFOUD, M. Contribuições de Viktor Frankl ao conceito de resiliência. Estudos de Psicologia: 25(4), Campinas, p. 567-576, outubro-dezembro, 2008.
  • JUNG, C. G. Definições (1920). In: Obras completas. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. v. 6.

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