Pandemia: Porque a Coreia do Sul se tornou referência mundial em controle e o desempenho das empresas do entretenimento frente a uma nova demanda

Bang Bang Con – Foto: Reprodução/ Redes Sociais Big Hit Entertainment

Por Ana Luíza Gomes
Revisado por Cristiane de O. Machado e Elinaete Sabóia

O novo coronavírus se tornou a pauta mais recorrente devido ao grande número de infectados e mortos. A cada dia que passa, a procura por uma solução e uma vacina crescem consideravelmente. No Brasil, enquanto os casos só aumentam, na Coreia do Sul, a realidade é outra. Portais de notícia falam sobre como o país do leste-asiático se tornou referência mundial no controle do Covid-19, e o que muitos gostariam de saber é como foi possível obter esse resultado, como as empresas de entretenimento sul-coreanas estão lidando com a nova demanda e até mesmo como conseguiram visualizar oportunidades através do isolamento social. 

Para auxiliar nesse entendimento, fizemos um mapa temporal de como a Coreia do Sul agiu desde o surgimento do vírus descoberto em Wuhan, na China. Segundo o site Setor Saúde, tanto os Estados Unidos quanto a Coreia confirmaram seus primeiros contaminados no dia 20 de Janeiro de 2020. Nesse meio tempo, mesmo com apenas quatro casos confirmados, o país asiático passou a agir rapidamente, fazendo testes em massa e disponibilizando-os gratuitamente para a população, que teve fácil acesso.

Após o primeiro caso confirmado, a Coreia passou a rastrear os movimentos dos infectados, fazendo parcerias com empresas de tecnologia para que as informações fossem repassadas à população. As mensagens, curtas e diretas, eram transmitidas em tempo real para informar acerca das precauções devidas contra o coronavírus. “Novo confirmado no bairro Seodaemun, mulher de 58 anos”, ilustra a brasileira Isabela Canani, de 23 anos que estuda Teatro Musical pela Dankook University.

Ela também explica que alguns locais aderiram medidas de controle ainda na entrada. “Há uma lista na entrada para as pessoas assinarem antes de entrar. Assim, se algum infectado passou por aquele lugar, as autoridades entram em contato com as pessoas que assinaram a lista no mesmo período do infectado, pedindo para que façam o teste. Isso aconteceu com minha amiga, ela recebeu uma mensagem do governo informando que passou por um local infectado e pedindo para ela fazer o teste”. A entrada de público para programas musicais, conhecidos por promoverem os lançamentos de grupos de K-pop e K-idols, foi vetada, assim como fansigns e coletivas de imprensa presenciais.  

Isabela Canani, já havia morado na Coreia para estudar o idioma coreano, mas retornou após ganhar uma bolsa pela GKS-U 2020.

Isabela chegou no final de fevereiro no país, quando os números ainda eram muito altos. Se viu sozinha e tendo que se adaptar a pandemia e a faculdade, “Foi bem difícil, pois mudar do Brasil para a Coreia para fazer faculdade já é uma grande mudança por si só, e aí adicionar a pandemia foi bem pesado para minha saúde mental.”, diz a estudante. Em 13 de fevereiro havia apenas 28 casos confirmados, acreditava-se que estaria tudo sobre o controle do governo, mas após um culto em Daegu, os casos dispararam e em 18 de fevereiro o país registrou 505 novos infectados.

De acordo com a BBC News, foi no dia 11 de março que a Organização Mundial de Saúde (OMS) declarou oficialmente a pandemia do novo coronavírus e a Coreia do Sul já figurava como um dos países mais afetados, dentre 114 países onde o vírus se alastrava. Ao mesmo tempo em que os registros eram altos, as orientações do governo conscientizavam a população, que logo compreendeu a gravidade e tomou as medidas cabíveis para um isolamento social. Para Du Sol Paik, que já morou em Santiago, no Chile, e em São Paulo, onde estudou e se formou em Relações Internacionais, a população simplesmente seguiu as orientações do governo coreano.

“Tínhamos consciência e confiança de que o governo estava realmente dando as orientações necessárias”, afirma Du Sol Paik. 

Sol é coreana, trabalhou como coordenadora da Korean Broadcasting System (KBS) para América Latina, que tem sua oficina em São Paulo, e intérprete de inúmeros artistas sul-coreanos que, inclusive, já realizaram diversos shows no Brasil, tais como SHINee, BTS e Mamamoo. Ela também foi uma das autoras, junto com Babi Dewet e Érica Imenes, do segundo livro sobre cultura coreana “K-pop: Além da Sobrevivência”, da editora Gutenberg. 

Du Sol Paik (Instagram: @duusol) é uma das escritoras do livro “Além da Sobrevivência”, onde compartilhou suas experiências e informações importantes sobre a Hallyu.

“Muitos dos sul-coreanos costumam realizar compras por aplicativos. A maioria dos serviços está disponível online e a cultura de encomenda é mais do que comum. Então, não foi difícil ter que lidar com o isolamento”, relata Sol. Além da população, os estabelecimentos comerciais também seguiram as medidas restritivas, passando a disponibilizar álcool gel para os clientes. Como não houve lockdown, os comércios fechados ou que optaram por oferecer apenas serviços on-line adotaram medidas mais rígidas de higiene por conta própria. O governo também tomou medidas para cuidar da vida financeira da população durante a pandemia, todos os cidadãos receberam um valor baseado em seus ganhos e gastos. 

Em junho, durante a palestra online “O uso de tecnologias no combate à pandemia – O exemplo da República da Coreia”, iniciativa do FutureCom, o Embaixador sul-coreano, Kim Chan-Woo, relatou que, após a Síndrome Respiratória do Oriente Médio (MERS), em 2015, o governo sul-coreano obteve informações suficientes a fim de se precaver para possíveis epidemias futuras, o que foi imprescindível no atual momento, em que medidas para combater o coronavírus tiveram de ser adotadas rapidamente. A partir de 1° de abril, a Coreia do Sul decretou que todos os viajantes do exterior, de qualquer etnia, seriam colocados em quarentena obrigatória por duas semanas.  O caos em outros países, com o aumento de contaminados e mortos, fez diversos shows ao redor do mundo serem adiados e a taxa de lives de artistas subir consideravelmente.

No Brasil, essas lives altamente produzidas tinham a intenção de arrecadar doações para pesquisas e apoio no combate do coronavírus, além de entreter a população que se via em lockdown. Lives de Instagram também foram uma fuga para artistas, bem como o V app (aplicativo coreano de lives). As empresas se viram diante de uma nova situação, a qual vislumbraram uma oportunidade de expandir seu público através de lives pagas super produzidas, que davam a impressão de uma substituição, com propostas de imersão, interação e experiência simular aos dos shows presenciais.

“O entretenimento sul-coreano viu isso como uma oportunidade de expandir sua presença online para atingir mais o público do exterior, que realmente não consegue sair de casa. Digo isso porque a população sul-coreana não “sofreu” por não poder sair de casa, porque o isolamento domiciliar nunca foi uma obrigação”, afirma Sol Paik.

Após a participação do BTS no episódio especial do Late Late Show, HOMEFEST, programa apresentado por James Corden que ocorreu em março, no dia nove de abril, as redes sociais do grupo divulgaram a Bang Bang Con, live grátis, transmitida pelo YouTube na conta BANGTANTV durante os dias 18 e 19 de abril, às 00h BRT. As transmissões, que durariam cerca de 8 horas, disponibilizaram conteúdos pagos já gravados. Dessa forma, foi divulgado o modelo da edição especial da ARMY BOMB para a Map Of the Soul Tour, para que os fãs pudessem acompanhar a live com a nova tecnologia avançada que ela prometia. Em pouco tempo o lightstick se esgotaria, mesmo com as datas para a turnê adiadas e sem previsão para o retorno das atividades. 

Foto: Reprodução/ Redes Sociais Big Hit Entertainment

Em contrapartida, a Coreia do Sul registrava a marca de 10 mil infectados e 174 mortes, adotando medidas drásticas, tendo em vista que, na Itália, os números de mortos estavam elevados.

Para Sol, o clima na Coreia nunca foi de aflição ou desespero, como nos demais países onde as pessoas começaram a fazer estoque de mantimentos. “Isso ainda me surpreende bastante. Uma prova disso é que nunca faltou nada nas prateleiras dos supermercados”, relata.

Essa mesma sensação foi sentida por Isabela, que mesmo estando assustada no início, logo foi tranquilizada pela movimentação coreana. “Eu só conseguia pensar que, se for para passar por um “apocalipse”, eu não queria estar passando por isso sozinha, queria estar perto daqueles que amo. Então, acho que isso foi o mais difícil para mim. Mas a Coreia desde o início mostrou que sabe lidar bem com esse tipo de coisa, então nesse sentido eu estava aliviada”, diz Isabela. 

No final de abril, estabelecimentos que haviam fechado como boates, restaurantes e bares, foram abrindo gradativamente, confiando que o vírus estaria sumindo do país, alunos estrangeiros começaram a sair de seus alojamentos para aproveitar o país, e para Isabela ainda era muito cedo, o que a preocupou, “Logo que abriram de novo (início de maio), os alunos estrangeiros da minha universidade começaram a frequentar, como se nada tivesse acontecido. Isso me marcou porque eu lembro que pensei “só porque as baladas reabriram não quer dizer que seja seguro”, e achei eles um pouco loucos de irem em baladas em meio a pandemia.”.

A estudante tem aulas online, mas devido ao seu curso ainda necessita de aulas presenciais e circula pelos prédios da instituição após fazer uma série de procedimentos.

“Na entrada, temos que todos os dias medir nossa temperatura e anotar numa lista (nome, temperatura, e se temos algum sintoma). Também na entrada, há álcool gel disponível para passarmos. Uma vez por mês (mais ou menos) eles fazem desinfectação dos dormitórios. E está proibida a entrada de qualquer pessoa que não more no dormitório.”.

Em maio a preocupação voltou a Coreia do Sul, quando após 12 dias com uma baixa taxa de infectados, o governo coreano registrou 35 novos casos. Segundo o portal de notícias RFI, foi aconselhado o fechamento de alguns locais públicos em Seul, na província de Gyeonggi e Incheon, assim como priorizar serviços de teletrabalho, depois que um homem de 29 anos foi a clubes em Itaewon. Imediatamente as autoridades pediram para que aqueles que tivessem frequentado os locais fossem testados. De acordo com o El País, até o dia 28 de maio haviam 79 novos casos, 54 deles funcionários da empresa Coupang. 

Apesar do susto em maio, junho veio com a diminuição da propagação do vírus e o aumento do controle da doença, com o cotidiano, aos poucos, voltando ao normal. Porém, acredita-se que o coronavírus não irá desaparecer em poucos meses, logo, o uso de máscaras e um novo estilo de vida faz-se necessário. A chegada de junho também é marcada pelos ARMYs pela comemoração do aniversário de Debut do BTS, que sempre é presenteada com uma live paga e um show para um grupo seleto de fãs.

Ano passado, ela foi aderida ao conhecido Muster (fanmeeting em que o BTS faz algumas performances, brincadeiras e interage com fãs). Já este ano, no entanto, foi necessário tomar certas medidas de proteção, e substituir o que o adiamento da turnê prejudicou. O habitual calendário que promove a data traz consigo ensaios fotográficos exclusivos, vídeos especiais de ensaios ou entrevistas, além do lançamento de músicas inéditas e regravações. Para os sete anos de debut, além da música interpretada por Jungkook, “Still With You”, onde ele expõe seus sentimentos diante a saudade dos fãs, um music video animado de “We are bulletproof:  The Eternal” também foi adicionado ao canal BANGTANTV. 

A promoção e produção da Bang Bang Con paga precisou se adequar à “agenda” de 2020 e ao que estava sendo entregue em outras empresas e programas. A corrida para superar a concorrência e diminuir perdas necessitou de uma nova fórmula, como por exemplo, a inclusão de intervalos para propagandas de produtos personalizados do BTS. Com o novo formato, vieram também novas impressões por parte do fandom ARMY. Segundo Bruna Almeida, estudante de Relações Internacionais, as propagandas foram necessárias e não a incomodou. Já para ESD, um dos membros do B-Armys Acadêmicas (BAA), não foi do seu agrado a substituição dos VCR’s por propagandas. Bang Bang Con possuía 6 câmeras em ângulos diferentes, com função de escolha entre elas, além da possibilidade de visualizar o mapa com a localização dos pontos de stream de ARMYs ao redor do mundo. Os cenários davam uma visão caseira, ao mesmo tempo em que era elegante, diversificada e imersiva.

O servidor também foi um ponto positivo para Bruna. “Das lives do BTS que eu já assisti, por exemplo, o show do Wembley, essa eu achei mil vezes melhor porque não travava. Deu para assistir tranquilo e tinha um chat do lado. Eu gostei bastante, foi melhor do que no Vlive”, relata a estudante. No entanto, um dos serviços da nova proposta para o Bang Bang Con foi o acesso para reassisti-la, o que não foi liberado até a presente data.

A adaptação ao novo estilo de vida produziu um enfoque diferente de entretenimento, com a adequação para a expansão de conteúdos onlines preparando as empresas para o “novo normal” do mundo. Isto contribuiu para que as empresas pudessem se reinventar, construindo novos métodos, agregando um público fadado ao isolamento e a tensão psicológica. Antes da pandemia do Covid-19, via-se casa, trabalho, escola e entretenimento quase que separadamente; Hoje, entendemos que eles podem coexistir pacificamente, e que nossos hábitos podem ser modificados de acordo com o contexto social em que vivemos. Enquanto a vacina não é uma realidade, a precaução ainda é a melhor solução. As medidas de prevenção e conscientização adotadas pelo governo foram de suma importância para a conscientização da população, fazendo da Coreia do Sul uma referência mundial no combate ao coronavírus.

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