“Quanto mais escura a noite, mais forte o brilho da estrela”: uma breve interpretação do impacto do BTS nos dias atuais

Ilustração por @danicobr — ‘As luzes que vemos um no outro’

Brunna Martins
Revisão: Helmer Marra e Mariana Mathias

Em setembro de 2018, o BTS participou da 73ª Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU). Para além do peso histórico de ser “o primeiro grupo de K-pop a realizar este feito” — e como essa frase vem se tornando orgulhosamente corriqueira —, o discurso declamado por Kim Namjoon marcou uma geração. 

“Meu coração parou quando eu tinha nove ou dez anos” é um profundo verso de Intro: O!RUL8,2?, e ao citá-lo no discurso, Namjoon explicou que, nessa época, começou a preocupar-se com o que as outras pessoas pensavam de si, enxergando-se não mais pelos próprios olhos, mas pelos alheios.

“Meu pai disse para aproveitar a vida
Eu quero perguntar ao meu pai se ele aproveitou a vida dele”
— Intro: O!RUL8,2?

Moldando-se ao padrão da sociedade, RM parou de olhar para o céu, para as estrelas e, também, de sonhar acordado. Logo, começou a calar a própria voz. Na coletânea de ensaios autoetnográficos publicados no livro ‘I Am ARMY’, Eaglehawk (2020) esclarece que “para o BTS, ‘falar por si mesmo’ faz parte do processo de ‘amar a si mesmo’ — que eles estavam compartilhando com o mundo”.

Figura 1: BTS discursando na ONU, 2018
Fonte: The Washington Post

“Ninguém chamava o meu nome, nem eu mesmo. Meu coração parou e meus olhos se fecharam. (…) Mas eu tinha um santuário e era a música. Havia uma voz dentro de mim que dizia ‘acorda, cara, escute a si mesmo’. Mas levou um longo tempo para que eu ouvisse a música chamando meu verdadeiro nome”.
— Kim Namjoon em discurso na ONU, 2018
(tradução: Bangtan Brasil Legendas

Portanto, temos aqui um ponto de ruptura: como sete jovens completamente diferentes, mas apaixonados pela música, poderiam sobreviver fiéis a sua essência — falando por si mesmos e amando a si mesmos — em meio a uma indústria e a uma sociedade, onde aqueles que não agradam são descartados?

TS (방탄소년단) ‘IDOL’ Official MV – BigHit Entertainment

“Eles apontam o dedo pra mim
Mas eu não dou a mínima
Não importa qual seja
a sua razão para me culpar
Eu sei o que sou
Eu sei o que quero
Eu nunca vou mudar
Eu nunca vou negociar (…)
Você não pode me impedir de me amar”
IDOL

Dois anos depois, em meio a uma pandemia que, infelizmente, já nos levou milhões de pessoas e nos afastou de outras tantas, o BTS voltou a ONU para uma nova mensagem. 

Min Yoongi iniciou seu discurso dizendo: “Talvez, pela primeira vez, a vida tornou-se simples. Não era o que queríamos, mas foi um tempo precioso e bem-vindo”. Confesso que os relatos de Yoongi sobre o período que estamos vivendo foram os que mais chamaram a minha atenção, por dois motivos: primeiro, porque dizer que a pandemia trouxe um “tempo precioso” não me parecia certo; segundo, porque eu me identificava profundamente com suas palavras e culpava-me por isso. Como toda mente brilhante carrega beleza em sua complexidade, levei algumas noites para entender com clareza o que Suga queria nos transmitir e peço sua permissão para explicar isso através de um relato pessoal. 

Até o início de março de 2020, eu ainda não havia completado minhas duas décadas de vida e estava cursando o sexto período na universidade. Como moro no interior, acordava todos os dias às 4hrs30min da manhã, pegava um ônibus às 5hrs30min e chegava ao meu destino às 7hrs00min, onde tinha aulas até às 13hrs00min. Almoçava no restaurante universitário, na maioria das vezes sozinha  — pois especificamente neste período, havia afastado-me de meus amigos mais próximos —, e chegava no trabalho às 14hrs00min. Lá, eu cumpria o expediente até às 18hrs00min e esperava até às 19hrs00min para ir para casa. Eu descia do ônibus às 20hrs30min; até conseguir tomar banho e jantar, já passavam das 21hrs00min e eu precisava dormir para trilhar exatamente o mesmo caminho no dia seguinte. Até o início de março de 2020, eu sentia que não conversava mais com meus pais, que estava perdendo o crescimento do meu irmão mais novo e que essa rotina rasgava-me de dentro para fora, deformando-me de maneira lenta, desesperadora e inevitável. Aos finais de semana, além de tentar — sem sucesso — absorver as matérias do curso, dormia de 10 a 12 horas, tentando recuperar a energia que a vida me sugava. As noites de domingo eram as piores, pois saber que dali a algumas horas tudo começaria de novo, fazia-me chorar compulsivamente, bem como temer pelo dia que eu não suportasse mais.

Figura 2: Min Yoongi discursando na ONU, 2020
Fonte: Big Hit Entertainment

“Estou acostumado a um mundo inteiro se encolhendo em um instante. Quando estou em turnê, eu fico em pé em luzes intensas e altos gritos dos fãs. Mas a noite, em meu quarto, o mundo se torna apenas alguns passos de largura”.
— Min Yoongi em discurso na ONU, 2020
(tradução: BTS Subs)

A pandemia não é, nem nas mais distorcidas perspectivas, algo bom; o isolamento social, muito menos. Em um recente estudo feito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), Lima (2020) afirma que o confinamento imposto pela Covid-19 “vem colocando à prova a capacidade humana de extrair sentido do sofrimento e desafiando indivíduos e sociedade, no Brasil e em todo o planeta, a promoverem formas de coesão que amorteçam o impacto de experiências-limite na vida mental”.

BTS (방탄소년단) ‘Dynamite’ Official MV – Big Hit Entertainment

“Bem, a situação não é boa na Coréia e no exterior, certo? Então, quando criamos essa música pela primeira vez, queríamos fazer o que somos bons, o que fomos capazes de fazer, para dar força aos nossos fãs. Essa foi a maior motivação”.
— Min Yoongi sobre ‘Dynamite’, em entrevista para KBS
(tradução: BTS News Brasil)

A partir disso, entendo o termo “tempo precioso e bem-vindo” utilizado por Yoongi no discurso na ONU, não como advindo da pandemia, mas da inevitável pausa que foi imposta ao mundo. No livro ‘A sociedade de consumo’, Baudrillard (1995) inicia afirmando que as pessoas já não encontram-se rodeadas por outras pessoas, mas por objetos. Em um estudo sobre a obra ‘A vida para o consumo’, de Bauman, Caminha (2009) aponta que “atualmente, é o desejo humano de estabilidade o seu principal fator de risco”.

Min Yoongi, assim como todos os membros do BTS, antes de fazer parte do grupo número 1 na HOT 100 da Billboard, é um rapaz na casa dos 20 anos, assim como eu — e, possivelmente, como você —, que trabalha demais. Em ‘I Am ARMY’ (2020), Eaglehawk explica este fenômeno da seguinte forma:

“Veja, uma das qualidades inerentemente únicas do BTS é sua capacidade de contar histórias sobre si mesmos que ligam seu contexto ‘pessoal’ a um contexto ‘político’ universal mais amplo. É isso que faz com que a experiência vivida por sete homens coreanos soe verdadeira na vida de pessoas de origens muito diferentes ao redor do mundo”
(EAGLEHAWK e LAZORE, 2020).

O mesmo dia, a mesma lua
24 horas por dia, 7 dias por semana, tudo se repete
Minha vida está no meio disso
Desempregado, vinte e poucos anos, com medo do amanhã” 
- Tomorrow

Recentemente, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom, vem, por meio de seu Twitter, agradecendo ao BTS pelo incentivo ao uso de máscaras e pelas mensagens de conforto e cura através da música. Em 11 de outubro, horas após o último show online do Map of the Soul ON:E — evento esperado por todo o ARMY como um bálsamo em meio ao caos —, em uma publicação escrita em coreano e marcando o BTS, Adhanom chamou-os de “mensageiros de paz e amor”.

Figura 3: encerramento do Map of the Soul ON:E
Fonte: Big Hit Entertainment

O impacto positivo do BTS já foi reconhecido pelas principais e mais respeitadas organizações internacionais, além de ser possível ilustrar sua influência na indústria musical com gráficos que demonstram o crescimento orgânico e constante do grupo. No entanto, apesar disso, o BTS e o ARMY ainda são e, provavelmente, sempre serão confrontados, dia após dia, com situações que colocam sua filosofia à prova.

Horas após uma matéria sobre o discurso do Bangtan na 75ª Assembleia Geral da ONU ser publicada pela Reuters, a editora sênior do The Economist — cujo o nome acredito que não valha a pena ser citado, para o objetivo principal deste texto1 —, em seu perfil verificado no Twitter, fez o seguinte comentário: “Please no” (“Por favor não”, em tradução livre). Depois de receber as inevitáveis reações, dos mais diversos tipos, de pessoas que sentiram-se desrespeitadas de alguma forma, um outro post, onde pede desculpas por sua “brincadeira” ter sido mal interpretada, pôs um ponto final em sua participação neste episódio. Todavia, foi o bastante para que seus colegas, admiradores e alguns outros que não entendem o peso destas palavras surgissem em sua defesa. Entre eles, uma personalidade da TV inglesa foi um tanto mais explícita no teor de sua publicação: “Tudo isso sobre uma pequena boy band coreana que é fundamentalmente não importante?”.

Em um estudo sobre a obra ‘A ordem do discurso’, de Foucault, Brandão (2015) explica que “um discurso pode ser conceituado (…) em um sistema aberto que tanto registra quanto reproduz e estabelece os valores de determinada sociedade, perpetuando-os”. Portanto, uma frase, principalmente se dita por uma pessoa que representa uma figura de poder perante outra, não pode ser considerada somente uma “brincadeira” ou uma “inofensiva opinião”. Seu objetivo final é a perpetuação de valores de uma sociedade, neste caso, historicamente, racista, sexista e etnocêntrica. 

“Já que somos como alienígenas para a indústria musical americana,
não sabemos se há um espaço para nós ou não”.
— Kim Namjoon sobre o Grammy, em entrevista para Reuters
(tradução: Bangtan News Brasil)

No campo da Psicologia, tais situações são classificadas como microagressões. No livro ‘Microaggressions in Everyday Life’ (‘Microagressões na vida cotidiana’, em tradução livre), de Derald Wing Sue, o termo é conceituado como:

“(…) experiências constantes e contínuas de grupos marginalizados em nossa sociedade; eles atacam a auto-estima dos destinatários, produzem raiva e frustração, esgotam a energia psíquica, reduzem sentimentos de bem-estar subjetivo e dignidade, produzem problemas de saúde física, encurtam a expectativa de vida e negam às populações minoritárias igual acesso e oportunidades na educação, emprego, e cuidados de saúde” (Brondolo et al., 2008; Clark, Anderson, Clark, & Williams, 1999; Franklin, 1999; King, 2005; Noh e Kaspar, 2003; Smedley & Smedley, 2005; Solórzano, Ceja e Yosso, 2000; Sue, Capodilupo, & Holder, 2008; Wei, Ku, Russell, Mallinckrodt, & Liao, 2008; Williams, Neighbours e Jackson, 2003; Yoo & Lee, 2008, apud SUE, 2010, p. 6). 

Desde o início da carreira, o BTS já compartilhou muitas de suas angústias causadas pelo trabalho excessivo e o não reconhecimento deste. Segundo Eaglehawk (2020), “ser um ARMY é um dever, assumido de bom grado, de testemunhar a vida de um grupo de idols que está mudando o mundo apenas por existir em lugares que não foram construídos para eles”.

“Eu acho realmente incrível o fato de que as pessoas que gostam e nos apoiam estejam aderindo a causa dessa maneira. (…) Honestamente, não é fácil fazer esse tipo de coisa simplesmente porque você gosta de alguém”.
— Min Yoongi sobre o ARMY, durante a preparação para a 73ª Assembleia Geral da ONU
(tradução: Bangtan Brasil)

Há muitas teorias e interpretações acerca do music video de ‘On‘, e apesar de não ser uma especialista em análises do Bangtan Universe (BU), tomo a liberdade de concluir o pensamento que engloba este artigo, através de uma analogia entre frames que ilustram a narrativa do MV e a nossa realidade. 

Vivemos em uma sociedade baseada em desigualdade, seja de renda, de oportunidades, seja, até mesmo, de amor. Nos últimos anos, a onda do novo conservadorismo, os desastres ambientais e outras tragédias parecem ter, cada vez mais, tomado de maneira bruta a nossa capacidade de autocrítica, tolerância e acolhimento. A depressão é a doença do novo século e ocorre 1 suicídio a cada 40 segundos no mundo. Viver, para a maior parte das pessoas, não é uma tarefa fácil, sem obstáculos.

Figura 4: Frame do MV ‘On’, onde Seokjin encontra uma pomba branca morta por uma flecha
Fonte: Big Hit Entertainment 

Para a grande maioria do ARMY — e quem faz parte sabe —, o BTS chegou no momento exato. Não refiro-me ao seu debut em 2013, mas ao exato momento em que cada um de nós precisava de um novo fio de esperança para persistir e continuar a viver. Conectados pela arte, rompemos barreiras geográficas, culturais e linguísticas, bem como descobrimos que podemos coexistir em harmonia. Ao compartilhar sua trajetória — erros, acertos, derrotas e vitórias — e ao considerar seu fandom o principal motivo para serem o que são e estarem onde estão, o BTS criou um local de pertencimento, onde cada voz tem a sua devida importância.

Ilustração por @danicobr — ‘As luzes que vemos um no outro’

Sentindo-nos seguros, amparados e pertencidos, então, passamos a desejar e a agir para que o mundo a nossa volta também sinta-se assim. Nem todos que são fãs do BTS conseguem incorporar esses sentimentos, afinal, não somos telas em branco, e uma mensagem é recebida de diferentes formas por cada receptor. Mas o nosso notório senso de comunidade, talvez em algum dia, consiga transformar a sociedade em que vivemos. Por experiência própria, acredito que já estamos começando.

Figura 5: Frame do MV ‘On‘, onde a pomba branca renasce e voa em direção ao horizonte.
Fonte: Big Hit Entertainment

1Os nomes relacionados às microagressões não foram explicitados aqui, pois este não é um texto que evidencia a denúncia; seu objetivo principal é abordar o impacto do BTS por meio de sua trajetória, trabalho e arte. No entanto, entendo, como estudante de Jornalismo e membro do BAA, meu dever em garantir a credibilidade. Aos que quiserem saber mais sobre os ocorridos, indico o artigo de Bryan Rolli, publicado pela Forbes.

REFERÊNCIAS:

  • 방탄소년단 (BTS). Intro: O!RUL8,2?. Produzida por: Pdogg; arranjada por: Pdogg, escrita por: Pdogg, RM . CD digital. Faixa 1. Big Hit Entertainment, 2013. CD digital. Faixa 1.
  • 방탄소년단 (BTS). IDOL. Produzida por: Pdogg; arranjada por: Pdogg, Supreme Boi; escrita por: Ali Tamposi, Pdogg, “Hitman” Bang, Roman Campolo, Supreme Boi, RM. CD digital. Faixa 15. Big Hit Entertainment, 2018. CD digital. Faixa 15.
  • 방탄소년단 (BTS). Tomorrow. Produzida por: Slow Rabbit, SUGA; arranjada por: Pdogg, Supreme Boi; escrita por: RM, J-hope, SUGA, Slow Rabbit. CD digital. Faixa 6. Big Hit Entertainment, 2014. CD digital. Faixa 6.
  • 방탄소년단 (BTS). Intro: O!RUL8,2? (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-intro-o-rul82-english-translation-lyrics>. Acesso em: 10/10/2020.
  • 방탄소년단 (BTS). IDOL (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-idol-english-translation-lyrics>. Acesso em: 10/10/2020. 
  • 방탄소년단 (BTS). Tomorrow (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-tomorrow-english-translation-lyrics>. Acesso em: 10/10/2020.
  • 방탄소년단 (BTS). ‘ON’ Official MV. 2020. (5m54s). Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=mPVDGOVjRQ0>. Acesso em: 10/10/2020.
  • BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Rio de Janeiro: Elfos, 1995.
  • BRANDÃO, Ramon Taniguchi Piretti. Resenha: ‘A ordem do discurso’. Revista Interespaço, v. 1, n. 3 p. 392-398, 2015.
  • CAMINHA, Marina. A vida para o consumo: sujeitos como mercadoria. Revista Contracampo, n. 20, p. 205-213, 2009.
  • EAGLEHAWK, Wallea; LAZORE, Courtney. I Am ARMY: It’s time to begin. Austrália: Revolutionaries, 2020.
  • LIMA, Rossano Cabral. Distanciamento e isolamento sociais pela Covid-19 no Brasil: impactos na saúde mental. Physis: Revista de Saúde Coletiva, v. 30, p. e300214, 2020.
  • SUE, Derald Wing. Microaggressions in everyday life: Race, gender, and sexual orientation. John Wiley & Sons, 2010.

GLOSSÁRIO:

  • Autoetnográfico: estudos que usam a experiência e os sentimentos do autor da pesquisa como ponto de partida para a compreensão de questões mais amplas.
  • Fandom: diminutivo da expressão em inglês fan kingdom, que significa “reino dos fãs”. Um fandom é composto por um grupo de pessoas que são fãs de determinada coisa em comum.



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