SCHOOL TRILOGY: O APANHADOR NO CAMPO DE CENTEIO

Colaboradora: Mariana Mathias 
Revisão: Mariana & Helmer

The catcher in the Rye, em tradução para o português “O Apanhador no Campo de Centeio”, é uma história, que foi publicada em 1951 por J.D. Salinger, que ocorre durante a época natalina nos EUA, precisamente nos arredores de Nova Iorque. A trama envolve jovens, descobertas, dramas familiares e natal, tais elementos criam um ótimo filme Disney ou até uma sequência de “Esqueceram de Mim”, mas o autor do livro decide dirigir pela contramão. 

Figura 1 – Primeira edição de “The Catcher in the Rye”
Fonte: Wikipedia, 2020. 

Holden Caulfield está confuso, solitário, desdenhoso e curioso sobre como o mundo dos adultos funciona. Nosso protagonista quer questionar e entender o que o cerca, o que podemos concordar que são sentimentos comuns de um jovem de 16 anos. Desta forma, conhecendo um pouco de Holden,  você pode até concluir que  não há nada de errado com ele, que um pouco de amor, compreensão e diálogo, principalmente de seus pais, não teria suprido o que ele necessitava. Embora Holden esteja confuso e inseguro de si mesmo,  ele é observador, perspicaz e nutrido de uma certa sabedoria, o que nos faz perceber que até  seus erros e atos delinquentes pareçam menores quando contrastadas com as delinquências adultas com as quais ele é confrontado. 

As pessoas sempre estão pensando que alguma coisa é totalmente verdadeira. Eu nem ligo, mas tem horas que fico chateado quando alguém vem dizer para me comportar como um rapaz da minha idade. Outras vezes, me comporto como se fosse bem mais velho – no duro – mas aí ninguém repara. Ninguém nunca repara em coisa alguma. (SALINGER, 1991, p.12)

O livro se inicia quando nosso protagonista é expulso da escola Pencey Prep dias antes do Natal. O primeiro capítulo da aventura se desenrola quando Holden está a caminho da casa de seu professor de história favorito e deseja se despedir, antes de sair de Pencey

Figura 2 – A (in)visibilidade de Holden- Ilustrado por Kelly Wu
Fonte: Catcher in the Rye short film, 2020

Ele deseja contar ao seu professor Spencer que foi expulso por ter falhado na maioria de suas aulas. Porém, poderíamos pensar que Holden não detém de inteligência, contudo nosso herói faz escolhas que não são jus ao seu talento e é algo que seu professor favorito nos esclarece. Escrever sempre foi um dom de Holden, o que lhe rendeu bons elogios de seu professor favorito e ótimas redações a Ward Stradlater, colega de quarto de Holden.

– E a vida é um jogo, meu filho, a vida é um jogo que se tem de disputar de acordo com as regras.

– Sim, senhor, sei que é. Eu sei.

Jogo uma ova. Bom jogo esse. Se a gente está do lado dos bacanas, aí sim, é um jogo – concordo plenamente. Mas se a gente está do outro lado, onde não tem nenhum cobrão, então que jogo é esse? Qual jogo, qual nada. (SALINGER, 1991, p.11)

Após a visita e dos sermões de Spencer a Holden, ele vai para seu dormitório e encontra Ward Stradlater. Seu colega de quarto lhe pede para escrever uma redação para a aula de inglês, enquanto ele sai com uma amiga de longa data de Holden. Aceitando o trabalho, Holden escreve sobre a luva de beisebol de seu irmão mais novo, Allie, que morreu de leucemia.  Em meio a flashbacks, Holden sente falta de seu irmão e pensa sobre suas aventuras juntos. Ao terminar a escrita da redação, Holden entrega para seu amigo. Porém, o que era para ser um acordo entre eles, se torna uma briga com cambalhotas e socos quando Ward não deseja revelar se teve ou não relações sexuais com a amiga de Holden e, ainda, esbraveja com o escritor que detestou a redação sobre a luva de beisebol. Depois da briga, Holden decide deixar Pencey dias antes do planejado para as férias de Natal, partindo para Nova Iorque. 

Chegando por lá, cidade onde sua família mora, ele decide alugar um quarto no Edmont Hotel, já que não pode ir para casa, pois, seus pais ainda não sabem que ele foi expulso. O Edmont Hotel é local de descobertas na história, onde Holden testemunha cenas jamais vistas,  pelas janelas dos quartos vizinhos. Sozinho e com frio, Holden deseja contato humano, que o leva a Lavender Room, o bar do hotel. O lugar se torna vergonhoso quando Holden se depara com a ex namorada do irmão mais velho, o que faz com que ele saia correndo do bar, indo para outro bar onde tem a ideia de ligar para uma prostituta. De tal forma, com o pensamento comum sobre  um jovem, no ápice de sua puberdade, o que uma mulher poderia fazer; Holden apenas conversa com a mulher.  Entretanto, o que poderia ser um momento de diálogo, o qual Holden procura, o que ele recebe é um soco no estômago, literalmente. 

Na manhã seguinte, Holden sentindo dor dos socos, ele decide ligar para sua ex namorada, Sally Hayes, convidando-a para passear. Os dois passam o dia juntos, podendo admitir que foi um tempo agradável entre os dois, até o jovem fazer uma observação grosseira e ela sair chorando. Em meio a essa confusão, Holden se encontra em um bar com um ex-colega de escola, Carl Luce, porém o encontro não sai como o esperado, já que Luce se irrita com comentários de Holden deixando-o sozinho.  

Figura 3 –  A solidão de Holden – Ilustrado por Kelly Wu
Fonte: Catcher in the Rye short film, 2020

Nosso isolado herói se encontra irritado e bêbado, vagando pelo Central Park levando para o único local que ele não desejava ir: a casa de seus pais. Ele decide entrar escondido em sua casa, ainda não preparado para enfrentar seus pais, quando encontra sua irmã de 10 anos, Phoebe. Ela fica chateada quando ouve que Holden falhou e o acusa de ter gosto pela vida imoral, tal qual de perder todas as boas possibilidades que seu irmão poderia explorar.  Porém, o que poderia se tornar uma situação desdenhosa, Holden revela a irmã sua fantasia de ser “o apanhador no campo de centeio”, inspirado por uma música que ele ouviu um garotinho cantando: “Se um corpo pega um corpo vindo através do centeio”. Mas, sua fantasia não deslumbra Phoebe, que revela que as palavras são “Se um corpo encontra um corpo que passa pelo centeio”, de um poema de Robert Burns. (O poema de Burns, Comin thro ‘the Rye) o que desaponta nosso herói. 

Fico imaginando uma porção de garotinhos brincando de alguma coisa num baita campo de centeio e tudo. Milhares de garotinhos, e ninguém por perto – quer dizer, ninguém grande – a não ser eu. E eu fico na beirada de um precipício maluco. Sabe o quê que eu tenho de fazer? Tenho que agarrar todo mundo que vai cair no abismo. Quer dizer, se um deles começar a correr sem olhar onde está indo, eu tenho que aparecer de algum canto e agarrar o garoto. Só isso que eu ia fazer o dia todo. Ia ser só o apanhador no campo de centeio e tudo. Sei que é maluquice, mas é a única coisa que eu queria fazer! (SALINGER, 1991, p.191)

Figura 4 – The catcher in the Rye – Ilustrado por Kelly Wu
Fonte:  Catcher in the Rye short film, 2020

Logo eles ouvem seus pais chegarem em casa, depois de uma noite fora, e Holden foge. Ele liga para seu ex-professor de inglês, Sr. Antolini, que diz a Holden que ele pode ficar em seu apartamento. Desta forma, Holden adormece no sofá que acorda sentindo Antolini acariciando sua testa, o que Holden interpreta como um assédio sexual. Ele, desesperadamente, se desculpa e segue para a Grand Central Station, onde passa o resto da noite. Ao acordar, ele escreve um bilhete a Phoebe dizendo que planeja fugir e pede a ela que o encontre em um museu durante o almoço. Ela chega com uma sacola pronta, insistindo que os dois deveriam fugir juntos, porém ele nega e diz que o melhor lugar que os dois poderiam ir, seria ao zoológico. 

Figura 5 – A tristeza de Holden – Ilustrado por Kelly Wu
Fonte:  Catcher in the Rye short film, 2020

 Chegando lá, Holden observa sua irmã girando num lindo carrossel enquanto chove. Aos pingos caindo sobre a cabeça de Holden, o flashback termina com a imagem de um solitário, questionador e inseguro herói. A história tem seu fim quando Holden explica que depois daquele dia, ficou doente, mas que seria possível que ele vá estudar numa nova escola, no início do outono. 

Figura 6 – A inocência de Phoebe – Ilustrado por Kelly Wu
Fonte:  Catcher in the Rye short film, 2020

Esta queda para a qual você está caminhando é um tipo especial de queda, um tipo horrível. O homem que cai não consegue nem mesmo ouvir o baque do seu corpo no fundo. Apenas cai e cai. A coisa toda se aplica aos homens que, num momento ou outro de suas vidas, procuram alguma coisa que seu próprio meio não pode lhes proporcionar. Ou que pensavam que seu próprio meio não poderia lhes proporcionar. Por isso, abandonam a busca. Abandonam a busca antes de começá-la de verdade. (SALINGER, 1991,  p.207) 

Sendo assim, podemos observar que essa história é singular, em todas as linhas e páginas que folheamos, mas algo que podemos concordar com Holden é que, apesar de nós não encontrarmos o que desejamos e nossos planos não saírem da forma como esperamos, ao entrar no mundo dos adultos, podemos encontrar mentira,  imoralidade e a falsa autenticidade que os adultos tentam esconder de Holden, de mim e de você. 

Mas o que isso tem a ver com o BTS?  

A partir da trilogia escolar, o sentimento de busca, revolta e a mistura de múltiplas emoções em relação a ser jovem, assim como sua própria identidade que são elementos principais na arte do Bangtan. Ser quem você é ou ser quem os outros querem, a construção da sua personalidade como indivíduo é o questionamento de estar crescendo e construindo uma identidade, algo constante na trilogia escolar, ganhando atenção nas próximas eras. 

O primeiro amor, as profundas dúvidas sobre quem você é, as mentiras e verdades sobre o mundo que lhe contam, assim como as quais você mesmo descobre ao viver. As perdas de pessoas queridas e os momentos divertidos com pessoas que você ama, esses momentos mobilizam a identidade que você está construindo, conforme Jung afirma que

Os maiores e mais importantes problemas da vida são, no fundo, insolúveis; e deve ser assim, uma vez que exprimem a polaridade necessária e imanente a todo sistema autorregulador. Embora nunca possam ser resolvidos, é possível superá-los mediante uma ampliação da personalidade. (JUNG, 2001 apud MARONI, 2008 p. 46).

A transição da infância para a juventude é o momento que você desenvolve sua identidade. Claro que há uns toques de conto de fadas, mas também há sentimentos como a decepção, a tristeza, o medo e a sensação de se sentir incapaz assolam esta fase. Desta forma, a maneira a qual você lida com esses momentos, também é elemento que compõe a sua identidade. Já que você tem duas opções de lidar com essa transição: se tornar alienado ou decidir embarcar nessa aventura da descoberta de si mesmo. Senda tal escolha movida pela necessidade de saber quem você é, e Carl Jung discorre: “Se faltar a necessidade, esse desenvolvimento não passará de uma acrobacia da vontade, se faltar a decisão consciente, o desenvolvimento seria apenas um automatismo indistinto e inconsciente.” (JUNG, 1982, p. 296). Desta forma, ou você se torna mais um tijolo na parede ou você quebra essa parede que estão construindo ao seu redor sufocando quem você é. 

 O momento mais lindo da vida, conhecido como juventude, também pode ser o momento mais assombroso pelas circunstâncias que você vive, pelas pessoas que você convive e pelos sonhos e fracassos que você tem. E são esses mobilizadores que lhe questionam sobre quem você é, mas sendo você quem decide desenvolver sua identidade e seguir sua vida, de acordo com sua própria lei e valores. Jung explica de que “a personalidade jamais poderá desenvolver se a pessoa não escolher seu próprio caminho de maneira consciente e por uma decisão consciente e moral” (JUNG, 1982, p. 296).  

Em suma, podemos observar que na história de Holden e nas músicas de BTS, a vida tem momentos de falhas e de acertos, de felicidade e tristeza, assim como de coragem e medo. E de acordo com Jung, são esses mobilizadores que constroem quem você é. Então, cabe a você a seguir em frente e tentar conquistar seus sonhos, assim como construir sua verdadeira identidade. 

REFERÊNCIAS:

JUNG, Carl Gustav. Aion- estudos sobre o simbolismo do Si-mesmo. 2 ed. Petrópolis: Vozes, 1982

MORONI, Amnéris Ângela. Eros na passagem: Uma leitura de Jung a partir de Bion. Aparecida-SP: Ideias e Letras, 2008

SALINGER, Jerome David. The Catcher in the Rye. 4 ed. Estados Unidos.  Little Brown Usa, 1991.

WU, Kelly. “Catcher in the Rye” short film. 2020. Disponível em: https://kellywu.myportfolio.com/catcher-in-the-rye-short-film. Acesso em 25 de junho de 2020. 

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