“Músicas e Artistas Para Cura”: BTS No Processo Terapêutico No Espectro Autista

Gardênia Pereira e Alicia Mesquita 
Revisado por: Helmer Marra e Mariana Mathias 

A música está presente em muitas fases da vida e até constrói a “trilha sonora” de situações e momentos. Entre seus efeitos, estão os impactos nas emoções, nas respostas fisiológicas e no comportamento, como ativação de diversas áreas cerebrais, por exemplo as áreas responsáveis pela memória, linguagem e sentimentos (BIERNATH, 2019).

Assim como no artigo relação da música como ferramenta de cura já publicado, neste continuaremos a estudar o que na Psicologia chamamos de musicoterapia. Dessa vez, realizamos uma pesquisa que teve como objetivo observar os efeitos terapêuticos que a música do BTS possui em ARMYs, especificamente com Transtorno do Espectro Autista (TEA). Antes de falarmos sobre a pesquisa propriamente dita, sentimos a necessidade de contextualizar sobre o transtorno e sobre a Musicoterapia. 

O TEA se trata de condições marcadas por perturbações do desenvolvimento neurológico. Tendo três características básicas, que podem manifestar-se sozinhas ou associadas, sendo elas: dificuldade de comunicação por deficiência na linguagem e no uso da imaginação para lidar com jogos simbólicos; dificuldade de socialização; padrão de comportamento restritivo e repetitivo. 

Basicamente, é um indivíduo que compreende as situações de modo mais literal, com algumas particularidades comportamentais. Com isso, pode-se dizer que não necessariamente essas pessoas são “inferiores” a quem possui um desenvolvimento “típico”, apenas possuem especificidades.  O transtorno pode ser identificado  nos três primeiros anos de vida, quando os neurônios que coordenam a comunicação e os relacionamentos sociais deixam de formar as conexões esperadas e necessárias para essa fase do desenvolvimento. 

É importante ressaltar que a nomenclatura “espectro” determina-se dessa forma. Pois envolve situações e apresentações muito distintas umas das outras nas quais perpassam das mais leves às mais graves. 

Existem então, “níveis de autismo” e todos estão relacionados, em menor ou maior grau, com as dificuldades de comunicação e relacionamento social. Reforçamos que cada paciente é único, sendo assim, para cada pessoa é realizado um tipo de acompanhamento individualizado, que conta com a participação da família e equipe multidisciplinar. Sendo essa equipe formada por psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos e o que for demandado pelo tratamento. Logo, todas as formas de classificação devem ser levadas em consideração, pois, mesmo sem possuir diagnóstico de autismo, todos possuímos nossa própria forma de entender e nos colocar no mundo.

Chegamos então em um ponto comum entre o espectro autista e o BTS: a Musicoterapia. Como mencionamos anteriormente, essa modalidade é pensada na singularidade de cada indivíduo, a prática da musicoterapia é avaliada caso a caso e pode variar entre: criação, canto, dança e audição de músicas em diferentes estilos musicais. Essa prática é realizada entre profissionais musicoterapeutas em conjunto com as pessoas que se dispõem à experiência e a prática musical. 

Silva et. al (2016) cita duas categorias de trabalho terapêutico envolvendo música: A musicoterapia, técnica terapêutica de uso privativo do profissional musicoterapeuta para prevenção, reabilitação e tratamento de um indivíduo ou grupo de indivíduos. E a intervenção musical, uso da música como recurso terapêutico por profissionais da área da saúde, como enfermeiros, médicos, odontólogos, entre outros não-musicoterapeutas. O recurso é utilizado como facilitador entre o profissional e o paciente, para conduzir a terapia/tratamento ou para levar o paciente a um contato terapêutico consigo mesmo.

Sabe-se que, em pacientes do espectro, a musicoterapia é uma forte aliada no tratamento e desenvolvimento de habilidades, tendo sido cada vez mais utilizadas no acompanhamento de crianças autistas. Empregando-os como recursos terapêuticos ferramentas para que os pacientes expressem os seus sentimentos, inspirações, vontades, medos, dentre outras reações.. 

De forma geral, já estamos propensos a identificar-nos com melodias, emocionarmos-nos com uma letra ou até sentir arrepios com um instrumento musical. Por isso, a musicoterapia também é usada em pacientes fora do espectro autista, com foco na redução do estresse, relaxamento, concentração e diminuição de determinados sintomas.

Silva (2016) ressalta que o relaxamento constitui-se em um processo psicofisiológico de caráter interativo, que deve levar em conta três aspectos: fisiológico, subjetivo e comportamental. O fisiológico refere-se à um padrão do nosso sistema nervoso. O elemento subjetivo é notado através dos relatos verbais de tranquilidade. E o componente comportamental está relacionado a um estado de tranquilidade motora, assim pode ser observado pela linguagem corporal. A música, sob esse contexto, é utilizada para a indução de relaxamento.

As músicas do Bangtan acabam conectando-nos com o próprio grupo, com outras pessoas e conosco. A proposta de “música e artista para cura” é cada vez mais evidenciada, através da mensagem que é compartilhada por meio de suas ideologias, bem como nas letras das canções. 

Ainda segundo Silva et. al (2016) existem evidências de que a intervenção musical contribui para romper com os padrões de isolamento. Além de favorecer a comunicação verbal e não verbal, reduzir os comportamentos estereotipados, estimular a auto expressão e a manifestação da subjetividade de crianças com TEA. Dessa forma, estimula o desenvolvimento e descobrindo novos modos de brincar e socializar.

Uma postagem em uma mídia social  viralizou quando a mãe de uma criança dentro do espectro compartilhou que a mesma acalmava-se quando escutava a voz do J-Hope. A imagem nos mostra que possivelmente a criança se acalmava ao som da Mixtape “Hope World”. No grupo, Hope é aquele que nos anima, nos acolhe e, literalmente, nos proporciona esperança

Apesar de sua persona¹ ser mostrada sempre como alguém alegre e agitado, em “Hope World”, podemos observar que ele possui sentimentos comuns a todos os seres humanos. Ele quer amar, ser amado, fazer o bem e que o aceitem como é. Apesar de algumas melodias serem mais “elétricas”, ele transpassa aqueles desejos e sentimentos na voz, MVs e alguns ritmos.

“Eu só quero agradecer ao JHope. Meu filho autista de dois anos de idade tem grandes crises e esse é o único jeito de acalmá-lo. Ele imediatamente para e escuta sua voz.” 

Essa postagem de uma mãe agradecida pela maneira que a música acalma seu filho, desperta em nós muitos sentimentos positivos. Em nossa pesquisa, as participantes, todas do sexo feminino e com diagnóstico TEA, afirmaram que as canções do Bangtan provocam muitas sensações, variando de acordo com a forma como elas estão se sentindo, sendo o mesmo que Biernath diz em seu texto sobre musicoterapia. O autor ainda acrescenta que, na interpretação individual de músicas, é preciso considerar fatores históricos, sociais e culturais. 

Observamos esse aspecto ao analisarmos as respostas da pesquisa. A música desperta sensações e é uma maneira de linguagem, que não necessita da oralização e representa ajuda, um “pilar”. As músicas trazem sensações, transbordam lágrimas, dão esperança, calma, tranquilidade, liberdade, sensação de amor e euforia.

No questionário, pedimos para que elas ouvissem músicas específicas que foram pré-selecionadas por nós. Em “Hold me tight” (BTS, 2015), “Autumn Leaves” (BTS, 2015) e “Spring Day” (BTS, 2017), elas possuem algumas interpretações diferentes, como não desenvolver uma relação de significado com aquela música ou sentirem-se incomodadas  com o timbre de um instrumento. Porém, no geral, elas relataram sentirem-se leves, em paz, nostálgicas e até melancólicas. 

Entre as declarações, encontram-se falas como “A letra sempre me remete ao que eu sinto pelos meninos.” e “você sente saudade de voltar a tempos mais fáceis, onde estar com as pessoas que você gosta era possível”. 

Quando perguntadas sobre a forma como a música interfere no cotidiano dos pesquisados, de forma geral, é possível notar que todas usam as músicas para se acalmar, durante crises e para aflorar a criatividade, como a afirma um dos entrevistados “Fico agitada, e a música me coloca no lugar de novo… É como se meu cérebro precisasse disso”.

Estudos fortalecem o que as entrevistadas disseram, pois praticantes da musicalidade e ouvintes  apresentam maior capacidade de aprendizado, concentração, atenção, regulação emocional e até bom humor (WEIGSDING e BARBOSA, 2015). 

Uma das participantes mencionou que a melodia das músicas a ajuda a criar cenários, possibilitando-a escrever livros e histórias quase de forma automática enquanto escuta as  músicas. Interligando esta fala com o que foi exposto no parágrafo acima, uma possível explicação seria o fato de a musicalidade possuir o poder de facilitar a comunicação entre eventos, sentimentos e pensamentos que o indivíduo guarda para si (SAMPAIO, DUARTE e MAGALHÃES, 2016).

Além disso, segundo o DSM-V, alguns sinais do TEA incluem interesses restritos, tendência ao isolamento que também pode ser mantido pelos estigmas e preconceitos da sociedade acerca do autismo, bem como ser metódicos  a rotinas. A música tem potencial para desenvolvimento do sentimento de empatia e a aprender ter pensamentos mais flexíveis (SILVA e SILVA, 2019). 

A autonomia e a autoestima também podem ser construídas usando esse recurso, segundo as autoras supracitadas. Uma das entrevistadas falou que Serendipity (BTS, 2018) e Magic Shop (BTS, 2018) têm grande importância para ela, por terem ajudado no momento de aceitação do seu diagnóstico no TEA. Outra ARMY participante disse que “as palavras dessa música me fazem sentir que não estou sozinha”, referendo-se à Magic Shop

Uma delas afirmou que essa música lhe desperta sentimentos de tristeza e situações que já passou, mas vemos que quando essas emoções têm conotação “negativa”, ela consegue perceber e compreender esses sentimentos, possivelmente, até aceitando-os. A “loja mágica” é, inclusive, uma técnica do Psicodrama, que visa despertar, por meio de atividades dramáticas e artísticas a criatividade, espontaneidade e sensibilidade (SILVA e SILVA, 2019). 

Segundo Espinosa (1663) e (2013), a potencialidade reside no encontro, é por meio das relações que estabelecemos que nossa potência de existir é aumentada ou refreada. Podemos concluir que a relação que estabelecemos com a música é de fato especial, capaz de ser instrumento para processos terapêuticos essenciais no nosso progresso. 

Dito isso, não é raro vermos nas redes sociais ARMYs dizerem que encontraram o BTS – ou o grupo os encontrou – nos momentos que mais precisavam de apoio. Esses exemplos mantêm a missão da BigHit de fornecer “músicas e artistas para a cura”. A relação de cada ARMY com o Bangtan varia, seja pelo país onde nasceu, por como os conheceram e pela  música favorita. 

Embora a experiência de ser fã seja única e particular de cada um, existem alguns elementos comuns entre essas pessoas. Um desses elementos é justamente o fato de eles aumentarem nossa realidade, assim como ajudarem a mudar nossa forma de ser, estar e pensar sobre o mundo. 

Portanto, podemos  dizer que, por mais particular que seja a conexão com o BTS, ela é especial em níveis que não-fãs não entenderiam. Essa conexão é capaz de quebrar barreiras de idiomas, da distância e alcança pessoas em suas diversas particularidades.

Glossário

  1. Persona: Conceito da teoria Junguiana, que  se define por ser não aquilo que se é realmente, mas aquilo que se acha que é e o que as pessoas acham que se é. É uma combinação das expectativas do sujeito consigo mesmo com as expectativas da sociedade quanto ele próprio.

Referências

  • American Music Therapy Association (AMTA). Disponivel em: https://www.musictherapy.org/ . Acesso em 10 de agosto de 2020.
  • American Psychiatric Association. DSM-5 – Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais. Porto Alegre: Artmed, 2014.
  • Arndt, Andressa Dias, Cunha, Rosemyriam, & Volpi, Sheila. (2016). ASPECTOS DA PRÁTICA MUSICOTERAPÊUTICA: CONTEXTO SOCIAL E COMUNITÁRIO EM PERSPECTIVA. Psicologia & Sociedade , 28 (2), 387-395. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-71822016000200387&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 14 de agosto de 2020.
  • Biernath, André. O que é musicoterapia e qual o seu potencial. Veja, 18 de outubro de 2019. Saúde. Disponível em: https://saude.abril.com.br/bem-estar/o-que-e-a-musicoterapia/. Acesso em 10 de agosto de 2020
  • BTS. Autumn Leaves. Seul: BigHit Entertainment, 2015.
  • BTS. Hold Me Tight. Seul: BigHit Entertainment, 2015.
  • BTS. Magic Shop. Seul: BigHit Entertainment, 2018.
  • BTS. Serendipity. Seul: BigHit Entertainment, 2018.
  • BTS. Spring Day. Seul: BigHit Entertainment, 2017.
  • ESPINOSA, B. (1663), (2013). Ética (T. Tadeu, Trad., 2ªed.). Belo Horizonte: Autêntica. (Original publicado em 1663)
  • FRANZOI, Mariana Andre Honorato; SANTOS, Jose Luis Guedes do; BACKES, Vania Marli Schubert; RAMOS, Flávia Regina Souza. Intervenção Musical como Estratégia de Cuidado de Enfermagem a Crianças com Transtorno do Espectro do Autismo em um Centro de Atenção Psicossocial. SciElo, 2016. Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-07072016000100701&lang=pt>. Acesso em 15 de agosto de 2020.
  • Sampaio, L.; Duarte, T. A.; Magalhães, E.. Aplicação da Musicoterapia em Tratamentos Psicológicos e Clínicos. Psicologado, [S.l.]. (2016). Disponível em https://psicologado.com.br/atuacao/psicologia-clinica/aplicacao-da-musicoterapia-em-tratamentos-psicologicos-e-clinicos . Acesso em 3 Ago 2020.
  • SILVA, L.; SILVA, E.. Psicodrama e atividades lúdicas na promoção e prevenção da saúde mental infantil. Rev. NUFEN,  Belém ,  v. 11, n. 1, p. 215-231, abr.  2019 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S2175-25912019000100014&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  03  ago.  2020.  
  • SILVA, Marilia Nunes; VALADARES, Ana Carolina Duarte; ROSA, Gerlaine Teixeira; LOPES, Liliane Cristina Moreira; MARRA, Celia Auxiliadora dos Santos. Avaliação de Músicas Compostas para Indução de Relaxamento e de seus Efeitos Psicológicos. SciElo, 2016.  Disponível em: <https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98932016000300709&lang=pt>. Acesso em 10 de agosto de 2020
  • Weigsding, J. A.; Barbosa, C. (2015). A influência da música no comportamento humano. Arquivos Do Mudi, 18(2), 47-62. Disponível em:  http://www.periodicos.uem.br/ojs/index.php/ArqMudi/article/view/25137

1 comentário em ““Músicas e Artistas Para Cura”: BTS No Processo Terapêutico No Espectro Autista”

  1. Amo ler os textos do painel Estações, pois as temáticas são muito interessantes e me fazem entender um pouco mais sobre o universo da psicologia e até mesmo minha relação com o Bangtan. Obrigada por esse texto incrível, a pesquisa de vocês confirmou as referências do texto e inclusive reforçou a proposta da BigHit e do Bangtan. Parabéns Equipe 💜

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