IDOL: Behind The Scenography – Como estruturar processo criativo

Juliana Follador [Diamoond Fox]
Revisado por: Brunna Martins e Julyanna Dias

A equipe do painel VISUAL mandou um beijo pra vocês, mas hoje quem vai conversar um pouquinho mais sou eu, a Juliana, arquiteta formada ano passado com o TFG (trabalho final de graduação) de Cenografia, onde desenvolvi uma proposta para a tourde MAP OF THE SOUL: PERSONA. Na minha faculdade, os trabalhos finais são elaborados a partir da construção do repertório com pesquisas e análises de projetos, para somente depois ser realizado um produto focado no que você quer criar, que no meu caso foi a construção de cenário de palco.

Escolhi apresentar hoje uma análise cenográfica de IDOL, com alguns comentários e dicas sobre a minha visão do assunto explicando sobre processo criativo.

M/V de IDOL

Quero mostrar pra vocês o olhar crítico que deve ser desenvolvido quando se realiza trabalhos e pesquisas, mostrar o quanto sempre devemos nos manter antenados às informações que nos são dadas de mão beijada pela Big Hit e as que não são, por exemplo, os créditos dos M/Vs! Se existe uma área na qual você quer atuar, você precisa passar a procurar as pessoas que criam e produzem conteúdo sobre esse assunto, pois são elas que te interessam.

Levando isso em consideração, você já se deu conta de que a Big Hit passou a dar os créditos para as pessoas que estão envolvidas na produção dos M/Vs (music video)? Se você rolar um pouquinho para baixo, na descrição do vídeo no YouTube, pode se deparar com a ficha técnica de todos os profissionais que participaram da realização do projeto:

imagem 01 – captura de tela do canal da Big Hit Labels com a descrição da equipe responsável pelo projeto de IDOL

Ou seja, entendemos que os responsáveis pela execução do videoclipe são todos que estão nessa lista abaixo, mas como saber quem pesquisar sobre Cenografia ou outras áreas? Bom, é nesse ponto que eu entro com um pouco da minha experiência acadêmica: procurem todos! Vocês já tem os nomes, certo? Agora é hora de ir até cada um deles e entender melhor sobre o trabalho direcionado:

  • Diretor: YongSeok Choi (Lumpens);
  • Diretores assistentes: Guzza, MinJe Jeong, HyeJeong Park (Lumpens);
  • Diretor de fotografia: HyunWoo Nam (GDW);
  • Gaffer (responsável pela iluminação): HyunSuk Song (Real lighting);
  • Diretores de Arte: JinSil Park, Bona Kim (MU:E);
  • Equipe de Arte: HyunSeung Lee, YeMin Ahn (MU:E);
  • Gerente de Projeto: SukKi Song;
  • Key Scenic artist: Yeongjun Hong, KwangHyun Lim, SangHyeok Seo.
  • Show Light : SungKeun Ma (A&T light)
  • Lift Operating : Jong Kang

Ao fazer essa pesquisa, cheguei nas Diretoras de Arte que passaram a se tornar inspirações pra mim, JinSil Park e Bona Kim, que trabalham para uma empresa terceirizada da Big Hit. Mas o que são empresas terceirizadas? 

(imagem 02 – perfil profissional da Bona Kim – Acesso em: 24 de junho de 2020).
(imagem 03 – perfil profissional da Jinsil Park – Acesso em: 24 de junho de 2020).

Geralmente, essas empresas são especializadas em uma área de atuação, e a MU:E Artwork é especializada em Cenografia! Ela não realiza somente projetos para a Big Hit, mas para vários outros grupos de K-pop.

imagem 04 – perfil da empresa Mu:E Artwork – Acesso em: 02 de julho de 2020.

Com isso, começaremos a falar mais sobre o processo de construção de cenários e a história que eles podem contar de forma independente.

Algumas etapas necessárias são seguidas para a realização desses projetos, como o desenvolvimento de um storyboard, que consiste em definir todas as cenas que terão no videoclipe a partir do roteiro do mesmo.

A preocupação com o movimento de câmera e os enquadramentos a serem utilizados influenciam no desenvolvimento dos cenários que serão criados.

Por isso, uma decupagem é realizada para elencar todos os itens a serem utilizados na obra cena a cena, como: objetos, figurinos, cenários e todos os elementos que irão a compor.

Com a decupagem em mãos, o cenógrafo sabe qual a finalidade do cenário a ser desenvolvido, em qual contexto ele está inserido e a mensagem que deve ser passada através do projeto de cenografia. Agora o papel principal é adaptar a linguagem e reproduzir o que é pedido, dimensionar os projetos pensando em seus enquadramentos e quais os tipos de esforços serão solicitados nas estruturas criadas para que elas sejam seguras. Elencar as cores e os materiais adequados é de extrema importância, afinal, a qualidade do material e a eficiência com que é utilizado é o que permite obter o resultado pretendido.

(imagem 05 – foto da apresentação de projeto no perfil da Bona Kim – Acesso em: 30 de junho de 2020).

Os cenários de IDOL foram levantados dentro de um set de filmagem que tem a finalidade específica de receber filmagens de M/Vs. É necessário ter em mente que os cenários foram criados fisicamente, porém também utilizam de computação gráfica (chroma key) para complementá-los, conforme podemos reparar em várias partes do [EPISODE] BTS (방탄소년단) ‘IDOL’ MV Shooting Sketch:

A Big Hit sempre posta os vídeos de filmagem (Shooting Sketch) ou os Behind the Scene, onde conseguimos captar muitas informações, até então, não percebidas quando se assiste somente os vídeos finalizados. Esses vídeos complementares nos ajudam a entender um pouco da mágica por trás de tudo e que, na realidade, essa mágica é um trabalho muito bem feito por uma equipe de profissionais competentes.

E é sobre isso que quero falar: quando você começa a entender sobre a construção de algo que gosta e passa a explorar em como fazer isso, é possível entender sobre as tecnologias e linguagens ali utilizadas, então, vamos analisar agora um pouco da narrativa que eu compreendi, na qual foi desenvolvida a partir da cenografia, e como usei esse processo de análise de base para desenvolver o meu processo criativo. 

NOTA: É importante ressaltar que essa análise é apenas uma interpretação, embasada em conceitos arquitetônicos visuais e cenográficos  associados ao contexto da música. Não significa que seja uma verdade absoluta, assim como não significa propriamente o que o artista desejou passar através da letra da mesma.

(imagem 06 – cena retirada do M/V de IDOL l – Acesso em: 02/04/2019).

As formas arquitetônicas nesse clipe são exploradas a partir de características específicas de cada parte do mundo. Por exemplo, nesse cenário é possível reparar a presença de arcos e, apesar desses  elementos estarem presentes em muitas obras arquitetônicas pelo mundo, estes, em específico, podem representar os comumente usados na arquitetura Hindu-Islâmica.

(imagem 07 – Arcos de Mandawa – Acesso em: 02/04/2019).

Assim como existem também 14 portas azuis espalhadas por todo o cenário — que podem muito bem passar despercebidas, mas estão ali propositalmente —, é possível deduzir a representação dos 14 estados independentes da Oceania. Afinal, possuem a cor azul justamente pelo fato de azul remeter a água, mar, oceano; criando assim uma analogia de forma mais sutil.

(imagem 08 – Influências Arquitetônicas – Acesso em: 02/04/2019).

Contar essas histórias paralelas pelas equipes que trabalham com o BTS se tornou cada vez mais comum, todos os M/Vs tem diversas linguagens que falam por si só.

Esse mesmo cenário dos arcos possui duas iluminações completamente diferentes: uma, cria o aspecto diurno e outra que cria o aspecto noturno. Onde é possível notar a qualidade das cores escolhidas para compor e criar a sensação de noite, se mantendo com as cores “quentes”, como o amarelo e o alaranjado. E se você reparar, existe um terceiro andar adicionado digitalmente com o BTS dançando e usando as roupas com estampas africanas, em segundo plano.

(imagem 09 – Aspecto noturno de IDOL – Acesso em: 02/04/2019).

Outro cenário que eu particularmente sou apaixonada é o “Interno”, com um sofá e muitas cores, intervenções essas que me remeteram muito as construções Bollywoodianas, contendo cores vivas, tecidos estampados e muitos adornos em cena, como os tapetes e sofás felpudos, tecidos holográficos e de várias texturas diferentes, enfim, muita informação em um pequeno espaço. 

(imagem 10 – Influências Arquitetônicas Cenográficas Bollywoodianas – Acesso em: 02/04/2019).

Já o cenário a seguir contém referências ao continente Africano, como o figurino que foi confeccionado com tecidos típicos da cultura — conhecidos como ankara —, o plano de fundo feito em computação gráfica com o sol poente, a paleta de cores quentes e a girafa; são todos aspectos pertencentes à Savana Africana. Onde a própria cena em si é uma nítida referência a uma famosa obra denominada: Scramble for Africa do artista Yinka Shonibare, que foi traduzida para a linguagem visual e incorporada ao M/V.

(imagem 11 – Cena retirada do vídeo, representando o quadro Scramble for Africa – Acesso em: 02/04/2019).

Através do enquadramento de câmera, elementos que se encontram em cena e do figurino foi possível criar uma referência muito fiel à obra original.

(imagem 12 – Obra Scramble for Africa – Acesso em: 02/04/2019).

O globo terrestre no M/V representa o mapa e o navio retrata a rosa dos ventos que estão pintados na mesa, sendo assim, não ficariam visíveis devido ao ângulo de câmera que é utilizado no vídeo, portanto foi necessário repensar a forma de representação desses elementos para que pudessem ficar mais nítidos ao público, dando sentido ao clipe.

(imagem 13 – mesa da obra Scramble for Africa)

Contudo, as cenas a seguir ocorrem no mesmo chroma key do cenário inicial. O Yoongi está andando sobre a mesa fazendo seu rap, enquanto o fundo recebe algumas variações feitas com computação gráfica; fundo este que antes tinha apenas tons quentes do pôr-do-sol na savana Africana, agora apresentam cores vibrantes e psicodélicas que mudam em uma fração de segundos entre os cortes de cena. São variações que alteram tão rapidamente, que quase não são perceptíveis ao assistir o vídeo, você apenas sente a sensação visual de que tem muita informação acontecendo.

(imagem 14 – Cena retirada do vídeo, sequência de imagens com chroma key)

O frame final dessa sequência de cenas ganha novamente tons quentes, junto da floresta na qual antes estava sendo apresentada em tons psicodélicos. Essa junção de cor e mudança brusca de fundos está diretamente atrelada a parte do rap do Yoongi e com isso podemos entender que essa variação “caótica” acontece de forma proposital para “combinar” com a velocidade ao qual o rap é cantado, estabelecendo assim, essa conversa entre produção visual e musical.

(imagem 15 – Cena retirada do vídeo, sequência de imagens com chroma key)

Outra estrutura em especial desenvolvida no clipe que traz muito sobre o BTS é o hanok. São casas típicas da Coreia do Sul, presentes em vilarejos, que foram usadas para representar a Coreia e o BTS.

(imagem 16 – Vila de hanoks na Coreia do Sul)

Pode-se notar que as cenas capturadas no M/V, que contém o hanok como elemento principal, tiveram uma versão mais simples da sua estrutura desenvolvida pintada em amarelo, e tem o auxílio de computação gráfica para fazer as paisagens do fundo que complementam o cenário físico criado dentro de estúdio e mudam diversas vezes.

A maioria dos cenários vistos nessa análise mesclam o cenário físico desenvolvido dentro de espaços  com a construção presencial — ao cenário virtual, para a obtenção de melhores resultados, que quando combinados, atendem ou superam as expectativas.

As roupas que são utilizadas nas cenas que contém o hanok, também são vestimentas típicas da Coreia do Sul conhecidas como durumagi, que representam o amadurecimento.

Ou seja, o M/V, através de uma linguagem mais simples, trouxe um pouco de várias culturas, e entendendo sobre o contexto no qual a música está inserida, ela reflete um pouco sobre todos os cantos do mundo que o BTS alcançou com o seu trabalho. Entendo isso por conseguir identificar as “características arquitetônicas” exploradas em diversos cenários.

(imagem 17 – Cena 01 e 02, retiradas do M/V de IDOL com a estrutura do hanok em destaque, sendo complementada pelo fundo em computação gráfica)

Com toda essa análise realizada, é possível entender que a forma com a qual a cenografia é explorada, combina a criação de cenários físicos que são pensados com materiais, cores e tecnologia da construção sempre muito bem escolhidos, junto de complementos criados através da Computação Gráfica com o auxílio do chroma key, para que sejam realizados cenários de alta complexidade e rápida execução.

Já a definição do estilo do cenário se deve: à disposição dos elementos arquitetônicos e cenográficos (fundo neutro, desenho, fotografia, logotipo, mobiliário, etc.); à escolha de cores (tons quentes e frios, harmonia e contraste, predominância de cores, etc.); a aplicação das luzes (disposição, direção, valores cromáticos, etc.); e as características das superfícies (materiais utilizados, relação com fontes luminosas, texturas, etc.). (CASETTI e CHIO apud CARDOSO, 2002, pg.42).

Com tudo isso explorado em um único M/V, precisei realizar mais algumas análises para estabelecer uma melhor relação de entendimento quanto a tecnologia dos materiais utilizados em cenários (nem todas as análises foram do BTS), então, somente assim, pude entender que cenografia de M/V, muitas vezes, consiste em projetar espaços efêmeros, destinados a existir apenas naquele momento, portanto é necessário o emprego dos materiais leves, que ocorram de forma rápida e que sejam de baixo custo. 

Depois de muito assistir e acompanhar o trabalho das Diretoras de Arte que sempre estão inseridas na criação desses cenários, aprendi que no trabalho delas majoritariamente grandes estruturas são elaboradas com coisas leves, como: canos de PVC, tapumes e MDF, dentre outros materiais de baixo custo. Essa forma de analisar, me permitiu desenvolver a minha metodologia de construir e pensar em cenários, afinal, pude entender mais sobre a construção e a narrativa a qual eu gostaria que meus cenários do TFG tivessem.

Estabelecendo esse processo criativo, passei para parte de projeto do meu TFG que consiste em projetar espaços e criar a narrativa por trás deles, assim como percebi que acontecia nos clipes musicais do BTS.

Desenvolvi 2 narrativas distintas, sendo uma delas adaptar um clipe musical para a tour, com Boy With Luv, qual separei em três atos de música e projetei os elementos de palco:

(imagem 18 – prancha de projeto Objeto de Palco com detalhamento de objetos de cena – TFG Juliana Follador)

E a outra narrativa, era construir um palco do zero que contasse uma história por trás dos cenários. A música escolhida foi Mikrokosmos e o conceito de arte consistia nas 7 plataformas individuais que representam o BTS como 7 universos, mantendo sua individualidade ao mesmo tempo que se identificam como um grupo.Significa que são 7 microuniversos que estão traçando em grupo seu propósito comum. 

Para todos os cenários, desenvolvi projeto arquitetônico de execução (como seria montado) junto do conceito de arte que é como eu imagino pronto. Alguns cenários como os de Boy With Luv, são tratados como objeto de palco (não são elementos permanentes), e outros cenários como Mikrokosmos são integrados ao projeto de palco (são elementos permanentes), afinal as plataformas são montadas fixas ao projeto, fazendo parte da estrutura de palco geral.

(imagem 19 – prancha de projeto estrutura de palco com detalhamento das plataformas elevatórias – TFG Juliana Follador)
(imagem 20 – conceito de arte Mikrokosmos)

E com tudo isso, espero que vocês entendam que, em um processo criativo de monografia, pesquisa e afins, são essas análises que, com o tempo, te darão propriedade de criar e elaborar temas e projetos sobre certos assuntos.

Se você gosta de um tema, se aprofunde nele, encontre referências na área, peça  informações quando possível, sempre busque ter um olhar por trás de algo óbvio, crie uma visão crítica ao mesmo tempo que criativa e não tenha medo de fazer.

Espero que de alguma forma esse texto, mesmo que longo, te ajude a entender melhor um pouquinho do que pude realizar pesquisando por trás das entrelinhas, e que você tenha gostado dessa leitura e aprendido um pouco mais sobre a importância de saber como procurar. Até uma próxima!

REFERÊNCIAS

  • BTS (방탄소년단) ‘IDOL’ Official MV. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=pBuZEGYXA6E
  • [EPISODE] BTS (방탄소년단) ‘IDOL’ MV Shooting Sketch. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=boiWgfpYYrk&t=83s
  • Yinka Shonibare CBE (RA). Disponível em: https://art21.org/gallery/yinka-shonibare-cbe-ra-scramble-for-africa-2003/
  • South Korea: What is a hanok? Disponível em: https://www.nationalgeographic.co.uk/travel/2018/10/south-korea-what-hanokCARDOSO, João Batista. O Cenário Virtual Tridimensional no Espaço Televisivo. 2002. Dissertação (Mestrado – Área de Comunicação e Semiótica) – PUC, São Paulo, 2002.
  • CARDOSO, João Batista. O Cenário Virtual Tridimensional no Espaço Televisivo. 2002. Dissertação (Mestrado – Área de Comunicação e Semiótica) – PUC, São Paulo, 2002.

2 comentários em “IDOL: Behind The Scenography – Como estruturar processo criativo”

  1. Que trabalho incrível! Eu sou estudante de arte e de cenografia também é achei extremamente rico!! Muito obrigada.

    1. Oi, Amanda 💜 Muito obrigada pela sua mensagem! E esta área é completamente incrível mesmo! Sempre existirá uma imensidão de assuntos e nuances para serem tratados! Esperamos que possa nos acompanhar nas próximas postagens sobre o tema!
      Caso você queira receber mais informações sobre nossos próximos projetos, pode deixar seu e-mail aqui nesse formulário!
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