FAIXA A FAIXA apresenta: D-2 o retorno de um rei

Todas as cargas que Suga deixou em Agust D, nasceram como sucesso em D-2

Por Gabrielly Guimel 
Revisado por Helmer Marra e Mariana Mathias

Foi lançada na sexta-feira, dia 22 de maio de 2020,  a segunda mixtape produzida pelo rapper Min Yoongi, mais conhecido como Suga do boygroup BTS. A primeira mixtape do artista foi apresentado em 2016 sob o pseudônimo de Agust D;  o nome é um anagrama simples de Suga + Deagu Town, a junção dos nomes se refere a cidade onde ele nasceu, assim como o antigo grupo de rappers do cenário underground onde era renomado e famoso, antes de tornar-se membro da empresa BigHit Entertainment e do Bangtan. 

A mixtape com 10 faixas entoa a perspectiva de um garoto que sofreu as dores e as dificuldades do passado, juntamente com o princípio de carreira no Bangtan. Em entrevista para a TIME ele afirma que:

“É assim que eu vivi a partir de 16 de agosto de 2016. Se a primeira mixtape focava em contar meu passado, a nova é sobre o presente".
Figura 1: Promoção semana D-2/ Fonte: BigHit Entertainment

Afirmando assim o retorno da era Agust D, Suga surpreende seus fãs com um lançamento enigmático nas redes sociais de divulgação do grupo. Foram uma retrospectiva de 7 dias com imagens misteriosas que ganhavam nitidez a cada dia de postagem, fazendo com que o army (fandom do BTS) criasse grandes expectativas sobre o que estaria por vir. 

“Eu gosto de surpresas, então eu mesmo criei a promoção de lançamento. Então, eu queria lançá-lo no D-2 para surpreender as pessoas que estavam esperando por ele no D-DAY.”

Então bora embarcar em uma análise faixa a faixa da mixtape D-2:

Moonlight

Produzida por Agust D, GHSTLOOP 
Escrita por Agust D, GHSTLOOP

A faixa introdutória (intro) da mixtape que inicia-se com uma base de batida (beat) de discos no estilo livre (freestyle), fazendo uma marcação precisa juntamente com o uso de um sax sintetizado, vozes de coro acrescentadas na composição de harmonia e melodia, assim como um leve piano de fundo. O primeiro contato que temos com a voz de Yoongi é na frase: 

“ Okay, okay, okay, okay. Yeah, já fazem três anos, haha. Agust D!

Junto de dedilhados de guitarra e bateria rítmicas, a faixa acompanha um ar saudosista sobre o retorno da era “Agust D”. O som característico te faz lembrar ao jazz dos anos 50, como os toques dos pratos de bateria são trabalhados, o swing, elementos adicionados ao rap constituem uma identidade ao hip hop na pegada old school. Para quem não conhece o termo, old school é um subgênero do hip hop derivado de elementos presentes: na poesia, no jazz,  no funk, no soul, no rhythm & blues e no toasting.

Algo interessante a se notar é que na primeira mixtape Agust D, faixa um, foi usado o sample do artista soul, James Brown, da música “It’s a Man’s Man’s Man’s World” cantada por ele e escrita por sua ex-esposa Betty Jean Newsome, título que faz trocadilho com o filme de comédia de 1963 “It’s a Mad, Mad, Mad, Mad World”.

0:09 , 0:11 , 0:14 e 0:21 

0:02 , 0:00 , 0:25 , 0:38 , 2:31 e 0:10

De acordo com a revista Rolling Stone que caracteriza a música como “biblicamente chauvinista”, ou seja, ela aborda assuntos de rejeição radical a contrários, desprezo às minorias, entusiasmo excessivo pelo que é nacional, e menosprezo sistemático pelo que é estrangeiro, onde associamos isso à animação do videoclipe (MV) apresentado acima. 

Contextualizando com a história de Min Yoongi, um garoto sul-coreano de uma cidade pequena, onde tenta buscar seu espaço na indústria cultural do kpop e do mercado internacional. Além de enfrentar dificuldades financeiras, vai de encontro às divergências de aceitação a outras raças e etnias nessa mesma indústria, descrita em Agust D:

“Alguns dizem que foi fácil para mim, chegar onde eu cheguei.”
“Meu assento é executivo, o seu é na econômica, sempre atrás de mim,
puxando meu saco. O próximo alvo é a Billboard.”

Se Suga antes tinha ativado seu modo de ataque ao fazer um rap tecnológico de 117 sílabas em 14 segundos, em D-2 vemos um Suga com um flow mais relaxado, tranquilo, como uma sinestesia de contemplação do talento provado durante o percurso, não somente musical, mas também psicológico.  

“Meu começo foi humilde, de Daegu yeah um porão em Namsan-dong.
Agora, para uma cobertura em Hannam the Hill”.
“Ainda Peter Pan, incapaz de acordar de um sonho.
A realidade na minha mente luta com o ideal, cansativamente”.

Outro fato da música de James, é que ela atribui todos os trabalhos da civilização moderna aos esforços dos homens, onde fazem dinheiro de outros homens, mas nada disso seria possível sem uma mulher.

“Este é um mundo de homens, este é um mundo de homens”.
“Mas não seria nada, nada sem uma mulher ou uma garota”.

Mesmo com os palavrões, o jeito debochado e narcisista, vemos um balanço equilibrado da dor que o fez ser quem ele é hoje: o Suga maduro do BTS. Para quem produz um álbum, a faixa intro é a responsável por delimitar o curso de propósito do disco, ou seja, ela é quem caracteriza a identidade do artista, construindo a ideologia da narrativa musical a ser apresentada.

“A luz da Lua que me ilumina antes do alvorecer é a mesma de antes”.
Muitas coisas mudaram na minha vida, mas a luz da Lua ainda é a mesma”.

Suga não foi o único a fazer referências a lua em suas canções, temos “Moonchild” de RM em sua mixtape Mono e Moon de Jin no álbum Map of the Soul: 7.

Querem saber a relação da lua com a letra da música? O painel Prateleira e Como fazer irão apresentar análises incríveis nos próximos dias. Fiquem ligados!

Daechwita

Produzida por Agust D, EL CAPITXN
Escrita por Agust D, EL CAPITXN

Deixando todo o saudosismo de lado nos deparamos com uma entrada triunfal em Daewchita. A música que segue procissões reais que eram entoadas na era de Joseon, antiga Coreia, já que é tocada por oficiais reais e,devido à isso, temos um senso de grandeza e majestade ao ouvi-la. Como música tradicional coreana, ela é utilizada para recepcionar convidados vindos do exterior.

Interpretada por instrumentos de sopro e percussão, geralmente, é utilizada ao marchar tocando instrumentos tradicionais como:

-

Nabal (hangul: 나발), (longo chifre de bronze), como o instrumento não tem válvulas ou furos de dedo não é um muito melódico, mas desempenha um único som contínuo. A frequência exata do som produzido pode ser bastante diferente, dependendo do tamanho do instrumento.

Figura 2: Nabal. Fonte: Flickr.

Nagak (hangul: 나각 ), (chifre de concha do mar); também chamados de sora, é uma grande concha usada como um chifre, ela produz apenas um único tom.

Figura 3: Nagak. Fonte: Flickr.

Taepyeongso (shawm), (hangul: 태평소; também chamado hojok), é um oboé cónica com um corpo de madeira e de metal sino. Oboé é um instrumento musical de sopro, classificado como um aerofone, membro da família das madeiras. Este instrumento contém uma palheta dupla. A família das madeiras inclui também as flautas, clarinetes, fagotes, saxofones, entre outros, sendo que oboés e fagotes possuem palhetas duplas.

Figura 4: Taepyeongso. Fonte: Flickr.

Jing (gongo), um grande gongo; originalmente pronunciado Jeong (정), utilizado para manter a batida. Ele, geralmente, é feito de latão de alta qualidade e é atingido por uma vara revestida em camadas com um pano em uma extremidade, para suavizar a textura do som produzido. É capaz de produzir um gentil e persistente som, bem como um alto som com um efeito de rugido, dependendo da força aplicada ao colidir contra o bronze.

Figura 4: Jing. Fonte: Pixabay.

Jabara (címbalos ou pratos), (hangul: 자바라, também chamado bara , bal , ou jegeum), é um par de grandes címbalos de bronze, sendo um instrumento de cordas percutidas.

Figura 5: Jabara. Fonte: Life in Korea.

Yonggo (hangul: 용고) tambor pintado com dragão projetado e tocado com baquetas.

Figura 5: Yonggo. Fonte: Flickr.

Os instrumentos inseridos em um plano de hip hop e trap, Suga a usa para complementar a caminhada do rei no MV, lançado no mesmo dia que a mixtape. Todavia,  há mais do que isso no single principal da primeira mixtape chamada Agust D lançada em 2016, Yoongi utilizou também instrumentos compostos em música militares para anunciar a sua entrada na indústria fonográfica. A principal diferença está na fase em que ela foi inserida: na primeira mixtape, Yoongi ainda estava alçando os seus sonhos e desejos em subir a “escadaria” da indústria Logo, quando a música é tocada, ele está entrando na indústria, agora, como um rapper de sucesso e membro de um grande boygroup, reconhecido internacionalmente.

“Nasci um escravo, mas agora sou um rei”. “Nasci em uma vala, mas cresci como um dragão”.
“Quem é o rei? Quem é o chefe? Todos sabem meu nome”

Depois da experiência sonora de introdução da faixa, somos atingidos com o grave do trap, estilo de produção contemporâneo originado em Atlanta, no sul dos Estados Unidos. Os beats de trap possuem um andamento mais lento, em torno 70 BPM (batidas por minuto), outra característica predominante é a utilização constante de timbres subgraves no bumbo da bateria e nas linhas de baixo.  Assim, sentimos essa sensação de “peso” quando escutamos uma música. Isso recordar-nos que em 2 minutos e 40 segundos da faixa “Agust D”. Como também, aborda um tipo de cadência no flow, que já ouvimos antes com o rapper RM em “Ddaeng”:

“Aqui está meu choque de realidade, não há lugar mais alto.”
“Eu sempre olhei para cima, agora quero olhar para baixo”.

Voltamos com a mensagem de contemplação das conquistas obtidas enquanto profissional, integrante de um boygroup e como pessoa. Em entrevista a Time, Suga afirma sobre sua persona e forma de fazer música em D-2:

“Posso me expressar mais abertamente e mostrar um lado cru meu. Mas (assim como no BTS), também canto sobre sonhos e esperança”.

Daewchita realmente é uma música cheia de influências culturais nos mínimos detalhes. Por tanto o painel Visual e Olhar irão se aprofundar nessa obra de arte que nos foi apresentada. Aguardem essa semana!

What do you think?

Produzida por EL CAPITXN, GHSTLOOP
Escrita por Agust D, EL CAPITXN, GHSTLOOP

Seguimos com a próxima faixa mais conhecida como “eotteoke saenggakae”, “what do you think” é aquela música selecionada como diss track do álbum. A propósito, o que é uma diss track? Com o uso frequente no hip hop, é uma canção de insatisfação criada com um único propósito de expor e insultar uma pessoa ou um grupo de cantores.

A respeito disso, a escolha dos beats nas influências dos estilos hip hop gangsta, hardcore e political deixam um ar de afronta e escárnio na forma de proferir o seu rap. Além de uma pegada eletrônica de referência no drill, abordando conceitos sombrios, violentos e niilistas.

No niilismo encontramos uma visão cética radical em relação às interpretações da realidade, que aniquila valores e convicções. Mas também, além de exacerbar um ponto de vista, o seu aspecto positivo resgata o poder humano de escolher e de assumir suas próprias responsabilidades, o colocando em prática na música, vemos nos trechos:

“O que você acha? O que você acha?
Não importa o que você acha
Foi mal, mas f***-se, eu não tô nem aí”
“Foi mal, mas eu não ligo pro quão medíocre sua vida é
Ou pro fato de que você não consegue sair desse lugar de merda que se enfiou
Achando que meu sucesso está relacionado ao seu fracasso
Você se ilude pra c******”

Aqui conseguimos perceber no Suga uma série de referências, a forma a qual ele conseguiu alcançar o seu sucesso como idol, no qual muitos atrelam, até hoje. Muitas mídias acusam que Bangtan só atingiu as suas conquistas por causa dos fracassos de outros grupos, chegando ao ponto de serem acusados de ofuscarem a fama de outros artistas. Em sua live, no Vlive de divulgação da mixtape, Min Yoongi diz que suas canções são repletas de armadilhas, desta maneira, existem trechos, palavras ou até na simples escolha da harmonia, no qual ele pensa cuidadosamente a fim atrelar a uma mensagem importante. Lembrando que os estilos de gênero mais usados por ele no hip hop são “trap”, armadilha em inglês.

“O que você acha? (O que você acha?)
1º na Billboard (oh, não), o que você acha disso? (É, é)
O próximo é o Grammy (Grammy), o que você acha disso? (É, é)
“Os dez zeros na minha conta bancária
São o dinheiro que ganhei em troca da minha juventude
Eu tenho uma casa f***, um carro f***, um anel f****”

“O sonho de ser o primeiro na indústria estadunidense e o preço da juventude, curtos versos que significam o percurso de uma trajetória de trabalho duro revivendo o ano de 2018, onde o “BTS se torna a primeira banda de K-Pop a liderar a parada de álbuns da Billboard”, standard na matéria da New York Times, escrita por Ben Sisario, aponta logo no primeiro parágrafo: “O K-pop finalmente chegou ao número 1. “Love Yourself: Tear”, o novo álbum da boy band coreana BTS, abriu em primeiro lugar na parada de álbuns da Billboard. Isso o torna o primeiro participante do exuberante gênero coreano de K-pop a chegar ao topo da parada de álbuns, seis anos depois que a música e o vídeo de Psy “Gangnam Style” trouxeram o estilo para o mainstream americano.”

“Eu tenho uma casa f***, um carro f***, um anel f****”

Não poderia deixar de abordar o fatídico verso de rap que já ouvimos em “No More Dream, canção de debut do BTS, onde os meninos falam sobre suas realidades, modos de vida exigidos pela sociedade coreana e a busca pelo sonho da juventude. Se Min Yoongi que antes diziaEu quero uma grande casa, grandes carros e grandes anéis”. 

Hoje, se torna artista solo coreano que alcançou a posição mais alta na parada de álbuns dos Estados Unidos. Estreando com o pseudônimo Agust D na Billboard 200 (de álbuns) e na Billboard Hot 100 (de singles). A mixtape “D-2” chegou 11º lugar e o single “Daechwita” alcançou a 76ª posição. O título que antes era de RM, com “mono”, que debutou em 26º em outubro de 2018. Além disso, ele também fez história na Hot 100. “Daechwita” é a segunda melhor estreia de um artista solo coreano na parada de singles estadunidense, só perdendo para “Gangnam Style” do PSY, que debutou direto em 2º lugar, porque tornou-se um viral na internet.

“Os bastardos que ganham benefícios da mídia
Estão na TV com mais frequência do que eu”

E para finalizar a análise dessa diss track, enfatizamos o uso da imagem do BTS em mídias internacionais a fim de conseguirem mérito de audiência e resultados de sucesso, às custas de outros profissionais. Logo, diminuindo a capacidade de abordagem do grupo em fazer músicas, produzir MVs, criar narrativas que podem alcançar níveis maiores de artistas já consagrados pela indústria musical no mundo.

Strange feat RM

Produzida por EL CAPITXN, GHSTLOOP
Escrita por Agust D, EL CAPITXN, GHSTLOOP, RM

O dedilhar no piano é o primeiro contato que nós temos com Strange, sentimos que ao ouvir essa introdução, a música pode nos trazer como proposta contar uma história. Temos a presença do parceiro de grupo, RM, no qual a maneira como ambos fazem os seus raps contrastam de forma positiva um ao outro. Latin hip hop aliado ao trap são algumas das referências que lembram-nos a vibe de “Airplane pt.2” ao estilo dos bares cubanos abordados no próprio MV.  

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“O mundo é um sistema gigante. Nele, a oposição, à guerra ou a sobrevivência são inseridas
Uma vida que você não pode recusar com os sonhos como garantia, a capital injeta a morfina chamada 'esperança”

Sem esperar menos do contexto político abordado em narrativas dos dois rappers, a música vem falar sobre um mundo como um sistema capitalista, impulsionado pela “polarização”. São colocados em “cheque” os valores e as motivações que movimentam o mundo, onde a guerra pode ser algo escolhido para o bem, mesmo que possa causar mortes, a valorização da vida, dos sonhos e a conquista em ter uma realidade inalcançável.

“Os ricos se enfurecem com os ricos e tentam a ganância
Os ricos anseiam até pela pobreza, avidamente
No mundo, só existe preto e branco, esses dois”

A ideologia de uma sociedade onde as classes “superiores” se relacionam através de ganância, os ricos só fazem riqueza através dos pobres, um mundo de contraste ávido, preto no branco, onde você é uma coisa ou outra, sem variedade e escolhas.

“As escolhas que você recebeu
Todas as preferências são controladas pela capital
Não importa quanto dinheiro esteja ao seu alcance
Todo mundo é escravo deste sistema”

É perceptível que esta música veio a ser uma transição entre as primeiras faixas sobre números, conquistas e sucesso. Mas também. como uma reflexão que mesmo que houvessem esses ganhos, foram adquiridos através de um preço de se viver em um sistema injusto onde as preferências e oportunidades são concedidas a nós, como parte de algo maior que nós mesmos e não por nosso mérito e decisões.

Gostaram da vibe política, super engajada de “Strange”? O painel Olhar irá trazer pontos a se discutir que provavelmente vocês nem pensaram. Se preparem, sai ainda essa semana!

28 feat NiiHWa

Produzida por EL CAPITXN, Hiss noise
Escrita por Agust D, EL CAPITXN, Hiss noise

D-2 se apresenta como um álbum de diversas camadas líricas e musicais. A faixa “28” é a responsável por dar uma quebra em toda a discussão, anteriormente abordada em “Strange”. Se temos noção de onde viemos, como construímos e qual foi a resposta de todo o nosso trabalho, nessa música vemos o resultado da maturidade precoce de Min Yoongi, sendo ela um fenômeno não linear. A proposta de trazer algo mais pop junto a voz de NiiHWa ao R&B, trouxe um ar de jovialidade, sendo ela descrita na narrativa da faixa. O rapper Suga também acompanha o cantor nos refrões, provando que ao longo dos anos de carreira, cantar vem sendo algumas de suas habilidades a serem oferecidas como idol.

“Eu respiro, mas parece que meu coração está quebrado
Sim, agora eu me tornei um adulto, me tornei um adulto
Que acha difícil segurar o seu sonho”

Quem nunca conquistou algo que tanto queria, mas ficou com medo de perder? A introspecção de Agust D ao abordar seus sentimentos crus, em uma conversa sincera: nos revela mesmo que sendo um idol, ele é um ser humano que pode ser frágil, mas que essa fragilidade também possa representar a sua força.

“Acho que estou lentamente me tornando um adulto. Não me lembro
O que eu queria? Agora eu estou assustado
Para onde foram os fragmentos do meu sonho?”

E como toda pessoa, enfrentar a fase adulta não é fácil: assumir responsabilidades, encontrar o seu verdadeiro eu, são algumas das causas que nos trazem mais ansiedade sobre o futuro. O que eu sou agora? Quem eu deveria ser? Desta maneira,  a música termina como uma indagação sobre esses questionamentos que fazemos ao longo da vida.

Lembrando que o painel Estações preparou um conteúdo sensível a respeito das análises psicológicas em “28”.

Burn it feat MAX

Produzida por Agust D, GHSTLOOP
Escrita por Agust D, GHSTLOOP, MAX

A primeira interação entre BTS e MAX ocorreu no comentário sobre a música “Love Me Less” do cantor na playlist de Jungkook. Depois dessa interação, o cantor começou a “provocar” em suas redes sociais uma possível colaboração com o rapper Suga,  Assim, surgindo “Burn it”.

 Olho: “Contagem regressiva, um timer para explodir”

Em uma narrativa distópica, com uma imagem de um cenário de filme em destruição. Ao som poderosíssimo no refrão de guitarra, Min Yoongi fez renascer das cinzas a força de impacto de seu rap junto a voz melódica de Max, trazendo um contraste perfeito entre o  hip hop e nas referências do rapcore. O estilo é um subgênero do rap rock que funde elementos do hip hop com o punk rock e hardcore punk. O rapcore é, frequentemente, confundido com rap metal e rap rock. Bandas que incorporam muito bem o estilo do rap com o rock são bandas como Linkin Park e Red Hot Chili Peppers.

“Eu vejo as cinzas caindo da sua janela
Há alguém no espelho que você não conhece
E tudo estava errado
Então queime até que tudo desapareça”

Com esses versos, a faixa nos oferece um espetáculo sonoro de um drama que está sendo exibido entre o passado e o presente. A música incentiva os ouvintes a se olharem no espelho, verem e  reconhecerem o “eu” que se tornaram. E, se a resposta for não, é melhor queimá-lo e começar de novo.

“Vamos voltar para os dias do passado, Os tempos que me destruíram,
Ciúme, ódio e sentimento de inferioridade, A vida capturada por ressentimentos
Depois de provar o sucesso, O que mudou em mim em comparação com aquela época?”

As reflexões abordadas nas outras faixas são sobre as trocas do sonho e do sucesso serem proveitosos. É dito que a força do jovem é como fogo que o motiva para alcançar seus objetivos e seus planos maiores. Mas será que nesse processo ele não possa se queimar? A resposta dependerá de como o cada indivíduo e o que ele define vale a pena. Enquanto uns desistem por terem se machucado ao longo do caminho, outros pegam suas dores e renascem como novos sonhadores.

O cantor MAX durante a semana de divulgação de D-2, postou em seu canal no Youtube uma versão solo acústica da música. Confira abaixo: 

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People

Produzida por Agust D, Pdogg
Escrita por Agust D, Pdogg

Refresco, é o que sentimos ao escutar “People”, após a eletrizante “Burn it”, ela surge cuidadosamente escolhida a fim de trazer “uma brisa gentil”. É aquela música que você escuta e quer cantar junto. Sendo um jogo de palavras sobre a vida e o amor, inspirada na formação de letras coreanas, ela lembra-nos alguns dos beats usados pelo rapper Drake em suas músicas, principalmente, nas notas alternadas do teclado sintetizado como base, ritmando melodicamente o rap, dando alusão ao encontro de gotas de água em uma superfície líquida.

Todo mundo deve viver, todo mundo deve amar
Todo mundo deve ter esperança, deve esquecer
As pessoas mudam, como eu mudei, não há nada eterno neste mundo
Tudo é uma passagem acontecendo”

Esse é aquele momento de pausa e compreensão a si mesmo, de amor próprio. Todos nós devemos nos permitir, se errarmos e não conseguirmos, tentaremos de novo. A vida é uma via de mão dupla, tudo pode acontecer. Pode ser inferido dessa música que encontramos uma das mensagens mais bonitas da mixtape, um refrigério, um respiro. Depois de corremos a corrida da vida, chega um momento que queremos parar, pensar e respirar.

“Flua como a água flui, alguma coisa pode estar lá no final
Uma vida especial, uma vida normal, do seu próprio jeito
Sua normalidade é o meu extraordinário
Meu extraordinário é sua normalidade”

Mesmo que carregamos algum tipo de arrependimento pelo que os outros tenham. Agust D enfatiza que cada vida em particular é o desejo da vida do outro, o extraordinário da vida de uma celebridade é a realidade que as pessoas “normais” querem ter. Mas como o percurso de um rio, desde a sua nascente flui e tem um fim. Toda a vida tem as suas particularidades, seus “extraordinários”, porém o final, é igual para todos.

Honsool

Produzida por Agust D, Pdogg
Escrita por Agust D, Pdogg

Faixa de imersão total no grave extensivo escolhido por Agust D, aqui a frequência é outra:, é lenta, gradativa e dolorosa. Vozes distorcidas surgem em alusão ao efeito do álcool no organismo, a cada frase, é um passo lento a partir da  abertura da música. A faixa título chamada “Honsool”, vem do sinônimo de “in vino veritas”, podendo ser ser traduzido literalmente como: “alguém que fala a verdade sob influência do álcool”. Mas que verdade é essa a ser dita?

“Mais uma vez, terminando minha rotina diária de hoje
E voltando para casa imediatamente
Quando passo pela porta
Eu fico cara a cara com o tempo em sua totalidade
A sala cheia de silêncio
Depois do banho
Desintoxico com álcool
O ponto final deste dia, que eu mal me lembro, será apenas álcool”

A rotina de uma celebridade não é só flores, imitando a prática de beber sozinho, Agust D nos oferece uma visão pessoal de sua jornada, quando ele tem um momento de solidão em casa após um longo dia de trabalho. Traçando um paralelo entre tomar banho e beber para desintoxicar pensamentos, ele desmistifica, também, o entendimento do que é ter sucesso e ver seus ideais pessoais irem de confronto a sua realidade.

“À medida que me embriago lentamente, tento ser honesto sobre minha vida
Oh sim, dinheiro, honra, riqueza
Troféus e estádios
Às vezes eu tenho medo deles
Eu sinto vontade de fugir, hm
Eu pensei que quando você se tornasse uma estrela, você viveria festejando todos os dias
Mas a realidade apunhala a expectativa com força”

Honsool” é um diálogo franco que Agust D tem com ele mesmo, é a tentativa de compreender a grandiosidade dos seus feitos. Em contrapartida disso, ele se encolhe, com medo, pensativo sobre o seu lugar como ser humano. A escala exaustiva pode interferir e ter consequências em sua vida, entretanto, ele está suportando, como um garoto normal que ao dormir a noite, espera que o amanhã seja melhor.

Interlude: Set me free

Produzida por Agust D, Pdogg
Escrita por Agust D, Pdogg

Ainda na mesma frequência de “Hoonsol”, “Set me free”e apresenta-se como uma faixa amena, com sons de ambiente e violão, nos surpreendendo ao ouvir uma voz pura estridente que é a de Min Yoongi. Conhecido como o garoto que cospe fogo, ele revela um outro lado seu. Aqui encontramos um artista que está cansado e com uma voz trêmula, soando como uma súplica a alguém que está preso e não tem forças para se libertar.

“Me liberte, estou flutuando livremente no ar vazio
Me liberte, recentemente venho me sentindo triste por algum motivo
Meu dia consiste em rastejar pelo chão
Outro dia, estou voando no céu azul
Por quê? Por quê?”

O conflito do vazio, inerente na vida de um idol sul-coreano, se conecta através da música, descrevendo emoções, inseguranças e ansiedades. Na primeira mixtape, o rapper relatou de forma explícita suas lutas mentais como na canção The Last”: “Por trás de todo rapper famoso há um lado fraco, é um pouco perigoso. Depressão, TOC, elas ficam voltando de tempos em tempos. Não mesmo, talvez esse seja meu verdadeiro eu”. É um momento passageiro, algo sentido durante um fluxo de consciência capaz de transmiti-lo, exatamente, como é. Mantendo a técnica e o assunto em mente, “Set me free” é uma das músicas mais difíceis, honestas e bonitas do álbum.

Dear my friend feat (feat Kim Jong Wan of NELL)

Produzida por Agust D, JW of NELL, EL CAPITXN
Escrita por Agust D, JW of NELL, EL CAPITXN

A versatilidade de Suga como musicista, é mostrada nesta mixtape, além de oferecer vocais expressivos e apresentar vários gêneros musicais, desde o estilo “Daechwita”,, atravessando subgêneros do hip-hop e do rock alternativo em “Dear my friend”canção de colaboração com o vocalista Kim Jong Wan, da banda NELL.

“As memórias que fizemos juntos circulam na minha mente
Se, por acaso, eu tivesse te pego
Não, se eu tivesse te impedido
Ainda, imutável
Nós ainda seríamos amigos? Como seria?”

Relato de uma história pessoal, Suga e Agust D saem de cena, entrando Min Yoongi para falar. A letra se refere a um amigo de infância dele, que morava em Daegu,  que foi preso e, por isso, eles perderam o vínculo. O rapper expressa sentimentos que configuram-se entre a lástima e o ódio pela distância,  assim como pelas  escolhas que o amigo tomou.

“Eu ainda lembro dos dias que estávamos juntos
O tempo e os inúmeros dias que visitávamos Daegu juntos
Nós, que costumávamos dizer, "se estamos juntos, até o mundo não é assustador"
“O você que eu conheci está morto e o eu que você conheceu está morto
Eu sei que não foi simplesmente o tempo que nos mudou”

A narrativa conta os bons momentos que os dois tiveram juntos, assim como a relação de amor e ódio com a memória da perda, aumentando ao longo da história. Esta narrativa apresenta o reflexo mais íntimo de Min Yoongi em toda a mixtape.

Considerações finais

Rap não é só técnica, é uma maneira de contar histórias. Nem sempre ter muita habilidade compensa se não houver mensagem. E isso conseguimos ver em D-2 Não importa a quantidade de dúvidas que Suga possa ter de si, bem como o ódio presente na mídia, ele como idol alcançou grandes conquistas,  não apenas como membro de uma das maiores boygroups do mundo, mas também como compositor e produtor fenomenal. 

Avaliando um contexto geral, percebemos que Suga escolhe intencionalmente e sistematicamente: a construção e ordem das músicas de suas mixtapes, cada nota, letra, acorde, melodia e harmonia, calculadas a fim de causar um impacto e uma experiência sonora aos ouvintes que o acompanham. 

Não há algo criado e cantado ingenuamente na mixtape. É como se fosse uma caça ao tesouro a qual você ainda não descobriu e compreendeu tal tesouro, sempre perguntando-se o objetivo da caça e qual seria o tesouro.  um mapa, uma estrofe, uma pista, porém, qual seria o tesouro?  Causando a nós o sentimento de curiosidade e aventura, cabendo também a nós a responsabilidade de desvendarmos esses questionamentos. Cabe a nós descobrirmos saber. Assim como a vida, o álbum está em plena construção, o qual a cada capítulo constrói quem você é.  

“O álbum é como a sua vida, um trabalho em andamento.”

GLOSSÁRIO

  • Mixtape: Na cultura do hip hop e R&B, uma mixtape é descrita como um álbum auto-produzido ou independentemente lançado gratuitamente para ganhar publicidade ou evitar uma possível violação de direitos autorais.
  • Underground: Termo usado para descrever artistas expoentes que não pertencem ao mainstream musical, sendo o gênero ou estilo irrelevantes para a determinação do status “underground“. 
  • Mainstream: Algo que está disponível ao público geral; corrente dominante que inclui toda a cultura popular e cultura de massa, as quais são difundidas pelos meios de comunicação de massa.
  • Old school: É o termo utilizado para descrever os princípios do hip hop aos estilos musicais da década de 1970, representando os precursores do rap mundial.
  • Rap: A tradução literal de rap é “ritmo e poesia” ou seja, uma poesia feita através de rimas, geralmente feitas em uma velocidade superior à do hip hop.
  • Beat: Batida que traz ritmo e velocidade às palavras.
  • Freestyle: É um subgênero do rap, caracteriza-se principalmente por letras improvisadas do rapper, expressando o que sente sobre determinado assunto, mas mantendo um flow certo.
  • Rapper: São cantores de rap conhecidos como rappers ou MCs, abreviatura para mestre de cerimônias.
  • Flow: é uma terminologia usada no mundo do rap para designar a maneira como o rapper “encaixa” as palavras e frases no instrumental (beat)..
  • Jazz: É um estilo musical tendo como berço a cultura afro-americana, possui ritmo não linear e sua maior marca é a improvisação.
  • Swing: É um estilo que faz parte do gênero conhecido como jazz. Os agrupamentos que interpretam música swing incluem saxofone, contrabaixo, clarinete, piano e bateria, entre outros instrumentos.
  • Sinestesia: Cruzamento de sensações; associação de palavras ou expressões em que ocorre combinação de sensações diferentes numa só impressão.
  • Procissão: Desfile de pessoas ou coisas que passam sucessivamente.
  • Oboé: Instrumento musical de sopro, classificado como um aerofone, membro da família das madeiras.
  • Trap: É um estilo instrumental, onde combina ritmos de diferentes músicas, sons, onomatopeias e incorpora um extenso uso de sintetizadores multidimensionais e melódicas bem desalinhadas.
  • Vlive: Também chamado de V App, é um serviço de streaming de vídeo ao vivo da Coréia do Sul que permite que celebridades do país transmita vídeos ao vivo na Internet e conversem ao vivo com os fãs.
  • Standard: É o maior formato de publicações de jornais.
  • Latin Hip Hop: É um estilo de hip hop desenvolvido por latinos. O gênero combina sons de urban rap com letras vinda dos bairros. Algumas canções usam gírias em espanhol ou espanglês (espanhol com inglês).
  • R&B: É uma abreviatura de ‘rhythm and blues‘. É um estilo de música popular desenvolvido na década de 1940 a partir do blues, mas usando instrumentos amplificados eletronicamente. 
  • Hip Hop: É um gênero musical, com uma subcultura própria que se iniciou na década de 1970, nas comunidades jamaicanas, latinas e afro-americanas da cidade de Nova Iorque.
  • Rap rock: É um gênero musical que mistura elementos do rap com vários gêneros do rock.
  • Punk rock: É um movimento musical e cultural que surgiu na década de 1970, tem como características principais músicas rápidas e ruidosas, com canções que abordam ideias políticas anarquistas, niilistas e revolucionárias.
  • Rapcore: É um subgênero do rap rock que funde elementos do hip hop com o punk rock e hardcore punk.
  • Hardcore punk: Cena que surgiu durante a “segunda onda do punk“, no final da década de 1970, é um estilo de punk considerado ainda mais rápido e agressivo.
  • Rock: É um gênero musical que se desenvolveu durante e após a década de 1950. Suas raízes se encontram no rock and roll e no rockabilly que, por sua vez, evoluíram do blues, country e do rhythm and blues.

REFERÊNCIAS

3 comentários em “FAIXA A FAIXA apresenta: D-2 o retorno de um rei”

  1. Juliana Follador

    Sim eu tive que vir aqui comentar sobre o texto INCRÍVEL da Gabi, ual, eu chorei durante o texto, e aprendi tantas coisas novas, sinceramente, eu penso que se um dia o Yoongi tivesse a oportunidade de ler o quanto você absorveu o trabalho dele e ainda por cima explorou ele nesse texto, Yoongi ficaria de fato muito orgulho de si próprio e de você. O seu trabalho, sua escrita, o conteúdo completo desse texto está impecável, e só por ele já é possível ver o quanto você gosta do que faz, com suas análises profundas e completas. Acho que depois de ler tudo isso, definidamente D-2 tem um espaço ainda maior no meu coração. Obrigada a todos envolvidos nessa produção incrível.

  2. Parabéns pela análise incrível, completa e extremamente emocionante, Gabrielly! Adorei as descrições que você deu sobre cada faixa, que tipo de intsrumento foram usados e os subgêneros de cada Rap, eu não entendo muito de música e isso me mostrou algo que sempre tive curiosidade. Os elementos culturais, as referências à músicas anteriores, tudo é muito brilhante e me faz admirar cada vez mais o Yoongi enquanto artista, e o seu texto me proporcionou um pouco mais de conhecimento sobre o Yoongi e sobre o nosso fandom super Inteligente. Muito obrigada, e parabéns 💜

  3. EU ESTOU COMPLETAMENTE IMPACTADA!!!!! COM A FLUIDEZ DESSE TEXTO!!! Muito obrigada por compartilhar todas essas observações e informações dobre D-2 que é um álbum que merece toda a admiração pela complexidade porém intimidade de Min Yoongi.

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