Espelho da Alma: That’s My Ego!

Gardênia Pereira e Alicia Mesquita
Revisado por: Lale e Rafaela 

Desde o debut, o BTS canta sobre problemáticas da juventude, assim como músicas que falam sobre amor entre duas pessoas. Em 2017, uma nova vertente foi mostrada através da trilogia Love Yourself, quando o grupo  ultrapassou essa linha cantando sobre auto-descoberta e amor próprio. Com o início da era Map of The Soul – ou antes dela, pois o BTS sempre nos dá dicas da era que está por vir -, o ARMY passou a prestar atenção nos conceitos da Psicologia Analítica. 

Mais do que entender as letras das músicas e se identificar com elas, muitos fãs começaram a ler livros, artigos e assistir palestras sobre a teoria junguiana, para entender a mensagem que o grupo quer nos transmitir. Vemos que eles se tornam mais transparentes para nós, deixando suas personas de idol mais visíveis.

Antes de começarmos a discorrer sobre o Ego, nosso foco neste texto, é importante conhecer o caminho que o BTS trilhou até aqui, explanando através de canções estruturas tão complexas quanto as abordadas por Jung. 

Talvez o ponto de partida seja o que Jung define como Persona, que significa “pessoa tal como apresentada” e não “pessoa como real”, ou seja, é o que mostramos ao mundo. Esse termo se relaciona com papel do indivíduo em sociedade. Basicamente é uma combinação das expectativas do sujeito consigo mesmo com as expectativas da sociedade quanto a ele próprio. 

Na faixa introdutória de Map of The Soul: 7, observamos o primeiro questionamento: “Quem sou eu?”. Segundo Stein (2020),  existe muita introspecção e autoavaliação quando vislumbramos por trás das máscaras apresentadas (Persona), nas quais eles estão fazendo uma confissão no palco, ao mesmo tempo que fazem de tudo para nos divertir. Eles estão nos apresentando uma persona muito empolgante, mas há algo mais profundo sobre o que estão cantando.

“Sete jovens que representam diferentes aspectos.” (STEIN, 2020)
Big Hit Entertainment 

O Eu que eu prometi a mim mesmo ser, 
O Eu que as pessoas querem que eu seja
O Eu que você ama e o Eu que eu crio” 
- Intro: Persona

Não só foram corajosos para nos mostrarem com mais clareza a máscara de artista, como também para nos deixarem ver um pouco do que há por trás dela. Quanto mais alto o BTS chega, maior é sua sombra, que não necessariamente é ruim, porém, segundo Carl Jung, é algo que gostaríamos de esconder. Podem ser os medos, preocupações enquanto idols e seres humanos, a pressão pela perfeição, só eles podem nos dizer. A Sombra é o oposto de Persona, o que está oculto e muitas vezes é o que se projeta no outro.

Na faixa 06 do Map of The Soul: 7, fomos mergulhados na Sombra. Ao longo da letra da música e do MV de Interlude: Shadow,  sentimos a intensidade emocional de Suga por fama, poder e fortuna, bem como seu medo e ansiedade frente ao crescimento e sucesso do grupo e do fandom. Em um panorama geral, a música é sobre como se tornar consciente da Sombra de uma forma honesta e direta. Suga se torna ciente de seus desejos sombrios e abre um diálogo com eles, promovendo uma conversa entre ele mesmo e sua Sombra. A Sombra diz a ele que ambos são um e que eles nunca podem ser separados. (STEIN, 2020) 

“Olho para baixo e ela está ainda maior
Eu corro, mas a sombra me persegue” 
- Interlude: Shadow

Temos então as primeiras constatações:

Persona: “Quem Sou eu?”
Sombra: “Eu sou você.”

Isso não acontece só com os meninos; todos nós apresentamos “um lado” nosso que se adapta de forma mais adequada a um grupo de pessoas, a um ambiente ou situação, ao mesmo tempo que escondemos outros. Não somos as mesmas pessoas com nossos pais, amigos, professores, na casa dos avós, dos primos e outros, certo?

VCR da apresentação de Fake Love, no Mnet ASIAN MUSIC AWARDS em 2018.

Isso quer dizer que vivemos constantemente mostrando um lado e ocultando outro? Será que não existe a possibilidade de integrar ou equilibrar os dois? Jung diz que sim, porque, como seres humanos, nós buscamos a integralidade

Ele afirma que a psique opera, basicamente de duas formas diferentes, mas que se complementam: com o ego, de forma lógica e causal, e com o inconsciente, o qual é analógico e essencialmente imagético (SERBENA, 2010). Dessa forma, o ego seria um centro de continuidade da consciência, que está presente desde a infância, trazendo consigo imagens primordiais (JUNG, 2000). 

É importante mencionar aqui que, quando falamos de Ego, nos referimos a uma estrutura psicológica explorada por diversas teorias psicológicas. Não se remete a uma definição de senso comum, usada para definir pessoas voltadas a si mesmas, que priorizam seus próprios interesses etc. Jung define Ego se referindo à experiência que a pessoa tem de si mesma como um centro de vontade, de desejo, de reflexão e ação. Ego é compreendido como centro da consciência, que, em definição, seria: consciência para tudo que conhecemos e inconsciência, tudo que ignoramos (STEIN, 2000).

Stein (2020) reforça que o Ego exerce e define projetos em movimento, abrangendo todas as características pelas quais conscientemente “conhecemos nós mesmos.” Além de pertencer, também é afetado por todas as nossas memórias, traumas, emoções e fatos, bem como tudo o que podemos sentir conscientemente em nossos corpos. Contudo, o Ego está um pouco ciente da Persona, mas menos ciente da Sombra.

Stein (2020) salienta que, para descobrir o núcleo do Ego, no entanto, é necessário fazer uma introspecção profunda, olhar no espelho, não na persona vestida, mas na nudez interna da pessoa.

É possível ver a integralidade que mencionamos acima e o papel dessas imagens em muitas narrativas do BTS que, como explicamos no nosso primeiro texto sobre a era Wings, não há linearidade temporal. Os processos que pertencem à imagem do Bangtan (e nossos também) acontecem ao mesmo tempo, o tempo todo (BARCELLOS, 2017). Persona, Sombra e Ego ocorrem em nós e na nossa vivência e não são independentes, na verdade, são interligados

“Volto todo dia para o meu eu de ontem” 
- Outro: Ego
MV Outro: Ego 

No próprio MV de Outro: Ego, podemos ver imagens retrocedendo que mostram os MVs dos meninos, até seu começo. Na letra dessa música, J-Hope fala de “memórias quase esquecidas” que retornam. Muitas imagens e símbolos são semelhantes em culturas ao redor do mundo e ao longo dos séculos, preservadas pela memória no inconsciente coletivo sob a forma de arquétipos (COLLIN et al., 2016). 

Barcellos (2017) pontua que, na teoria junguiana, sonhos, memórias e símbolos estão interligados com imagens primordiais (falamos disso alguns parágrafos acima, certo?), formando a base fundamental da psique inconsciente e constituindo os ditos arquétipos.

Arquétipos podem ser encontrados em qualquer forma de expressão como literatura, teatro e música (COLLIN et al., 2016). Fica bem claro que a música é a paixão mais forte do BTS, mas é também a dança, além de pintura, fotografia e leitura, paixões que eles passaram a compartilhar conosco de maneira mais frequente.

MV Black Swan 

Essas formas de expressão também são marcas que eles deixam no mundo, e o reflexo do homem e do mundo, Jung chamou de alma (BARCELLOS, 2017).

A alma é o conceito central da teoria de Jung e dos álbuns Map of The Soul: Persona e 7. Compreendemos, assim, que o BTS nos mostra quem eles são, em inúmeros detalhes que vêm mapeando ao longo dos álbuns recentes. 

“Onde quer que seja o meu caminho, apenas Ego”
- Outro: Ego

A última faixa do álbum sugere a conclusão de algo. Stein (2020) constata como esse álbum foi bem estruturado, passando pela Persona, Sombra e finalizando com Ego. Vivenciando a sombra e lidando com um ego forte, isso mostra um importante desenvolvimento psicológico, pois o Ego fica fortalecido ao lidar e integrar a Sombra.Temos aqui a formação de um tríade: 

Persona: “Quem Sou eu?”
Sombra: “Eu sou você.”
Ego: “Eu sou eu” 

No MV de Outro: Ego também encontramos elementos visuais que se relacionam com as outras estruturas e que compõem a narrativa que BTS e ARMY vêm trilhando: as sombras, os espelhos, a volta ao passado. Na teoria junguiana, o Ego é uma espécie de espelho no qual a psique pode ver-se a si mesma e pode tornar-se consciente. 

MV Outro: Ego

 

Encontrar o mapa de suas almas – “o mapa de tudo”, como J-Hope fala na música – passou a ser a nova jornada do BTS, depois de encontrarem razões para amarem e falarem por si mesmos. Encontrar “o caminho” é um questionamento colocado por Carl Jung inclusive. “A pergunta que se faz aqui é, então: quais os caminhos de que dispomos para identificar o inconsciente?” (Jung, 2000).

Então, o mapa está completo? 

Chegamos então a um ponto no mapa em que esperamos uma nova fase. Recentemente têm sido liberados conceitos do próximo álbum: BE, no qual terá duas versões Reflection e Mirror. A aposta é que, como um álbum produzido por eles mesmos, seja novamente recheado com a essência dos sete. Reflexão e Espelho como novas maneiras de olharem para si mesmos. 

Big Hit Entertainment

Novamente, somos instigados a pensar sobre os elementos presentes no caminho percorrido até aqui, os espelhos novamente sendo citados, como forma de mostrar que a autorreflexão e a busca das verdades próprias não param. 

Stein (2020) questiona: O ego realmente existe ou é nada mais do que um produto de reflexão, como uma imagem em um espelho. Um objeto visto em um espelho não é real, é apenas virtual. É uma espécie de ilusão. Mas, então, podemos perguntar: e o espelho? O espelho é real? Não a imagem no espelho (nossa “identidade”), mas o espelho em si?  

O autor então afirma, que na verdade, o ego é o espelho e não o conteúdo no espelho. É uma reflexão sobre a própria reflexão, uma espelho olhando para outro espelho. Estamos em um corredor de espelhos. E isso ainda é o ego. É o ego refletindo sobre si mesmo.

Suga, em um relato sobre sua foto do novo conceito, fala sobre essa reflexão: 

"O destaque desta sala é o espelho... Ele mostra um reflexo de você, informando que você existe. Todos os membros participaram da produção de 'BE' para torná-lo um reflexo verdadeiro e fiel de quem somos. Isso me deixa ainda mais ansioso por este álbum." (Tradução: @houseofarmybts_
"Quem se olha no espelho d'água verá, antes de tudo, seu próprio rosto. O espelho não é lisonjeiro, mostra fielmente tudo o que olha para ele ; ou seja, o rosto que nunca mostramos ao mundo, porque o cobrimos com a persona, a máscara do ator. Mas o espelho está por trás da máscara e mostra o rosto verdadeiro."
ㅡ Carl Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo

Referências

  • BARCELLOS, G. Psique e imagem: estudos de psicologia arquetípica; Rio de Janeiro: Vozes, 2017.
  • 방탄소년단 (BTS). Interlude: Shadow. Produzida por: EL CAPITXN , GHSTLOOP & SUGA; escrita por: RM , Pdogg , GHSTLOOP, EL CAPITXN & SUGA. CD digital. Faixa 06. Big Hit Entertainment, 2020. CD digital. Faixa 06.
  • 방탄소년단 (BTS). Interlude: Shadow (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-interlude-shadow-english-translation-lyrics> . Acesso em: 09 nov 2020
  • 방탄소년단 (BTS). Intro: Persona. Produzida por: Pdogg, RM & Hiss noise; arranjada por: RM; escrita por: Pdogg, RM & Hiss noise. CD digital. Faixa 01. Big Hit Entertainment, 2019. CD digital. Faixa 01.
  • 방탄소년단 (BTS). Intro:Persona (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-intro-persona-english-translation-lyrics> . Acesso em: 09 nov 2020.
  • 방탄소년단 (BTS). Outro: Ego. Produzida por: Hiss noise; escrita por: J-Hope, Supreme Boi eHiss noise. CD digital. Faixa 19. Big Hit Entertainment, 2020. CD digital. Faixa 19.
  • 방탄소년단 (BTS). Outro: Ego  (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-outro-ego-english-translation-lyrics> . Acesso em: 09 nov 2020
  • COLLIN, C.; BENSON, N.; GINSBURG, J.; GRAND, Y.; LAZYAN, M.; WEEKS, M. O livro da Psicologia. Trad.: Hermeto, C. M.; Martins, A. L. 2 ed. São Paulo: Globo Livros, 2016.
  • JUNG, C. G. A Natureza da psique. Rio de Janeiro: Vozes, 2000.
  • JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo Vol. 9/1. Rio de Janeiro: Vozes, 2018.
  • STEIN, M. Mapa da Alma: 7 – Persona, Shadow e Ego – In the world of BTS. Publicações da Chiron, 2020.
  • STEIN, M. Jung – O Mapa da Alma: Uma Introdução. 5ª edição. Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2000.
  • SERBENA, C. A. Considerações sobre o inconsciente: mito, símbolo e arquétipo na psicologia analítica. Rev. abordagem gestalt.,  Goiânia ,  v. 16, n. 1, p. 76-82, jun.  2010 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-68672010000100010&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  04  nov.  2020.

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