E o TCC? – Reflexões Sobre a Insegurança Em Ser Aca-Fã

Gardênia Pereira, Alicia Mesquita e Gabrielle Guimarães¹
Revisado por:
Helmer Marra e Mariana Mathias


Você já se sentiu inseguro em fazer um trabalho sobre o BTS ou a Hallyu (Onda Coreana)? Já parou para pensar nos fatores que levam a essa insegurança? Hoje, pretendemos te ajudar com essas dúvidas e te mostrar que seu trabalho é bem mais relevante do que imagina.

O Painel Como Fazer possui uma série de postagens sobre o processo de construção de uma pesquisa acadêmica, precisamente sobre o trabalho de Conclusão De Curso (TCC). Nesta série são abordados pontos desde o encontro com orientador, armadilhas que o estudante se depara durante o  processo e análises metodológicas assertivas em relação a produção textual. 

Aqui, no Estações, nosso objetivo com o projeto “E o TCC?” é acolher sua jornada por meio de orientação. Queremos que sinta um abraço quentinho e apertado, com a certeza de que todas as etapas da vida passam. Estamos aqui para erguer a mão a você nesse momento tão importante, para que, por mais que seja uma experiência bastante trabalhosa, ela seja de certa forma mais leve. Como disse Jimin em seu discurso na 75ª Assembléia Geral da ONU.
“Nós nos confortamos e conversamos sobre o que podemos fazer juntos.”  

  No nosso primeiro texto sobre as nuances que permeiam o trabalho de conclusão, falamos sobre o primeiro passo para não “surtar”, diante de toda pressão que nos é imposta como graduandos. 

No que tange à  escolha do tema e do objeto de pesquisa de um TCC, sabemos que este é um dos momentos mais importantes e decisivos na vida acadêmica. O que naturalmente gera ansiedade e medo de não escolher o certo. Talvez, um dos maiores medos de um pesquisador seja pensar que sua pesquisa não é relevante. Quando trata-se de usar o BTS e a Hallyu como objeto de pesquisa, muitos questionamentos são feitos e, muitas vezes, levam-nos à dúvida de seguir ou não esse caminho. 

Segundo Hills (2002), o fã acadêmico permite que a competência acadêmica seja reconstruída e preservada face a um desafio do conhecimento dos fãs. Em seu livro, o autor ainda traz comparações entre fãs e acadêmicos. “Os acadêmicos não são completamente racionais, nem os fãs são e estão absolutamente imersos em seu mundo. O conhecimento acadêmico nem sempre é significativamente “testável”, nem o conhecimento dos fãs é sempre “informal” ou “experiencial” (HILLS, 2002).

Quando se trata de aca-fãs, podemos considerar um conceito ou estilo de vida? Basicamente, o fã acadêmico traz consigo uma categoria que vem cada vez mais acarretando curiosidade e diversidade para a academia. 

Como aca-fãs, é natural querermos usar nossos idols como objeto de estudo, visto que na maior parte do tempo eles influenciam e fazem parte de muitas etapas de nossas vidas. No primeiro momento, essa se torna uma das maiores motivações para trazer estes temas ao mundo acadêmico, mas, como qualquer outro processo, as dificuldades surgem, podendo desmotivar o fã acadêmico. 

Como saber se meu trabalho é relevante? Onde buscar apoio para realizá-lo? Como permanecer motivado diante de tão pouco conteúdo? Esses são apenas alguns dos muitos questionamentos que surgem na hora de realizar a pesquisa para o TCC. No trecho abaixo, da música Tomorrow, deparamos-nos com uma letra carregada com incertezas e angústias, mas com a esperança de que, no dia seguinte, todas essas preocupações possam ir embora.

“Eu tenho um longo caminho a percorrer
Mas por que eu estou correndo no mesmo lugar?
Eu grito em frustração
Mas ecoa no ar vazio
Espero que amanhã seja
Diferente a partir de hoje
Eu estou apenas desejando”
Tomorrow

O processo de realizar um trabalho tão importante quanto o de conclusão da graduação se assemelha a inúmeras situações da nossa vida, acadêmica ou não, pois é um evento que causa conflito em nós e leva-nos a confrontar sentimentos que, por vezes, negamos. Desconfianças e hesitações fazem parte do caminho de todos, e dos meninos do BTS não seria diferente. Logo, por esta escolha, muitas vezes sentimos que algumas de suas músicas traduzem certos dos sentimentos que vivenciamos. Por esta razão,  tente acalmar-se, os nossos meninos sempre abrirão uma porta para confortar-nos.

“Você acreditaria se eu te dissesse que eu também sentia medo?
Dos sentimentos verdadeiros,
Do tempo que restava
Todas as respostas que você procura estão neste lugar dentro da sua galáxia
Do seu coração”
Magic Shop

“Escolhi o Tema, mas tenho medo de não ser interessante, e agora?”


A preocupação com a relevância do tema é algo muito comum, seja quando você escolhe falar sobre BTS, seja sobre qualquer outro assunto. Afinal, queremos que esse conteúdo seja necessário e de grande suporte para as pessoas que terão contato com ele. Apontam Clark e Beck (2012), “quando sentimos medo ou ansiedade, também tendemos a ver-nos como fracos, vulneráveis e incapazes de enfrentar”. O medo, certas vezes, causa uma distorção da realidade e nos impede de enxergar o processo como ele realmente é. 

Escolher o Bangtan e a Hallyu já traz em si alguns obstáculos, por se tratar-se de assuntos em emergência no meio acadêmico. Desta forma, ocasiona sentimentos de medo, desmotivação e dúvida sobre sua importância, de tal maneira que os interessados se sintam inseguros ao abordar seus temas e questionarem-se se teriam o apoio necessário para desenvolvê-los, levando muitos aca-fãs a desistirem de aceitar esse desafio.

Mas algo que você precisa saber, é que todos passamos por esses momentos de ansiedade e inseguranças. Lembre-se: Você é capaz e esse momento de incerteza passará, portanto, acredite na sua capacidade e não tenha medo de sair da zona de conforto. Momentos de hesitação e falta de confiança surgirão ao longo do processo de escrita, não somente no início. Para isso, você precisa identificar seus inimigos: a raiz da sua insegurança, procrastinação, desorganização, sobrecarga de tarefas, etc. Assim como, reconhecer seus aliados: métodos de organização, tanto de escrita quanto de administração do tempo para o lazer; identificar suas bases de dados, atentando-se a uma base de dados de instituições de ensino e de pesquisa asiáticas;  bem como reavaliar, periodicamente, seus objetivos, a fim de não se perder no caminho. 

E de onde vem a insegurança?

 

Entendendo que todos temos momentos de insegurança, independente de qual parte do percurso encontra-se, partimos para uma questão significativa: como encontrar a raiz disso e se libertar dessa circunstância? 

Saber encontrar a raiz da falta de confiança e dos medos diz muito sobre a particularidade dos indivíduos, pois cada um tem sua vivência. O que aflora a insegurança de uma pessoa pode não ser o mesmo fator que aflora em outra. Essa busca se trata de um comprometimento com nossa individualidade, bem como com nosso constante esforço de conhecer a nós mesmos, à procura por um equilíbrio emocional.

Quando pensamos em nossa infância, por exemplo, podemos notar que todo indivíduo pode desenvolver certas crenças sobre si mesmas, sobre outras pessoas e sobre o mundo. Crenças centrais são concepções tão profundas que as pessoas geralmente não “discutem” e tendem a levá-las como verdades absolutas (BECK, 2013).

Sendo assim, as crenças limitantes podem causar pensamentos disfuncionais e errôneos, o que consequentemente podem causar desconforto significativo para a pessoa que os possui, limitando em inúmeras situações, no caso abordado nesse texto, no contexto acadêmico. Muitas vezes, pensamos que não somos bons o suficiente ou que “não daremos conta” de desenvolver um bom trabalho. 

O caminho mais eficaz para reorganizar essas crenças é o acompanhamento psicológico. A psicoterapia apoia o paciente e “ensina-o a identificar, avaliar e modificar seus pensamentos, resultando um alívio desses sintomas. Então, as crenças por trás desses pensamentos disfuncionais são avaliadas e modificadas, assim a percepção do paciente começa a mudar.

Ser fã de grupos musicais, geralmente, proporciona em pensamentos as imagens de meninas adolescentes, que usam roupas diferentes e funcionam como se tivessem um “mundo próprio”. Nem tudo isso precisa ser visto como características negativas, no entanto, é uma definição de fã bem limitante e estereotipada. Talvez, por esse motivo, muitos de nós, aca-fãs, podemos nos sentir acuados ou delimitados na academia. 

Em um vídeo liberado pelo canal dos meninos no Youtube, no qual eles discutiam ideias sobre o que falar no discurso na Assembleia da ONU em 2018, Yoongi relatou que ficou impressionado com o ARMY, que arrecadou 1 milhão de dólares em apoio à campanha Love Myself”. Além disso, ressaltou que o BTS não conseguiria realizar algo tão grande, e que foram seus fãs que possibilitaram muitos efeitos positivos na sociedade. 

“Eles são desprezados frequentemente por serem fãs de idols. Mas eles realmente são pessoas extraordinárias”. SUGA elogiou o ARMY por suas contribuições e acrescentou “Honestamente, não é fácil fazer esse tipo de coisa simplesmente porque você gosta de alguém”. Namjoon concordou e completou: “Nossos fãs foram os responsáveis por nos estabelecerem como porta-vozes e nos trouxeram até a ONU. Nós estamos simplesmente falando em nome deles.” 

Esta fala do Yoongi carrega muito significado, pelo fato de que é perceptível o quanto fãs de idols são depreciados com certa frequência, apenas por serem fãs. 

De acordo com Hills (2002), as subjetividades imaginadas são dessa forma porque não correspondem à realidade. Assim, ele conduz a linha de raciocínio sobre as subjetividades incorporadas de fãs ou acadêmicos, que muitas vezes são conceitos impostos a eles. 

Observando o ARMY, podemos considerar que nosso fandom é extremamente diverso, e essa é uma das razões pelas quais o BTS populariza-se rapidamente ao redor do mundo. Yoongi estava certo quando disse que não é fácil fazer isso “só” por gostarmos deles, porque temos uma organização que nos permite quebrar recordes e fazer doações (BHANDARI, 2020).

Se somos capazes de, em um dia e/ou uma hora, arrecadar um milhão de dólares em prol do Black Lives Matter, dentre outras campanhas, também podemos romper barreiras no mundo acadêmico e falar sobre o Bangtan em nossos trabalhos finais.

“Agora, mais do que nunca, devemos tentar lembrar quem somos e encarar quem somos. Devemos tentar amar a nós mesmos (…). BTS estará lá com você”
Kim Namjoon

 Assim como o grupo em seu começo, algumas pessoas podem não nos levar a sério e menosprezam os nossos temas. Porém, ser fã é mais do que ouvir as músicas deles, trazendo sentimentos de pertença e interações que espalham as mensagens do grupo (SILVA et al., 2020).

Dessa forma, temos as habilidades e os meios de romper barreiras psicológicas e preconceitos frente a estudos cuja temática envolve o BTS e a Hallyu. Seguindo assim os passos, os ensinamentos e exemplos dos sete garotos coreanos que usam até os dias atuais de suas vivências para transmitirem mensagens significativas. 

“Siga seu sonho como um destruidor
Mesmo se der tudo errado, oh vai melhorar
Siga seu sonhos como um destruidor
Mesmo se der tudo errado, não volte atrás, jamais”
Tomorrow


Colaboração

Gabrielle Guimarães¹: Psicóloga Clínica, 22 anos, pós-graduanda em Terapia Cognitivo-Comportamental na PUC-PR.


Referências 

  • BECK, Judith S et al. Terapia cognitivo-comportamental: teoria e prática. 2.ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 2013.
  • BHANDARI, A. How the South Korean band’s fanbase – known as ARMY – raised over $1 million for the Black Lives Matter movement, mostly in just one day. Reuters Graphics, 2020. Disponível em: https://graphics.reuters.com/GLOBAL-RACE/BTS-FANS/nmopajgmxva/. Acesso em 26 de out. 2020.
  • 방탄소년단 (BTS). Magic Shop. Produzida por: Jungkook, Hiss Noise, ADORA; arranjada por: ADORA, Slow Rabbit e Pdogg; escrita por: JungKook, SUGA, J-Hope, ADORA, Candace Sosa, DJ Swivel, RM & Hiss noise. CD digital. Faixa 7. Big Hit Entertainment, 2018. CD digital. Faixa 7.
  • 방탄소년단 (BTS). Magic Shop (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-magic-shop-english-translation-lyrics>. Acesso em: 29 out 2020.
  • 방탄소년단 (BTS). Tomorrow. Produzida por: Slow Rabbit, SUGA; arranjada por: Pdogg, Supreme Boi; escrita por: RM, J-hope, SUGA, Slow Rabbit. CD digital. Faixa 6. Big Hit Entertainment, 2014. CD digital. Faixa 6.
  • 방탄소년단 (BTS). Tomorrow (English Translation). Genius, [s.d.]. Disponível em: <https://genius.com/Genius-english-translations-bts-tomorrow-english-translation-lyrics>. Acesso em: 29 out 2020.
  • CLARK, D. A.; BECK, A. T. Vencendo a ansiedade e a preocupação com a terapia cognitivo-comportamental. Porto Alegre: Artmed, 2012.
  • HILLS, Matt. Culturas de fãs . Psychology Press, 2002.
  • SILVA, A., ANCHIETA, M., FERREIRA, M., TAVARES, I. A relação entre comportamento social em adolescentes e música: uma revisão sistemática. Journal of Health and Biological Sciences, Fortaleza, v. 8, n. 1, p. 1-7, 2020.

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