A Verdade Contida Em Uma Promessa: Um Paralelo Entre ‘Lie’ e ‘Promise’

Arte por @yoonstarsy – “Olhando para o Espelho”
Gardênia Pereira e Alicia Mesquita 
Revisado por Laís Nahara e Karen Naomi Aisawa

NOTA: É importante ressaltar que essa análise é apenas uma interpretação embasada em teorias psicológicas associadas ao contexto das músicas. Não se trata de uma verdade absoluta e nem necessariamente da mensagem que o artista desejou passar através da letra da mesma.

Passado encontra futuro.

Lie e Promise encontram o seu ponto comum na incansável busca pelo autoconhecimento, mostrando que dois momentos diferentes podem dialogar e criar um ponto de reflexão entre quem foi e quem se tornou. Ou seja, em Lie, o Jimin de 2016 nos mostra uma dada narrativa e, em Promise, o Jimin de 2018 ressignifica conceitos do seu passado, construindo seu futuro. 

Criaremos aqui, um paralelo entre as duas músicas protagonizadas por Jimin, analisando os elementos comuns entre elas, principalmente o percurso do artista durante o intervalo de suas canções. Para a Psicologia, todas as relações e aspectos importam e influenciam as trajetórias pessoais tanto do artista quanto do fã.

Segundo Fritz Perls, criador da Gestalt-Terapia, a nossa percepção cria a sensação pessoal de realidade. É possível não reconhecer ou até esquecer-se disso, então tendemos a confundir o nosso ponto de vista sobre o mundo com a verdade absoluta. Porém, o autor dirá que a única verdade que alguém pode ter é a sua verdade pessoal. Para ele, é fundamental que as pessoas entendam o seu poder de criação (COLLINS et al., 2016). 

Aliando essa teoria psicológica às produções do BTS, é possível notar o quanto eles usam da criatividade e imaginação em M/Vs, VCRs — (no mundo do K-Pop, VCR é basicamente um vídeo pré-gravado, que é apresentado como “pano de fundo” nos shows e nos mostram o conceito do álbum, assim como ensaios fotográficos liberados pela empresa). Outros exemplos disso são o uso das cores em Wings ou as narrativas do Bangtan Universe, que demonstram o quanto diversas formas de arte se interligam na criação de uma (ou mais de uma) realidade. 

Perls também afirma que, além de criar, podemos alterar a realidade conscientemente a partir das atitudes que tomamos. É algo que os outros não podem fazer por nós. Compreendendo isso, também podemos entender que as ações que realizamos são ferramentas para mudar a realidade. 

Figura 1 – Big Hit Entertainment 
“Fique longe longe de mim
Fique longe de mim
Algo, por favor, me salve
Por favor, me salve”
- Lie 

O Painel Prateleira realizou uma análise sobre Lie abordando a interpretação tanto da música e do Short Film, quanto das teorias da realidade paralela do Bangtan Universe (BU) e a sua relação com determinados elementos, como a maçã e a água, por exemplo. 

No Short Film, vídeo curto que traz referências da história contada no BU, nota-se que  todo o contexto é de contradição: um sorriso que não demonstra a verdade, o local claro que traz a ideia de calmaria, mas que, na realidade, é um local de aprisionamento. 

Dado o contexto de Wings, como citamos anteriormente em um  panorama geral sobre o álbum, percebe-se, por meio desses elementos, que a narrativa gira em torno de um ciclo abusivo e vicioso. Em um certo momento, os meninos despertam e percebem a situação adoecedora em que estão. Lie é uma música cheia de contradição em que, mesmo percebendo onde estão, eles não conseguem sair ainda. No trecho abaixo da Figura 1, no qual temos Jimin rodeado de maçãs, vemos que o artista toma consciência de onde se encontra e quer ficar distante do que é doloroso para ele ao pedir  por socorro.

“Pego em uma mentira
Por favor, devolva a minha inocência
Eu não posso escapar dessa mentira
Por favor, devolva o meu sorriso”

Ele se vê sem saída ao se deparar com a perda de algo significativo  para ele. O primeiro passo dado por Jimin, como dito, foi ter consciência da sua realidade. No entanto, ele ainda não tem condições psíquicas de agir nesse ambiente. Entrar em contato com o ambiente psíquico (geralmente isso acontece durante um processo terapêutico, no qual o indivíduo toma consciência de questões próprias) nos dá poder sobre como interpretar a realidade e como reagir a ela. Collins et al. (2016) pontua que, de acordo com a Gestalt-Terapia, precisa-se aprender a cultivar a consciência e concentrá-la nos sentimentos presentes. Isso implica estar no “aqui e agora”, entrando em contato com seus verdadeiros sentimentos.

“Eu ainda sou o mesmo, o mesmo que sempre fui
O mesmo eu de antes está aqui
Mas essa mentira cresce mais e mais
Está ameaçando me engolir”

No trecho acima, percebe-se que Jimin não está sendo realmente autêntico com seu “eu”. Muitas vezes, passamos por experiências que modificam esse “eu” e isso é mais comum do que se imagina: é muito difícil entrar e sair de um relacionamento da mesma forma, pois não somos a mesma pessoa do início. Porém, mesmo que esse “eu” dele não seja realmente o de antes, percebe-se que ele está com medo de perder-se, de realmente não ser mais ele por causa dessa mentira.

A Gestalt-Terapia também utiliza-se muito da linguagem, levando-nos a nos responsabilizarmos sobre a realidade ao perceber e ressignificar o uso da palavra “eu”, de modo a  esclarecer quem é o dono do sentimento. Collins et al. (2016) mostra que, para Perls, é recomendável adotar crenças que inspirem e desenvolvam esse verdadeiro “eu”. Assim, é possível entender que construímos nosso próprio mundo e verdade, sendo necessário compreender o contexto em que se está inserido, antes de modificar algo (ALMEIDA, 2010).

Ao longo da discografia do BTS, mesmo que caminhando pelas eras de uma forma não cronológica e linear, o grupo se liberta de muitas amarras e situações de dificuldade e vulnerabilidade.  É um percurso pela busca do amor próprio, pelo uso de sua voz para falar por si mesmo e pela descoberta da simbologia do mapa de suas almas

As músicas refletem os momentos que eles estão vivendo e a fase da vida em que estão, mostrando suas verdades pessoais, criando suas próprias e novas verdades, nos ajudando a formar as nossas. Com autoconhecimento, a trajetória se torna mais leve. Quando falamos sobre esse caminho se tornar leve, não significa que este processo é fácil. Autoconhecer-se faz parte de um desenvolvimento que pode ser doloroso, muitas vezes acontece a partir da psicoterapia. A leveza vem de progressos dentro deste contexto, passando por momentos conflitantes.

Arte por @yoonstarsy – “Olhando para o Espelho”

Por outro lado, em Promise, Jimin parece mais maduro e em contato com seu “eu” autêntico, um contraponto a Lie

“Não é nada demais, eu digo isso
Mas para ser honesto
Pode não ser assim na verdade”

Na Gestalt-Terapia, Silva, Baptista e Balvim (2015) dizem que as pessoas têm tido dificuldades em lidar com momentos de vulnerabilidade, de lançar-se na experiência de criar laços, isto é, as pessoas muitas vezes demonstram medo da conexão com o outro. Vemos nas duas músicas dois momentos em que Jimin externou situações vulneráveis. 

Enquanto na letra de Promise Jimin menciona que alguém está ferido por sua causa, em Lie ele dizia estar machucado por outra pessoa. Assim, ele parece estar mais disposto a se abrir e falar a verdade desta vez, ser mais sincero com seus sentimentos. 

“Eu quero que você seja sua noite, querida
Você poderia ser sua noite
Para que eu possa ser sincero com você esta noite” 
- Promise

Citamos acima que não saímos de uma experiência da mesma forma que entramos. O psicólogo humanista Carl Rogers (2010) diz que todo ser tem a predisposição para desenvolver suas potencialidades. Inclusive, a personalidade se desenvolve assim, por meio das experiências. Temos a predisposição à autorrealização. Assim, ao passar por experiências que vão da alegria ao sofrimento, Jimin, de certa forma, evoluiu e aprendeu a abrir-se para as vivências.

Rogers também propôs a noção de self/ (eu), importante para entender o desenvolvimento do homem como pessoa. É a maneira pela qual a pessoa se percebe e age no ambiente. Vemos que ele não só saiu do ciclo de abuso e vício de Lie como também parece querer nos mostrar como superar os nossos próprios sofrimentos.

O artista, talvez sem saber, retrata um conceito da Psicologia Humanista chamado auto-valorização. Com a auto-valorização, é possível se autoconhecer, perceber a si mesmo, visto que autoconhecimento é um processo constante na vida das pessoas: estamos sujeitos a mudanças a todo o momento. Esse conhecimento é auto descoberto, ou seja, em terapia, por exemplo, a(o) psicóloga(o) tem a função de integrar o que a(o) paciente já tem de bagagem. É claro que processos de autoconhecimento podem acontecer independente da realização de psicoterapia, mas reafirmamos que a prática do acompanhamento psicológico, na maioria das vezes, é o principal aliado para o reconhecimento do nosso potencial.

Associado a isso, é visível como o BTS constrói uma relação de confiança entre os próprios membros e com o ARMY. Lara (2018) aponta que, para compreender o sofrimento psíquico, faz-se necessário reconhecer o sujeito e seus laços sociais, pois esse sofrimento tensiona, rompe ou causa conexão com tais laços. No trecho abaixo, podemos notar que em Promise, Jimin aproxima e compartilha seus sentimentos com o ARMY, visto que, no Soundcloud, plataforma onde a música é disponibilizada, a nomenclatura que aparece no link é “first jimin present” que traduzido é “O primeiro presente do Jimin”. Notamos com isso, como essa relação é forte e como ambos são importantes na vida do outro, atuando como pontos de apoio. 

“Prometa para mim agora, oh, oh
Mesmo que você se sinta sozinha, oh, oh
Várias vezes do dia, oh oh
Não se jogue fora, oh, oh”

Para Freud (1974), a psicologia psicanalítica do Self propõe que todo ser humano possui três necessidades básicas: a necessidade de se sentir amparado e seguro, a de se sentir aceito e valorizado e a de pertença. Três características não tão difíceis de se encontrar na experiência de fazer parte do ARMY, no qual nos sentimos compreendidos e somos capazes de compreender o externo a nós.

O Bangtan sempre deixa claro que nós somos sua força motriz e temos exemplos na internet ou nos docu-séries do quanto o ARMY desenvolve afetos e encontra apoio nos meninos. Retornamos então ao conceito de self, que é desenvolvido quando a pessoa se relaciona com outras, busca um equilíbrio e agrega experiências positivas: modifica-se constantemente quando vivenciamos novas aprendizagens.

Figura 2 – Big Hit Entertainment

“Eu quero que você seja sua luz, querida
Você deveria ser sua luz
Para que você não se machuque
Para que você possa sorrir”

É importante ressaltar que Lie e Promise foram escritas e produzidas em contextos diferentes, mas que, associadas, nos mostram todo um caminho percorrido, um caminho, a princípio, de negação e, logo em seguida, consciente, de ser autêntico e reconhecer progressos e limites. 

Todos os dias vemos o quanto ser fã do grupo é uma experiência positiva para a maioria das pessoas. Promise, então, é uma música reconfortante e que revela sentimentos autênticos de Jimin, além de nos mostrar formas de enfrentarmos situações de dor e sofrimento juntos.  

Promise vem como uma âncora que não nos deixa em mar aberto e desconhecido. Deixamos aqui nossa promessa, de que não nos jogaremos fora, e que seremos nossa própria luz. 

“Lembre-se de que há alguém na Coréia, na cidade de Seoul, que entende você.
Estamos em partes diferentes no mundo, em ambientes e circunstâncias diferentes. Mas espero que agora possamos dar um abraço caloroso e dizer: ‘Está tudo bem’”. 
- Park Jimin 
Figura 3 – Big Hit Entertainment 

Referências 

1 comentário em “A Verdade Contida Em Uma Promessa: Um Paralelo Entre ‘Lie’ e ‘Promise’”

  1. Eu amei tanto essa análise, é incrível como os meninos produzem tudo com tanto carinho e demonstrando sempre apoio e amor ao ARMY. Parabéns,ficou tudo muito bom, vocês como sempre fizeram um ótimo trabalho <3

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