‘Dynamite’ e a Psicologia Positiva

Gardênia Pereira e Alicia Mesquita 
Revisado por: Brunna Martins 

 “Light it up like dynamite”

Quando falamos da relação terapêutica que temos com a música, é fácil lembrar das inúmeras vezes que o Bangtan nos proporcionou conforto e afeto através de suas canções. No novo single, Dynamite, a letra da música diz “Então vou acender tudo como dinamite”. Logo associamos as vezes em que eles nos disseram através de suas letras que nos iluminam (e vice versa), como em Lights e, em uma das mais recentes, Stay Gold

“Dynamite é uma das músicas que ouvimos enquanto estávamos preparando nosso novo álbum, que será lançado no segundo semestre deste ano. É uma música terapêutica, que faz com que nos sintamos bem. Todos nós nos sentimos desta mesma forma, então decidimos lançá-la como um single e curtir com vocês, ao invés de incluí-la em nosso álbum.” — J-Hope

A música é um recurso utilizado como intervenção terapêutica por diversos profissionais da área da saúde, além dos musicoterapeutas. É um elemento que facilita a condução de tratamentos e a relação entre terapeuta e paciente, uma vez que é utilizada como mediação entre os eventos internos e externos na vida do indivíduo.

“2020 está sendo um ano difícil para muitos, nos sentimos desesperados, queríamos focar no melhor que poderíamos fazer, e tentamos dar essa energia. É bem simples, o mundo precisa de uma explosão positiva e nós viemos com Dynamite e boom” — Kim Namjoon. 

Quando Namjoon fala sobre as dificuldades de 2020, logo “COVID-19” surge em nossas mentes, pois a pandemia vem influenciando muito a qualidade da saúde mental das pessoas. Estamos diante de uma estranha normalidade, nos adaptando a uma nova realidade. Não é fácil, e encaramos novos desafios todos os dias.

A indústria do entretenimento também precisou se adaptar; o artista também sentiu a necessidade de estar mais próximos dos seus fãs. Para isso, uma das alternativas foram os concertos online. O Bang Bang Con, por exemplo, foi um show de bastante visibilidade, e para o ARMY, que muitas vezes usa a música como suporte, veio como um respiro de esperança.

"Foi uma nova experiência. Nós não sabíamos quando íamos encontrar nossos fãs de novo, mas tentamos fazer qualquer coisa que pudesse nos conectar com eles, mesmo com todas as circunstâncias"
- Kim Seokjin, em entrevista para a Radio.com  
 sobre o Bang Bang Con 

Anos 70 e 80: Uma Onda de Positividade

Explosão de candy colors no MV 
"O conceito propriamente dito mostra uma vibe ano 70/80 e é muito divertido para as pessoas que o assistem" — Min Yoongi

O conceito retrô do MV aborda algumas décadas. Assim como Yoongi menciona na entrevista, fica muito clara a alusão aos anos 70, com calças bocas de sino, estampas e cores, remetendo ao estilo de se vestir dos jovens naquela época, que propagavam paz e amor. Os anos 80 nos remete à discoteca, também regado à cores, animação e muito estilo. Sobre os cenários nas décadas citadas, porém, podemos dizer que não eram dos melhores: guerras e conflitos políticos aconteciam, o que refletia mundialmente e negativamente nas pessoas. 

Podemos relacionar essas eras ao nosso momento atual, em que passamos por caos, pressão mundial, sentimentos extremos e à flor da pele. A forma que as pessoas encontraram de enfrentar crises, incertezas e inseguranças naquela época é bem parecida com a de hoje: buscar conforto através da música para lidar com tais situações. Não somente os fãs, mas também os artistas conseguem inspiração para produzir mais canções que promovam o alívio necessário e que contem a história por gerações. 

MV – Dynamite 

Se levarmos em consideração todas essas informações, fica fácil relacionar como todo o conceito das roupas, cenários e ideologias passam pela música e acertam em cheio a propagação do bem estar. 

Sobre o conceito das roupas e cores, nos chama a atenção a escolha de tons. Geralmente, são os que nos remetem a acolhimento, alegria, tranquilidade e positividade. A Psicologia das Cores explica que determinadas tonalidades afloram e intensificam sensações. O amarelo nos leva a um estado otimista, alegre. O azul nos desperta tranquilidade e calmaria. Já o rosa simboliza a suavidade e delicadeza, conhecida como a cor do sentimentalismo.

A junção das cores acima com as cores presentes no MV e toda sua atmosfera foram uma escolha de encher os olhos e o  coração com muitos sentimentos bons! 

Parece que Dynamite, tanto sonoramente quanto visualmente, é uma ‘prima’ da nossa queridinha Boy With Luv, que também nos traz sentimentos bastante positivos, não é mesmo? 

“Gravar essa música foi muito divertido e, como o Jin disse, nós estamos passando por tempos difíceis.  Fizemos essa música na esperança de dar energia aos ouvintes. Estamos felizes que essa música se tornou tão boa e esperamos que muitos dos nossos fãs escutem essa música para receberem a energia positiva que nós tentamos transmitir.” — Park Jimin

Segundo Nunes (2008), a Psicologia Positiva considera e relaciona a felicidade e outras emoções positivas  com seus benefícios e maneiras de desenvolvimento pessoal. Com isso, busca-se aprimorar a inteligência e estabilidade emocional, garantindo uma melhor qualidade de vida. O indivíduo precisa, então, de alguns pontos para viver bem e feliz:

  • Emoções positivas;
  • Flexibilidade/ fluidez;
  • Relacionamentos construtivos;
  • Motivação e propósito.

A autora afirma que, além de tratar dos pontos e emoções positivos, que são subjetivos, essa linha dentro da Psicologia busca identificar e abarcar tudo que os envolvem, incluindo os espaços que as promovam. Essa perspectiva leva os psicólogos a adotarem uma postura que acolha os potenciais dos indivíduos, de forma que desenvolvam ainda mais as capacidades e motivações na busca da resiliência e da  ressignificação de determinadas questões. 

Ressaltamos aqui a importância de um profissional que leve em consideração todas as particularidades das pessoas, assim como se lembre de que a Psicologia é feita de muitas vertentes, buscando englobar toda a pluralidade do indivíduo. Com isso, queremos dizer que a forma com que a música pode ser terapêutica para determinadas pessoas precisa ser levada em conta.

Senhoras e senhores,
eu tenho o remédio,
então fiquem atentos”

Aparentemente, quando Namjoon canta o trecho acima, está certíssimo em dizer que tem o remédio. Enquanto ainda não somos agraciados por uma certa vacina, o que podemos fazer é aguardarmos ansiosos e esperançosos, usando da música para nos mantermos positivos em tempos obscuros. 

Na exaustiva agenda de promoções que os membros tiveram, fomos presenteados com muitas falas otimistas de todos eles durante  diversas entrevistas. O discurso foi unânime: a nova música nasceu para gerar sentimentos bons e esperança. 

“Nós estamos trabalhando na nossa música e isso é uma das formas de nos curar. O processo também vem a nós como uma inspiração e nós estamos tentando fazer nosso melhor para trazer resultados melhores nos ajustando ao tempos atuais. Nós também temos mais tempo para nossos hobbies. E novamente, nós estamos tentando não ficar tristes e trazer mais energia para o nosso dia a dia.” — J-Hope
“Primeiramente, nós recebemos muita energia dos fãs, e acreditamos que nós existimos para devolver tanto a esperança e alegria, quanto as recebemos. Acho que nós encontramos alegria em fazer os outros felizes com o que fazemos de melhor, que é cantar e dançar” — Jungkook
“Posso dizer com segurança que amo música mais do que qualquer outra pessoa e que sou apaixonado por cantar e dançar. Mas o mais importante foi que me senti muito, muito revigorado por haver pessoas que ouvem e amam a nossa música” — Kim Taehyung 

Todo esse movimento positivo gera um efeito dominó, como se fosse um “vírus da felicidade” e vai se espalhando afetando não só o ARMY, mas todos ao seu redor. 

“A semana de fato foi pesada pra mim, e eu sinceramente não estava com muito ânimo e nem criando tanta expectativa, sabem quando vocês simplesmente não estão bem? Bom, a música estreou 1:00 do dia 21 e não consigo descrever de forma simples, mas foi como pinceladas de cores no meu mundo que estava em preto e branco, e eu sempre repito isso, a música deles tem esse poder, eu amei o ritmo, escutei umas quinze vezes antes de dormir e assim que acordei coloquei pra tocar bem alto em casa, pra que eu pudesse dar um pouco dessa cor pra minha mãe também, e acho que foi uma das coisas mais lindas, ela até pegou o celular da minha mão pra ver o MV e começou a cantar o refrão, e ali naquele momento eu consegui sentir a felicidade, depois de uma semana tensa e exaustiva, até a expressão deles em vídeo me cativou, tudo simplesmente, contagiante.”
- Juliana Follador 

Relatos pelas redes sociais demonstram sentimentos de gratidão e alegria por terem sentido toda a onda positiva que Dynamite transmitiu: 

Moura e Silva (2007) sustentam que o bem-estar subjetivo é um importante elemento dentro da Psicologia Positiva. É algo que pode favorecer a maneira como vemos a nós mesmos e as outras pessoas, o que pode transformar em maior prazer as vivências e situações do dia a dia. 

Afirmam ainda que existem evidências experimentais que indicam que as pessoas tendem a apresentar determinado sofrimento quando não fazem parte de nenhum tipo de grupo ou quando têm relações rasas dentro deles. Podemos concluir então que participar de grupos, sejam eles quais forem, incluindo assim o ARMY, é favorável para o bem-estar subjetivo. 

“Nos últimos dias/ tempo eu andava mais pra baixo sabe? Por tudo que a pandemia e esse momento gera, que não é “somente” a doença em si, casos e tudo mais…questionamentos sobre a própria vida, futuro… muito conectado ao que inclusive o painel estações trouxe no último texto sobre 28’ para a semana D-2. Dynamite realmente foi uma ‘explosão’ de energia e de alegria, por mais ‘simplório’ que isso pareça. Me tirou de um momento também onde parece que ‘não podemos estar felizes em um momento como em que o mundo passa/enfrenta’.  Imediatamente me fez dançar, e não digo só pelo MV, me remeteu muito ao que ultimamente nas minhas aulas e coreografias não conseguia expressar ou eram mais expressando os sentimentos de tristeza, insegurança e críticas. Trouxe leveza e foi como um respiro e real motivação que estava precisando. Quando eles falam que é uma música pra todo mundo, eu realmente acredito, aqui em casa, todos gostaram muito, meus pais remeteram a época de jovens, e ficamos curtindo juntos.” – Catharina Maciel. 

Efeito Dynamite 

À essa altura, já entendemos que Dynamite veio pra mexer com todas as estruturas e realmente  atingir todos os lados possíveis. Passamos o final de semana do lançamento regados por entusiasmo e surpresas; recordes batidos e um fandom unido e transbordando orgulho e felicidade. 

Segundo Lee (2020), para muitos fãs do BTS, o ato de fazer stream não significa apenas simplesmente ouvir e se divertir, mas também apoiar estrategicamente o artista. Muitas vezes, e principalmente no K-pop, o streaming também pode ser um ato de resistência contra a estrutura social e sistemas existentes, que os fãs sentem que são de certa forma injustos com os artistas. 

Não somente para quebra de recordes, mas o fandom se uniu em prol do apreço e sentimento pelo grupo, o que gerou mais efeitos positivos, de pertencimento, amor compartilhado e, ao final, a alegria de uma conquista que só foi possível com empenho, dedicação e união. 

As correlações e o “efeito Dynamite” não se limitaram apenas ao fandom. O diretor da Organização Mundial da Saúde, Tedros Adhanom, agradeceu ao grupo por propagar o uso da máscara durante a pandemia, em virtude da COVID-19. Mais uma vez, sentimos a preocupação do grupo com a saúde dos fãs e dos que os cercam. Além de muito orgulho, por seguir artistas sensatos e responsáveis. 

E para quem achou que as surpresas e emoções haviam acabado no dia do lançamento do single, se enganou e se surpreendeu ainda mais com os novos acontecimentos.  Adhanom também respondeu uma interação na rede social, convidando publicamente o Bangtan para a próxima Assembleia Mundial de Saúde, além de parabenizá-los pelo recorde batido. 

Concluímos que Dynamite foi mais do que, literalmente, um estouro. Certamente, os meninos estão orgulhosos desse novo trabalho que, de fato, foi positivo e esperançoso.  Todas as vezes que foram perguntados sobre o que se tratava a nova música, era visível o desejo de alcançarem tamanha energia nas pessoas. 

Continuaremos espalhando a palavra da positividade, agora tendo ainda mais versões para arrastar o sofá da sala e dançar ao som de Dynamite.

"É sobre todas as pequenas coisas que fazem a vida valiosa e especial, é sobre energia positiva, estrelas e coisas bonitas, nós queremos dar uma mensagem de esperança para todos os ARMYs ao redor do mundo." — Kim Namjoon 

Referências 

  • HELLER, Eva. A psicologia das cores: como as cores afetam a emoção e a razão. São Paulo: Gustavo Gili, 2013.
  • LEE, Jin Ha; NGUYEN, Anh Thu. HOW MUSIC FANS SHAPE COMMERCIAL MUSIC SERVICES: A CASE STUDY OF BTS AND ARMY. 
  • NUNES, Patrícia. Psicologia positiva. Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra, Portugal, 2007.
  • PASSARELI, Paola Moura; DA SILVA, José Aparecido. Psicologia positiva e o estudo do bem-estar subjetivo. Estudos de Psicologia, v. 24, n. 4, p. 513-517, 2007.
  • SILVA, Marilia Nunes; VALADARES, Ana Carolina Duarte; ROSA, Gerlaine Teixeira; LOPES, Liliane Cristina Moreira; MARRA, Celia Auxiliadora dos Santos. Avaliação de Músicas Compostas para Indução de Relaxamento e de seus Efeitos Psicológicos. SciElo, 2016. 

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