DAECHWITA: QUANDO O PASSADO ENCONTRA O PRESENTE

Fonte: Foto Reprodução / BigHit Entertainment
Por Ana Luíza Gomes Barbosa 
Revisado por: Lale e Rafaela

Culturas Híbridas: Entre o Tradicional e o Moderno 

Néstor García Canclini (2019) fala que formas culturais se originam a partir da união entre o tradicional e o moderno, arquitetando novas identidades culturais. O que não é longe da definição da Hallyu (do coreano, Onda Coreana), que se reestruturou através do intercâmbio cultural e econômico sem perder suas raízes, uma ligação indiscutível com a Indústria Cultural surgida em meados do século XVIII com a Revolução Industrial, que passou a “vulgarizar” a arte, a tornando padronizada, a recriando para se encaixar no desejo popular e ao mesmo tempo que a tornava impossível de ser comercializada. Assim como a tecnologia precisa se modificar para suprir novas necessidades, a fórmula cultural se renova. 

Sabe-se, que em 1910 missionários norte-americanos foram para a Coreia para apresentar a cultura ocidental, levando consigo elementos como a música, na época conhecida como Folk (do inglês, folclore ou “gente”/”povo”), o gênero se agregou a nação coreana dando a ele o nome de “Changga“. De acordo com os dados da KOCIS (2011), a música passava um sentido de hino a nação. Anos depois, quando o Japão tomou a Coreia, o gênero musical mais conhecido era o Trot, que tinha elementos do Jazz e Blues e a música tradicional japonesa, surgindo bandas que faziam referência ao quarteto britânico The Beatles, como a banda Add4. 

Add4 foi uma banda sul-coreana que surgiu em meados dos anos 60, fazendo referência a banda britânica The Beatles:

Fonte: Rock and Roll Archives, 2018

O termo usado para essa ressignificação é “Hibridização”, que não nos traz uma identidade pura ou autêntica, mas procura dar a ela novas propriedades, sem que este produto se altere. Esse intercâmbio de informação ficou mais fácil e rápido quando o espaço físico foi nulificado a partir do meio virtual unindo pessoas com interesse em comum e daí, fruindo maior rede de informações e fazendo uma troca pacífica e massiva de agregação e ressignificação. Imagine-se estando em um ônibus, há nele diversas pessoas que podem ou não ter os mesmos interesses que você e nunca saberá, a não ser que esteja fisicamente explícito e ainda assim, existe a barreira da comunicação. A internet facilitou esse fluxo quando uniu centenas, milhares ou até milhões de pessoas em prol de apenas um interesse. Segundo Rheingold apud Martino (2017, p.46), “A comunicação mediada por computador dissolve as fronteiras da identidade”. 

 Estrutura que influenciou na propagação da cultura sul-coreana, quando nos anos 2000 foi instalado a rede de internet mais veloz do mundo. Segundo Dewet; Imenes e Paik (2019) a Coreia do Sul passou a investir inclusive em pesquisas Acadêmicas com propósito de expandir a Hallyu.

Com o investimento no K-pop e em empresas de entretenimento no ano de 1997, após uma crise econômica, a exportação da Hallyu e a agregação da música coreana a elementos ocidentais produziu uma nova identidade musical, embasada no bem de consumo, para reinvestir no material reformulado, popularizado e fragmentado ao sofrer essas rupturas no seu perfil, efeito de uma globalização. 

Alguns grupos de K-pop usam elementos das músicas tradicionais em suas produções musicais, tais como Super Junior (2005), que leva o Trot como base para diversas produções bem sucedidas e conhecidas pela comunidade k-popper. Essa mesclagem nada mais é do que a originalidade da música sul-coreana da segunda geração. Personalidade notável também em trabalhos de grupos como Girls Generation (2007) e 2ne1 (2009),  em que temos um pico localizado no meio da canção, o fator que reafirma essa hibridização é a contribuição de produtores musicais americanos como Teddy Riley – ganhador do Grammy ao trabalhar com Michael Jackson no álbum Dangerous

Segundo Besley (2018), autor do livro “BTS: A biografia não oficial dos ícones do K-pop”: 

Apesar da influência norte-americana, a música pop coreana tem características próprias. O conservador código moral coreano, por exemplo, está presente nas letras das músicas. Referências a sexo, drogas e álcool são banidas da rádio e da televisão. Também são bem raras letras que contenham críticas à sociedade ou que levantem questões políticas. (BESLEY, 2018, p.12)

A censura explícita do conteúdo não impediu que artistas como BTS e PSY lançassem suas críticas da sociedade, como visto em No More Dream, N.O, Baepsae, Am I Wrong e até mesmo as duas mixtapes do Yoongi. Usando o pseudônimo Agust D (uma abreviação para Suga de Daegu), lançou a primeira em agosto de 2016, intitulada “Agust D” e a segunda apenas em maio de 2020 como “D-2”, usando uma linha de marketing misterioso e que surpreendeu o ARMY. 

D-2: Amor próprio e conversas mentais 

Lançada em 22 de Maio de 2020, a mixtape solo de Min Yoongi possui 10 músicas compostas e produzidas por ele em parceria com produtores como Pdogg, conhecido por seus trabalhos com BTS e a BigHit, Epik High, grupo de K-Hip Hop muito famoso no começo dos anos 2000 o qual Yoongi é fã, além do artista norte-americano, Max Schneider. Imagens borradas em preto e branco com uma contagem regressiva e iam se revelando aos poucos, foram usadas para o marketing do comeback do Agust D, uma atividade inesperada da BigHit, que dia seguinte a publicação da imagem “D-2” às 6 h (horário de Brasília), liberou nas plataformas o MusicVideo e a mixtape, revelando que foi tudo projetado milimetricamente para deixar o ARMY confuso e surpreso. 

A primeira imagem da promoção do D-2
Fonte: BigHit Entertainment 
A última imagem da promoção
Fonte: BigHit Entertainment 

As faixas, ao todo são dez, iniciando por Moonlight, introduzindo o que seria narrado por toda a mixtape, conversas consigo mesmo, dúvidas, amadurecimentos e conflitos. Além de confrontos com a sociedade ocidental, o mercado hierárquico de entretenimento como “What Do You Think” e “Strange”, revelados por Yoongi durante live no aplicativo Vlive,ou em 28 no qual se vê em uma nova realidade, na música referente a sua idade, em “Burn it” é possível identificar o trecho da linha de Tear, música revelada durante o documentário Break The Silence, ter sido produzida durante uma época complicada do grupo. 

Em People, a narrativa mais melancólica, sua personalidade está sendo colocada a prova e seus sentimentos confusos e corriqueiros são normalizados. Honsool, oitava faixa do “D-2”, tem intenção de causar estranhamento ao ser ouvida. A palavra “Honsool”(혼술), vem do coreano “beber sozinho/solitário” (혼자 (honja) = sozinho e 술 (sool) = álcool), a música reflete em estar embriagado e precisar tomar decisões importantes, enquanto uma voz distorcida lista nomes de bebidas diferentes. Interlude: Set me free,  possui uma letra simples sobre liberdade compara ele a um pássaro que deseja sair de sua gaiola.

A última música da mixtape, é Dear my friend com a participação de Kim Jong Wan do NELL como vocal. Mais uma vez vemos referência do passado de Yoongi se encontrando ao seu presente quando rever um amigo antigo que passou por problemas.

A segunda faixa de D-2 é Daechwita, o musicvideo alcançou 100 milhões de visualizações na plataforma Youtube em 4 de julho e 2 milhões de curtidas em apenas duas horas e quarenta minutos. Em 19 de Julho a faixa conseguiu primeiro lugar no iTunes (plataforma de stream da Apple) em oitenta países. 

Daechwita: O presente no passado

Após quatro anos do lançamento de “Agust D” e “Give it to me”, o Musicvideo de Daechwita trouxe consigo uma série de representações culturais coreanas, a riqueza de referências foi congratulada pela chefe da ‘Administração do Patrimônio Cultural’, Chung Jae-suk, ao mencionar como a música composta por Yoongi chamou atenção de jovens ao redor do mundo para conhecer melhor a origem do Daechwita

O Daechwita (do coreano, 대취타), é um gênero musical tradicional coreano de marcha militar, originalmente a música é tocada quando a vinda do rei é anunciada ou durante a ida de militares para a guerra. De acordo com a produtora Kim Ju Hi (Também conhecida como Julia no Brasil) da empresa de eventos Storyvent. Durante seu vídeo no canal BBONGBRASIL SHOW  em maio de 2020, a origem do nome Daechwita significa: “Dae” (대) = Grande; “Chwi” (취) = Soprar; “Ta” (타) = Bater, “Uma grande música com instrumentos de sopro e percussão”, muito similar a bandas de  marchas. 

A base instrumental do Daechwita é o Taepyeongso (do coreano, 태평소), além dos instrumentos de percussão como o Jing (징), Nabal (나발), Yonggo (용고), o que é notável as características musicais desse gênero ao se ouvir a canção composta por Yoongi, esse recurso também foi foi utilizado pelo grupo Seo Taeji and Boys em 1993, na música intitulada Ha Yeo Ga. O Taepyeongso, segundo Ju Hi, consegue mostrar a emoção nacional coreana, soa como “triste, lamentável”, além de ser encontrado em muitos k-dramas de época. 

Daechwita é um patrimônio cultural  coreano, usado na Cerimonia Guarda no Seoul Gyeongbok Palace ‘s

Fonte: Festival Embaixada da República da Coreia 2020
Fonte: Festival Embaixada da República da Coreia 2020

Ao utilizar de recursos do Daechwita para sua música os princípios básicos da hibridização são identificados através da união com a melodia do Rap e Hip Hop, popular e moderno originado entre as comunidades afro-descendentes nos Estados Unidos e ressignificados no K-pop. Enquanto observamos que a mixtape foi produzida a partir de uma Storyline, em que o compositor tinha a intenção de contar uma narrativa cronológica, já usada em trabalhos anteriores. O trecho da letra junto ao título faz referência a chegada do rei como o próprio Yoongi e o BTS: 

“Daechwita, daechwita, aumente o som, daechwita. Brilha, brilha, a minha coroa brilha” (AGUST D. Daechwita. Seul, BigHit, 2020, 3:45)

Visualmente durante o MusicVideo, Yoongi passa pelo cenário com um grupo de seis  homens, o que automaticamente quem acompanha o grupo já associa ao BTS, e a passeata, a realeza da Era Joseon, porém suas roupas não condizem com a família real coreana, sem muitos detalhes e cores neutras. O que expressa a letra da música, que narra liricamente seu crescimento orgânico, complicado, e frustrante em meio ao difícil ramo do entretenimento hierárquico sul-coreano. 

Em contrapartida, seu outro personagem se encontra usando Hanbok com tecido e estampas douradas, que segundo Dewet, Imenes e Paik (2019), já foi usado para simbolizar a posição social, dependendo do modelo, dos tecidos  e as cores. O dourado, por exemplo, é um elemento utilizado para reconhecer a riqueza, assim como os tons fortes, pois para atingir a coloração, necessitaria maior quantidade de corante, e por fim, condições melhores. 

Durante a entrevista de promoção do D-2 no canal BANGTANTV, Yoongi revelou que a história por trás do MV basicamente retrata a coroação do Agust D, após sua primeira mixtape, e que o personagem caracterizado como tal, era um impostor, o verdadeiro dono do trono estava tramando tomá-lo de volta. Os elementos visuais usados para provar sua fala podem passar despercebidos através das distrações da composição do vídeo – como o cenário localizado em Dae Jang Geum Park , também conhecido por MBC Dramia, na província de Gyeonggi (Coreia do Sul), o set de filmagem foi construído em 2005 e aberto a público em 2011 (Veja mais informações sobre no texto publicado pelo Painel VISUAL) –, porém esses elementos são essenciais para complementar a narrativa, como o detalhe no desenho em seu Hanbok

A coloração azul marinho e preta era vestida pelo rei Gwang Hae (Personagem do filme  Masquerade de 2012), durante a dinastia Joseon, citado na canção, que ao ser envenenado contrata um sósia para proteger-se, porém começam a entrar em conflito. Todavia, o dragão desenhado em sua roupa deveria tradicionalmente ter cinco dedos e não quatro, além de sua cicatriz aparentar recentemente fechada, o oposto do verdadeiro Agust D, como visto nas imagens abaixo: 

O falso Agust D tem a pata de seu dragão com apenas quatro dedos, isso indica um príncipe, porém a cor de seu Hanbok deveria ser vermelho

Fonte: BigHit Entertainment 

A cicatriz do impostor tem traços recentes propositais, pois o verdadeiro rei em vestimentas simples, possui uma cicatriz já curada  

Fonte: BigHit Entertainment
Fonte: BigHit Entertainment

Como a crítica levada pela composição tem intenção de confrontar, principalmente as injustiças e privilégios da cultura norte-americana e ocidental,  a interpretação pode abranger uma série de acontecimentos recentes que possam ter ofendido sua música e nação. Em resposta, o trecho retirado da tradução de Daechwita pode ser analisado  diante do fato do produtor britânico Simon Cowell promover o novo reality show para boybands em um vídeo onde dizia explicitamente que o K-pop seria substituído pelo Brit-pop, pois eles já tinham conseguido repercussão demais: 

“Idiotas patéticos fazendo um show de talentos. Não vou mentir, que showzinho merda. Sem pretensões, apenas mato todos eles” (AGUST D. Daechwita. Seul, BigHit, 2020, 3:45)

Yoongi compara seu sucesso a suas viagens de trabalho, ao aumento de sua receita (renda) e a reação de alegria (dançando) do CEO da BigHit Bang Si-Hyuk, também conhecido como Bang Pdnim, ressaltando novamente a representação do BTS com seis homens atrás de si, para mostrar que aquela conquista era do grupo. A encenação de um rei autoritário e nada compassivo também se atribui a essa temática, independente de quem seja, ele conquistaria seu objetivo com determinação. Interpreta-se que o rei impostor fica louco pela ganância e começa uma matança em massa e para amedrontar, as cabeças dos mortos eram mantidas em exposição: 

O sinal que o impostor faz com a mão é típico para autorizar a morte de seu inimigo ou desertor

Fonte: BigHit Entertainment
Fonte: BigHit Entertainment

Outra explicação para essa atitude pode ser justificada pelo trecho “Nasci em uma vala, mas cresci como um dragão”, fazendo referência ao príncipe Sa-Do, que foi preso pelo próprio pai dentro de um baú de arroz para ser morto, ele havia matado muitas pessoas e possuía transtornos mentais como esquizofrenia. 

Para o falso rei, o poder se torna um jogo, quando o verdadeiro Agust D o confronta a reação parece ser de diversão, e pegá-lo é seu novo objetivo. A encenação seguinte é de Yoongi sendo levado até o rei pelo seu carrasco, que na Coreia durante a dinastia Joseon eram chamados de Mang Na Ni (망나니), que procede com todo o ritual tradicional de seu cargo, com sua dança e uso de bebida alcoólica não só para limpar a lâmina que teoricamente cortaria a cabeça de Yoongi, mas para suportar seu dever. 

O final possui uma série de dúvidas quando o verdadeiro rei é solto pelo carrasco que o entrega uma arma de fogo e dispara contra o impostor, aberta uma interpretação que a história de Agust D e seu reinado não chegaram ao fim e se espera um retorno para a continuação da narrativa, em termos artísticos,  seu próximo trabalho audiovisual.

A Influência de Min Yoongi: 

Pudemos notar a construção histórica e a influência carregada por elementos tradicionais fundidos a modernidade da música pop e o interesse de jovens ao redor do mundo pelo soft power  sul-coreano, além de agradar instituições governamentais, ao ocasionar no aumento do turismo local, como aconteceu no Dae Jang Geum Park, em que o turismo e procura cresceram consideravelmente. Uma característica da Indústria Cultural, vendo potencial na mesclagem dos gêneros e citação da história da Dinastia Joseon, como um meio de informação, lucro, manipulação de conteúdo de composição híbrida, captados pelos receptores e disseminadores da Hallyu, uma interação que frui e expande. 

As críticas abordadas por Yoongi se revelam como propósito de sua composição, apontando as dificuldades de entrar no mercado internacional e como ainda é subjugado mesmo estando em destaque. O orgulho de ser quem é, dos seus projetos e sua nação também ficam aparentes, fazendo o uso de instrumentos tradicionais coreanos, um patrimônio cultural que pode não agradar o mercado ocidental, mas que ele conseguiu distribuir com sucesso. 

O K-pop  é um gênero que vem ganhando muito espaço recente, e um desses motivos é a expansão do conteúdo audiovisual levado pelo BTS, e para entender como a Onda Coreana vem ganhando interesse por diversos públicos foi necessário separar o musicvideo e a letra de Daechwita por partes e investigar o material utilizado na sua composição.  

1 comentário em “DAECHWITA: QUANDO O PASSADO ENCONTRA O PRESENTE”

  1. Ana Vitória Melo

    Está magnífico! Eu amei o artigo, de verdade. É bastante informativo, não somente a cerca do tema principal, mas faz uma ótima introdução histórica, assim ambientando quem não sabe a fundo sobre a Onda Coreana.

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