Daechwita: uma análise audiovisual

Agust D ‘대취타’ MV
Julio Cezar Neto e Kimberly Mello 
Revisado por: Brunna Martins e Julyanna Dias

Olá, Visuais do BAA! Hoje, retornamos com uma postagem especial para a semana D-2, com a análise de construção de narrativa do M/V ‘Daechwita’, title da mixtape  D-2.

O music video de ‘Daechwita’ conta uma história, e nosso papel será apresentar elementos explícitos e implícitos utilizados para que o espectador entenda a narrativa. É importante lembrar que não podemos afirmar que o diretor quis transmitir o que iremos analisar através de tais técnicas, pois isso cabe apenas a quem esteve diretamente envolvido com todas as fases de produção. Iremos apresentá-las e ligá-las aos sentimentos e impressões percebidas pelo espectador no resultado final.

Convidamos vocês, leitores, a iniciar a experiência de analisar o M/V junto conosco. Assistam ‘Daechwita’ e tentem identificar os elementos que vamos apontar nesta análise. 

Agust D ‘대취타’ (Daechwita) M/V

Antes de iniciarmos a análise, iremos apresentar um pouco das mentes brilhantes por trás da criação do M/V, que estão localizadas na parte da descrição do Youtube: 

  • Yong Seok Choi, diretor da Lumpens, ligado a uma grande parte das produções de music videos do BTS, como: ‘IDOL’, ‘Fake Love’, ‘Singularity’, entre outros;
  • Emma Sungeun Kim, produtora da GE Production, que esteve presente em produções, como: ‘LOVE YOURSELF Highlight Reel’, ‘Euphoria’, entre outros;
  • Hyunwoo Nam, diretor de fotografia da GDW, presente em produções, como: ‘Mic Drop Remix’, ‘ON’, ‘Fake Love’, entre outros. 
  • Jinsil Park e Bona Kim, diretoras de arte da MuE, presentes em produções, como: ‘Boy With Luv’, ‘Persona’, ‘Epiphany’, entre outros; 

Estes são alguns dos profissionais responsáveis por guiar todos os processos para construir histórias e expressar sensações através de imagem e som, de forma que conversassem com a proposta da mixtape D-2. 

O M/V possui um protagonista e um antagonista interpretados pela mesma pessoa, porém, hoje como nossa missão é analisar a narrativa e a forma de criá-la, iremos nos referir ao Yoongi loiro apenas como Rei, enquanto o Yoongi de cabelos negros como Agust D. O texto se inicia abordando as cenas em que o Rei aparece, em seguida o Agust D e finalizando em tópicos que abordam sobre os dois personagens. 

O REI

Antes de mais nada, precisamos dizer que esta análise [JCZИ] será voltada para os movimentos de câmera do M/V, onde vamos abordá-los um pouco mais aprofundadamente, indo para além da mecânica dos próprios, buscando interpretar o que o movimento pode produzir em nós, espectadores, e também buscando compreender a sua relação com a narrativa do music video.

Podemos iniciar pelo fato de que em muitos dos planos em que o Rei aparece, são utilizados planos mais abertos, onde ele divide a composição do quadro com o grande cenário de suas construções ao fundo, estando escudado por seus grandes monumentos, manifestando a ideia de poder ao maximizar os seus pertences.

GIF 1 – Rei caminha em sua sala do trono em direção a saída do palácio, apresentando o escrito em coreano “Daechwita”.

No GIF 2, podemos perceber a utilização de muitos travellings in, out, lateral, up, down e também a utilização do movimento denominado trajetória, que percorre de um lado ao outro do cenário, respondendo à intensidade dos movimentos primários da cena e também possibilitando deixar ainda mais evidente para o espectador, em diversos ângulos, todo o seu poder.

GIF 2 – Rei  caminha por todo pátio do palácio com seus súditos prostrados em filas

Ainda nesta cena, percebemos que o sol está ao fundo do Rei, onde em certos momentos o ilumina diretamente, ganhando ainda mais destaque em quadro, enaltecendo a alta posição que ocupa na sociedade.

 

GIF 3 – Rei  no pátio do palácio, sendo iluminado pelo sol.

Também podemos reparar que na grande maioria dos planos em que o Rei não está sozinho, ele se mantém acima dos demais personagens, sendo essa também uma forma de mostrar a sua imponência. 

GIF 4 – Rei está em seu palácio acima de todos que estão no pátio.

A utilização do ângulo contra-plongée em muitos planos onde o Rei aparece, produz no espectador a sensação de impotência, pois este ângulo é produzido com a câmera inclinada de baixo para cima. A palavra Plongée, do francês, significa “mergulho”, e este ângulo resulta na inclinação da câmera de cima para baixo. O contra-plongée possui este nome pois é utilizado da forma oposta.

GIF 5 – Rei está agachado em frente a dois de seus súditos prostrados.

Reparem as proporções dentro do quadro: o Rei se torna ainda maior, estando na mesma altura do telhado e da montanha atrás dele, sugerindo sua superioridade através das entrelinhas da imagem com o uso do plano contra-plongée. A forma como ele olha para os seus súditos ajoelhados, a quantidade de figurantes e a disposição dos prédios ao redor são outros fatores que auxiliam nesta percepção.

Percebem como a construção da narrativa audiovisual depende de tantos fatores para que possa existir? Ela é uma tarefa colaborativa que depende de várias visões e especializações para que a mensagem possa ser transmitida de forma clara e convincente. 

AGUST D

Apesar de não termos neste M/V uma performance sincronizada em grupo como estamos acostumados a experienciar nas coreografias do K-Pop, é possível perceber a câmera em constante deslocamento,  sendo que em certos momentos, não conseguimos ter uma precisão visual de qual movimento está sendo produzido. Um exemplo, é na performance em grupo durante o refrão, na qual a câmera se move em várias direções, provocando uma sensação de desordem no espectador, dificultando assim a observação e descrição de cada movimento ali executado. Mesmo que em sua maioria, os movimentos de câmera durante a performance sejam irregulares, é possível sim perceber uma conexão entre os dois, porém de uma forma diferente da qual estamos habituados a experienciar nos m/v’s de K-Pop.

GIF 6 – Agust D está no centro com um grupo de amigos ao redor, se movimentando no ritmo da música.

O que pode justificar a desordem dos movimentos de câmera neste trecho do m/v são os movimentos primários de cena, (visto que o grupo ali em cena não apresenta uma performance com movimentos sincronizados, sendo assim, os movimentos secundários de cena (que abrangem os deslocamentos físicos e ópticos de câmera), reagem à ação e intensidade dos movimentos primários de cena. Para uma melhor observação é sugerido fixar os olhos nas extremidades do vídeo, pois é possível visualizar mais claramente as direções que a câmera percorre.

GIF 7 – Agust D está no centro, com um grupo de amigos ao redor, se movimentando no ritmo da música.

Como foi falado no texto onde apresentamos os resultados e todo o processo desenvolvido para analisar o M/V de  Boy With Luv frame by frame, deduzimos que a reação da câmera potencializa a ação do grupo, provocando sensações que quebram a nossa posição de observadores, nos levando a experienciar mais profundamente a energia da cena e também da música.

Ainda durante o refrão, podemos perceber essa ação e reação, mais precisamente quando o grupo, em um raro momento, executa de forma sincronizada um movimento direcionado para cima e a câmera  o corresponde a partir de uma pan vertical. O plano seguinte inicia com esse mesmo movimento, desta vez de cima para baixo, suavizando o corte entre os dois planos.  

GIF 8 – Agust D está no centro com um grupo de amigos se movimentando no ritmo da música, seguido da transição do grupo jogando a mão para o alto.Quando a câmera desce mostra a cena de Agust D caminhando pelo corredor da aldeia

Uma cena que chama bastante atenção é quando Agust D está cercado de tochas acesas e a câmera executa um movimento circular ao seu redor.. Interpretando um pouco mais a fundo este movimento, é possível perceber que o travelling que percorre em volta do personagem demonstra que o perigo está em todo o lugar e independente da direção que apontarmos, estaremos sob domínio de uma força maior que nos circunda em todos os sentidos. 

GIF 9 – Agust D está amarrado com várias tochas em volta e com a câmera circulando-o.

AMBOS

GIF 10 – Agust D está no centro com um grupo de amigos ao redor, se movimentando no ritmo da música, e logo após está no corredor da aldeia trocando olhares com dois açougueiros.

Nos primeiros minutos do M/V, você teve a impressão de que estava assistindo um filme? O music video analisado utiliza de duas maneiras para ilustrar a música: a narrativa audiovisual e a dos clipes musicais, transitando entre elas de forma que, mesmo contando uma história, ela não deixe de ter características de M/Vs.

GIF 11 –  Rei caminha em sua sala do trono em direção a saída do palácio.

GIF 12 – Agust D entrando na aldeia.
GIF 13 – Agust D invadindo o pátio do Rei com um carro preto com detalhes laranja.

Os GIFs possuem traços de produções cinematográficas, por terem um ritmo e movimentos mais lentos, cortes subsequentes e que ambientalizam o espectador com as primeiras informações desenvolvendo uma narrativa audiovisual, como é possível observar no GIF 11: com o Rei se levantando e seguindo para a parte de fora de seu palácio; e no GIF 12: quando Agust D entra na cidade de forma enfática, dando a entender que o personagem chegou com uma missão em mãos. Por fim, no GIF 13: a câmera lenta é utilizada para marcar o impacto do encontro entre o Rei e Agust D, normalmente utilizada na narrativa audiovisual para intensificar um significado. 

Vídeo – 14 – Agust D fazendo rap em frente ao carro.mp4 

GIF 14 – Agust D junto com um grupo de pessoas, fazendo Rap em frente ao carro preto com detalhes laranja.
GIF 15 –  Rei caminha e pula por todo pátio do palácio com seus súditos prostrados em filas.

As cenas seguintes apresentam algumas características visíveis normalmente em music videos, como: sincronismo com o ritmo da música, olhares do elenco diretamente para a câmera, trechos cantados e performados pelo Agust D e o Rei, como é possível acompanhar no GIF 14 e 15. Nesse momento, as sensações do espectador são a prioridade das câmeras, e não tanto a história por trás. Contudo, no decorrer do M/V, ambas as formas de audiovisual se misturam entregando uma característica única a ‘Daechwita’.

As relações do protagonista e antagonista com a câmera são muito divergentes, uma das justificativas é para diferenciá-los. Ambos sabem da existência do espectador e revelam isso nos momentos em que eles olham diretamente para a câmera. No audiovisual, essa técnica é conhecida como a quebra da quarta parede

Suponhamos que a imagem da tela seja uma sala com 4 paredes, onde acontece a cena. O universo do personagem pode ser expandido para a esquerda, direita e para o horizonte, porém, não consegue ultrapassar a tela onde se encontra o espectador. Quando o personagem interage com o mesmo, a quarta parede se quebra, pois o espectador deixa de ser apenas um observador e passa a fazer parte da cena. 

GIF 16 –  Rei olha diretamente para a tela.
GIF 17 –  Agust D olha diretamente para a tela.

Ao olhar para a câmera, no GIF 16, o Rei possui uma postura intimidadora com uma expressão autoritária, exibindo sua superioridade. Por sua vez, Agust D, no GIF 17, possui uma postura mais relaxada, demonstrando discurso e revolta, uma postura menos agressiva que a do Rei, que utiliza a câmera apenas para mostrar suas grandezas e poder. Essa foi a forma encontrada para diferenciar suas personalidades e funções dentro da narrativa do M/V. 

Outro recurso aplicado para diferenciar o protagonista e antagonista foi a montagem alternada e a paralela, que são construídas na fase da pós-produção.

GIF 18 –  trecho do music video de ‘Daechwita’ onde aparece alternadamente as imagens do Rei no pátio do palácio e de Agust D pegando uma chave.

A montagem alternada é a função narrativa de apresenta o que acontece em duas ou mais sequências que ocorrem simultaneamente na história, onde as cenas são intercaladas. Podemos ver isso no GIF 18, com as cenas do Rei exercendo sua superioridade em seu castelo e de Agust D pegando uma chave com um símbolo verde e saindo da sala. Tal construção possibilitou que o espectador entendesse, de forma subconsciente, que o objetivo de Agust D era se encontrar com o Rei. 

GIF 19 –  trecho do M/V de ‘Daechwita’, onde aparece alternadamente as imagens do Rei performando com uma espada e Agust D amarrado no pátio do palácio.

A montagem paralela acontece quando cenas de duas ou mais sequências são intercaladas entre si, com o intuito simbólico de construção de significado, comparação e contraste. No GIF 19, as cenas do Rei performando com a espada na sala do trono, intercaladas com as cenas da execução de Agust D, tem a intenção de causar uma interpretação de que Agust D está morrendo pelas ordens e “mãos” do antagonista. Isso é reforçado na última transição que acontece com o Rei iniciando o golpe e o ceifeiro finalizando. 

A última observação desta análise será sobre construção de arco dramático: 

GIF 20 –  Agust D caminha pelo corredor da aldeia e troca olhares com açougueiro 1.
GIF 21 –  Agust D caminha pelo corredor da aldeia e troca olhares com açougueiro 2.
GIF 22 –  cena de uma vaca, uma faca cortando carne, o rosto de Agust D e duas galinhas.

Nas cenas iniciais, Agust D troca olhares com os açougueiros em dois momentos. Quando ele entra na cidade, de forma cinematográfica, e quando caminha pelo corredor, com uma sequência mais rítmica, como pode ser observado nos GIFs 20 e 21. Normalmente, em histórias mais complexas, “dicas” são dadas através de objetos de cena ou ações dos personagens para avisar que algo irá acontecer ou relacionar a um acontecimento. No GIF 22, as cenas da vaca, a galinha e a faca cortando carne são todas relacionadas à profissão do açougueiro, sugerindo ao espectador um outro foco de atenção além do protagonista e antagonista. Antes do encontro de Agust D com o Rei, os açougueiros são apresentados no papel de executores.

GIF 23 – Rei está na varanda de um lugar alto  No chão, estão dois homens segurando uma espada e uma caixa e pessoas amarradas, encapuzadas e enfileiradas lado a lado.

Imagem 1 – Rei segurando uma katana.

(Imagem 2 – Pátio do palácio com vários súditos enfileirados, o Rei na parte de cima das escadarias do palácio, um homem com espada e Agust D caído no chão).

Contudo, durante a execução de Agust D, duas cenas opostas são apresentadas prevendo que algo não sairia como o planejado. Na imagem 1, o Rei fez seu último golpe da direita para a esquerda, enquanto na imagem 2, que aparece em seguida, o executor finalizou o golpe da esquerda para a direita. Para alguns, esta cena pode ser imperceptível no momento em que estão envolvidos com a trama, porém tal falta de linearidade causa desconforto involuntário no espectador, sinalizando a vinda de uma mudança repentina apresentada no GIF 24. 

GIF 24 – Agust D segurando uma arma na direção do Rei.

O arco dramático começa a ser pensado desde o primeiro passo da produção que é a construção do roteiro. Nele, é onde a história é especificada, como: os ganchos — que são  as cenas iniciais com Agust D e os açougueiros —, as reviravoltas — como a libertação de Agust D por seus aliados, que estavam infiltrados ao lado do Rei — e a morte do Rei pela arma de Agust D. 

Esses tipos de construções de narrativas existem como uma forma de envolver o espectador e tornar a experiência de acompanhar a história uma caixinha de surpresas e revelações. Mas para que tal história pudesse ser desenvolvida, foram necessárias pesquisas para embasá-la, dado ao seu teor histórico. Você pode acompanhar uma análise mais aprofundada da história no painel OLHAR, o próximo texto após o do VISUAL.

O M/V de ‘Daechwita’ ainda pode ser muito explorado através da direção de arte (figurino, cenário, objetos de cena e cores), atuação e construção de roteiro, porém seria possível escrever um livro com a dimensão de tal análise. 

Compartilhem conosco suas dúvidas e sugestões de análises através dos comentários ou marcando o BAA nas redes sociais! Esperamos que tenham conseguido expandir suas visões sobre o mundo audiovisual! Até a próxima!

REFERÊNCIAS 

1 comentário em “Daechwita: uma análise audiovisual”

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