Crescendo Sob Flashes – Uma Análise de ‘28’

“28- I guess I am slowly becoming an adult” – Arte:  @Hiiyuki

Gardênia Pereira, Alicia Mesquita e Blue
Revisado por: Lale e Rafaela Silva 

NOTA: É importante ressaltar que essa análise é apenas uma interpretação, embasada em teorias psicológicas associadas ao contexto da música. Não significa que seja uma verdade absoluta, assim como não significa propriamente o que o artista desejou passar através da letra da mesma. 

Ao crescermos, a sociedade exige de nós ações e decisões que, muitas vezes, não nos sentimos preparados. Mudanças na sociedade contemporânea definem como vai ser a passagem para a idade adulta, ao assumirmos papéis que são considerados “de adulto”. Segundo Skinner (2003), as maneiras como passamos por esse momento são particularmente nossas, porém, tais formas podem afetar mais de uma pessoa. 

Suga usa de sua influência para falar sobre como ele se sente estando neste momento de sua vida. Em sua primeira mixtape intitulada juntamente ao pseudônimo “Agust D”, Suga expressa em sua música a realidade pela qual passou quando deixou a cidade natal para ir atrás de seu sonho, como uma maneira de contar o quanto lutou por ele e enfrentou a depressão, a fobia social e o transtorno obsessivo-compulsivo.

Atualmente, em sua  nova mixtapeD-2”, novamente sob o pseudônimo Agust D, Suga reflete em suas letras sobre a sua percepção do mundo em seu momento atual, já  com uma carreira mais consolidada, depois de todas as dificuldades contadas anteriormente em Agust D

Dessa vez, entretanto, ele procura retratar mais sobre a pressão que gira em torno da indústria musical em si, além de seus pensamentos íntimos como o jovem bem sucedido que se tornou, encarando a fase adulta. D-2, como um todo tem composições bem íntimas, que permitem nos identificarmos com as letras.

Muitos fãs estão na vida adulta e passam pela mesma etapa de ser um jovem adulto, com questionamentos. Alguns, inclusive, já passaram dessa etapa e quem não está, com toda certeza, vai passar por ela, o que gera muitas preocupações quanto a esta fase.

Assim, surgem desafios sobre como passar por essa transição, no qual são esperadas novas atitudes, posicionamentos e expectativas diferentes das que tínhamos na adolescência (Andrade, 2010). Precisamos nos tornar profissionais com boa formação, casar, ter filhos e muitas outras regras determinadas pela cultura, economia etc.

Devido a essas regras, vindas da família, da escola, do ambiente de trabalho, que  sempre nos diz para onde ir, o que fazer ou quando fazer,  a visão que temos de nós mesmos acaba distorcida. 

Escola, família e economia são o que Skinner (2003) chamou de agências controladoras. Estas são responsáveis por organizar grupos, explicitar regras e manter comportamentos desejados por quem faz parte das agências. No entanto, também acaba nos levando a desejar coisas que na realidade são sonhos/desejos impostos pelo nosso contexto familiar/história de vida, nossa cultura e sociedade. 

Um exemplo disto, é estudar sem que o objetivo não seja de fato aprender sobre determinada área e sim estudar para que siga um caminho traçado pela família, já que aquela determinada profissão é para manter uma suposta tradição familiar/social. Para enfim, apenas trazer um retorno financeiro e não uma satisfação por algo que o indivíduo realmente goste. 

Segundo Papalia et al (2006) as pessoas costumam entender seu próprio ritmo de desenvolvimento e caracterizam a si mesmas como “adiantadas“, “atrasadas” ou “em época” para se casar, ter filhos, fixar carreira ou se aposentar. Medem a si mesmas por um relógio social, as normas ou as expectativas de sua sociedade para o momento apropriado que os eventos devem ocorrer em sua vida.

Somam-se muitas obrigações, que nos são cobradas, e se não as cumprirmos, somos duramente punidos por julgamentos e exclusões. Vamos, assim, seguindo um fluxo, que, de certa forma, é imposto. Pensamos que somos independentes aos 20, seguimos para  nos formarmos ou casarmos aos 30  porque é o que “todos fazem”, surge então o questionamento: quando nos tornamos livres realmente?

É possível, então, nadar contra a maré e sair desse lugar que nos é imposto? Acreditamos que, quando percebemos determinadas imposições e as questionamos com senso crítico, já é um ótimo começo. 

O autoconhecimento é uma das melhores ferramentas para não cairmos em armadilhas da vida adulta. Quando estamos cientes do que é melhor para nossa vida, e o que de fato queremos para ela, nos valorizamos e nos tratamos como prioridade, ao invés daquilo que os outros querem pra nós; a mudança já está acontecendo e é poderosa. Como dizem nossos meninos: Speak Yourself! É possível ter uma liberdade de exploração e escolha (Arnett, 2001). 

Hoje nosso foco é na quinta faixa da mixtape, a música “28”, em que  Suga nos mostra que, apesar de todo o sucesso e a ascensão na carreira, ele ainda é uma pessoa como qualquer outra, que possui muitas dúvidas sobre o futuro e recaídas sobre o momento em que vive, até mesmo questionamentos sobre quem ele realmente é. 

Em sua entrevista para a Billboard, logo após o lançamento de D-2, Suga revelou que faz anotações a qualquer momento, sobre acontecimentos ou pensamentos próprios, sendo um hábito dele; quando relê essas anotações, muitas delas acabam virando letras de música.

Imagens de Yoongi desde sua infância até os dias atuais

Em “28”, nós podemos ouvi-lo nos apresentar um de seus momentos pensativos e íntimos, no qual ele se questiona sobre o futuro, assim como reflete sobre seu amadurecimento e o tempo que passa, além das recaídas sobre os próprios sonhos. São pensamentos de uma pessoa que percebe que está envelhecendo e, consequentemente, amadurecendo seus pensamentos e concepções sobre o mundo.

Não é muito difícil, muitos de nós nos identificarmos com o que é apresentado por Yoongi na letra, ainda mais se acompanharmos tudo que já nos foi apresentado desde a primeira mixtape. Vale destacar que  muitos passaram por questões semelhantes às que ele viveu, como depressão e ansiedade, formando ainda mais  o vínculo entre fã e idol, através da identificação de trajetórias semelhantes de vida. 

Na letra diz que quanto mais ele envelhece, conforme os anos passam, mais ele descobre sobre o mundo. Ele então, parece se questionar se teria sido melhor se tivesse permanecido ignorante sobre alguns aspectos do mundo. 

As mudanças são normativas, ou seja,  podem ser comuns à maioria dos indivíduos; e elas surgem em períodos regulares, muitas vezes, marcadas por “crises emocionais” que preparam o caminho para um maior desenvolvimento. Crises que podem ser entendidas como questionamentos, dúvidas se estamos no caminho certo, etc.

“Eu envelheço
E aprendo sobre o mundo
Olhando para uma visão noturna completamente diferente
De dentro deste quarto com as luzes apagadas
As palavras que saem abafadas
Acho que estou lentamente me tornando um adulto”

Nesse trecho, é como se ele estivesse em seu quarto, no escuro, e observasse o céu noturno através de sua janela, ao mesmo tempo que a letra da música pode representar os pensamentos incessantes que ele tem enquanto permanece ali. É como se o sentimento de vazio e preocupação com o futuro o tornasse mais adulto. Podemos então pensar que nessa parte, pensamentos tomados por preocupação pode exemplificar a fase citada acima: questionamentos da vida adulta. 

“Não me lembro
O que eu queria?
Agora eu estou assustado
Para onde foram os fragmentos do meu sonho?”

Com o decorrer do tempo, depois de passar por tanta coisa e chegar onde está agora, como consequência de tantos acontecimentos, nem sempre bons, ele talvez se questionasse sobre o que está movendo seu sonho, ou não soubesse mais qual era seu sonho quando era mais jovem logo que iniciou sua jornada.

Podemos então pensar que as pessoas mudam com o tipo de trabalho que exercem?

Na nossa sociedade o trabalho desempenha um papel importante nas nossas vidas, e quase sempre, é essa tarefa que nos possibilita vivenciar muitas experiências, incluindo exercitar nossa capacidade de lidar com problemas, aprendendo com nossos próprios questionamentos.

Jovens adultos tendem a se sentir menos satisfeitos com o trabalho do que pessoas mais velhas. (Papalia et al, 2006)

“Eu respiro, mas
Parece que meu coração está quebrado”

Nessa parte, podemos identificar o sentimento de ansiedade? De não saber como prosseguir com seu futuro, não saber o que esperar dele?

Chegar à fase adulta pode ser um tempo de incerteza e ansiedade, mas também de amplo desenvolvimento em que somos capazes de criar diferentes opções de vida (Andrade, 2010). Nossa maturidade psíquica nos permite mensurar  e calcular probabilidades, podendo assim criarmos um leque de alternativas. Entretanto, levando em conta que somos indivíduos singulares, algumas pessoas podem se sentir ansiosas ou estressadas com tantas escolhas, gerando assim transtornos de ansiedade nessa fase.

“Pensei que iria mudar depois de completar vinte anos
Pensei que iria mudar depois de me formar
Merda, se continuar assim, depois de completar trinta anos
Sim, então o que mudou pra mim?
Às vezes, as lágrimas caem sem motivo
A vida que eu esperava, a vida que eu queria, apenas aquela vida
Não importa mais o que era”

Papalia et al (2006), diz que diferenças de personalidade influenciam o modo como as pessoas respondem aos acontecimentos da vida e podem até influenciar o indivíduo, a partir do momento que eles ocorrem. Por exemplo, uma pessoa resiliente tende a experimentar uma transição mais fácil para a idade adulta e para as tarefas que estão por vir do que uma pessoa supercontrolada, que pode ficar paralisada de ansiedade e pode tomar decisões pautada nisso, como adiar o casamento ou decisões profissionais importantes.

Muitas vezes, pessoas com personalidade introvertida entram em conflito psicologicamente quando precisam agir de forma contrária, o mesmo acontece com pessoas com personalidade extrovertida.

Dito isso, talvez seja  possível interpretar que “28” possa ter sido escrita em um momento em que Yoongi tenha se sentido em uma dessas fases, se questionando e refletindo sobre a fase da vida atual ou os momentos passados.

Segundo a teoria do Jung (1875-1961), a libido (termo muito usado na Psicanálise e que ele  atribui como um termo para se referir à energia psíquica) pode realizar movimentos de progressão e regressão. 

Vamos aos conceitos: Progressão, nada mais é que a utilização da libido com o objetivo de adaptação à vida e ao mundo, ela flui do inconsciente para o consciente, atendendo as necessidades do indivíduo em se adaptar ao mundo externo.

Já a regressão, que é quando a libido realiza o caminho inverso, voltando para o inconsciente e ativando o que chamamos de complexos (se trata de um aglomerado de imagens e ideias presas no nosso inconsciente, que surgem a partir de nossas experiências individuais).

Um exemplo de como isso pode se tornar uma patologia, como a depressão/ansiedade é: quando presenciamos algum acontecimento muito marcante, geralmente de conotação negativa, a energia psíquica (sua libido), que seguia em movimento de progressão, pode acabar sendo invertida com a intensidade daquele acontecimento, começando a realizar a regressão para o inconsciente e ativando os complexos, causando uma perturbação em seu inconsciente. 

O equilíbrio que existia ali antes acaba se fragmentando. Podemos então concluir, que a partir do momento que esse equilíbrio for afetado, nossos pensamentos e comportamentos também serão.

Essa perturbação é a principal responsável por aqueles dias em que acordamos desanimados e com pensamentos depressivos. Principalmente porque a regressão ativa nosso mundo interior, nos fazendo confrontarmos os complexos, nossa história pessoal, nossas fraquezas, nossos defeitos e vários aspectos de nós mesmos que são dolorosos de se deparar e na maioria das vezes: difíceis de aceitar.

Contudo, ao mesmo tempo em que pode acabar provocando algo negativo, a regressão também pode oferecer-nos a oportunidade de amadurecermos internamente. Isso acontece porque descobrimos novas formas de adaptação, solucionar problemas, lidar com certas situações etc.

Assim, quando a libido retorna ao caminho de progressão, estaremos em uma nova fase de adaptação ao mundo exterior, porque estaremos internamente mais maduros do que antes. Esse caminho, apesar de parecer simples, pode muitas vezes ser tortuoso e difícil. Também não significa que todo jovem adulto passará por determinados transtornos nessa fase da vida, como citamos, somos indivíduos singulares, e cada um lida com um conflito à sua maneira. Mas fiquem atentos, caso seus questionamentos te causem muita angústia ou caso percebam que não conseguem lidar sozinhos, não exitem em procurar ajuda profissional.

O que podemos fazer para não nos deixarmos controlar pelos “sistemas” que roubam nossas identidades e vontades próprias? Como transformar a angústia de entrar na vida adulta sem receio pela independência e liberdade?

“Tire as suas mãos do que você não pode controlar. E coloque elas no que você pode mudar”
Min Yoongi –  Dear Class 2020 

Acreditamos que a arte, como músicas e filmes, podem nos fazer perceber essas prisões sociais a que estamos sujeitos e que podem nos controlar. 

A coragem do  Yoongi em expor esses questionamentos já é suficiente para começar a mudar o mundo, ou pelo menos boa parte dele, já que o ARMY, pode se identificar com as experiências que ele, assim como o restante do grupo, nos transmite através de suas músicas.

Em todas as fases da vida, encontraremos dificuldades e obstáculos, isso é viver.  Sempre haverão desafios, crises, imprevistos. A alternativa é saber se adaptar às novas circunstâncias que a vida nos oferece. Levemos como lema de vida: Adaptar e Resistir! Fighting ARMY! 

É preciso ter coragem e estar disposto à vulnerabilidade, porque uma voz logo se tornam cem, que se tornam milhares e por aí vai. 

Pequenas (e não menos importantes) coisas como uma letra de música podem nos inspirar a ressignificar as  regras que somos impostos e nos permitir fazer novas e – nossas – escolhas!

REFERÊNCIAS:

  • Andrade, C. Transição para a idade adulta: Das condições sociais às implicações psicológicas. Aná. Psicológica, v. 28, n.2. Lisboa, 2010.
  • Arnett, J. Conceptions of the transition to adulthood: Perspectives from adolescence through midlife. Journal of Adult Development, v. 8, 2001.
  • Herman, T. BTS’ Suga Addresses Depression & Cost of Fame on ‘Agust D’ Mixtape. Billboard, 2016. Disponível em: <https://www.billboard.com/articles/columns/k-town/7476080/bts-suga-agust-d-mixtape>. Acesso em 22 jul 2020.
  • Herman, T. BTS’s Suga Reflects on Triumphant Return of Agust D on ‘D-2’ Mixtape. Billboard, 2020. Disponível em: <https://www.billboard.com/articles/columns/k-town/9389021/bts-suga-talks-agust-d-mixtape-d-2>. Aceddo em 22 jul 2020.
  • Papalia, D. E., Olds, S. W., & Feldman, R. D. (2006). Desenvolvimento Humano. Porto Alegre: Artmed.
  • Skinner, B. F. Ciência e Comportamento Humano. São Paulo: Martins Fontes, 2003.Stein, M. Jung O Mapa da Alma: Uma Introdução. 5ª edição. Editora Pensamento-Cultrix Ltda., 2000.

1 comentário em “Crescendo Sob Flashes – Uma Análise de ‘28’”

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