Behind The Science. Parte 2: O que leva acadêmicos a desenvolverem pesquisas científicas sobre o BTS e a importância desses estudos

Créditos: Divulgacão Big Hit Entertainment

Por ESD

O trabalho artístico-musical desenvolvido pelo BTS se conecta aos anseios do público moderno: através das mensagens contidas nas músicas, o grupo conversa com sua audiência, que sente como se eles, de forma  única, pudessem materializar seus pensamentos e sentimentos, até mesmo aqueles difíceis de serem explicados. 

Como consequência, de modo natural, a ligação estabelecida entre o BTS e seus ARMY’s se estende aos diversos ambientes e contextos sociais que eles ocupam. Por ser um desses ambientes, a academia também não fica de fora. Cada vez mais os fãs vêm unindo seus interesses acadêmicos ao BTS, ressignificando o trabalho do grupo e criando novas formas de atrelar suas próprias vivências à mensagem transmitida por eles.  

No Brasil, país distante da Coréia do Sul do ponto de vista geográfico, linguístico, social e cultural, o caso de universitários que produzem trabalhos acadêmicos sobre a Hallyu (Onda Coreana) e o BTS serve para evidenciar o quanto o soft power sul-coreano se expandiu e vem obtendo importantes conquistas para o país do leste asiático.

Estudando os movimentos físicos e ópticos das câmeras nos MV’s de K-Pop, o produtor Julio Cezar Neto, de 23 anos, diz ter ficado impressionado com a qualidade técnica das produções audiovisuais. Para se especializar mais no assunto, Julio resolveu produzir seu trabalho final de graduação (TFG) destrinchando “Os Movimentos de Cena nos Videoclipes de K-Pop”. 

“Busquei entender a partir de uma análise frame a frame e plano a plano de quatro mv’s quais eram os movimentos de câmera mais utilizados e quantas vezes eles se repetiam. Também busquei entender de que forma as coreografias perfeitamente sincronizadas dos grupos se relacionavam com os movimentos de câmera e da pós-produção (edição)”, explica.

Julio, que se formou em Publicidade e Propaganda no final de 2019, também analisou o MV de Boy With Luv, do BTS em parceria com a cantora norte-americana Halsey,  em sua pesquisa. Segundo ele, a escolha do videoclipe foi feita devido ao estrondoso número de visualizações no Youtube, somado aos recordes quebrados pelo grupo. 

“Em seu lançamento, o MV de Boy With Luv obteve 74,6 milhões de visualizações nas primeiras 24 horas de exibição. Esse feito deu ao grupo três recordes no Guinness Book, incluindo o recorde de vídeo mais assistido em 24 horas no YouTube. Estes números não impactaram somente a mim, mas também todos com quem eu conversei na época, inclusive minha banca avaliadora”, justifica.

Durante o desenvolvimento da pesquisa, Julio diz ter achado poucos trabalhos sobre os MV’s de K-Pop. Dos que encontrou, nenhum deles falava acerca dos movimentos de cena. A dificuldade, porém, foi encarada por ele como uma motivação para estudar ainda mais o tema e contribuir de modo relevante para o meio audiovisual. O produtor, que imergiu de vez na Hallyu, passou a utilizar em suas próprias criações muitas das técnicas que encontrou em seu estudo.

Hoje, Julio enxerga seu trabalho e o dos demais universitários que desenvolvem pesquisas acadêmicas sobre a Hallyu e o BTS como pioneiros nesse tipo de estudo no Brasil. “Acredito que desempenhamos um papel fundamental, abrindo os caminhos de pesquisa para o trabalho de futuros acadêmicos e motivando cada vez mais pessoas de todas as áreas do conhecimento a desenvolverem pesquisas desse tipo”, conclui.

Universitário exibe seu TFG
Julio Cezar Neto, de 23 anos, posa para foto com seu TFG.
Claquete com o nome do TFG
Universitário estudou os movimentos de cena nos vídeo clipes de K-Pop.
Julio com os orientadores no dia da banca
Julio, de camisa vermelha, posa com a banca examinadora do TFG na Universidade Franciscana. Da esquerda para direita: Dr. Fernando Codevilla, Dra. Michele Kapp Trevisan, Me. Carlos Alberto Badke. 

São muitos os estudantes das áreas de humanidades que vem empregando o septeto como referência para compor suas pesquisas acadêmicas. A universitária Gabrielly Guimel, de 23 anos, atualmente cursa o último ano de Jornalismo e resolveu elaborar sua tese de conclusão utilizando o BTS como conceito para criação de uma revista adolescente. 

“O BTS é um grupo sul-coreano que possui um enredo por trás dos shows e uma narrativa construída através das músicas. É um grupo rico em produção musical, estética de MV’s, cenografias exuberantes, figurinos bem trabalhados englobados em um produto final repleto de conceitos e teorias. Encontrar um grupo tão cheio de referências que consiga transmitir uma mensagem clara em uma linguagem universal é algo a se notar”, diz, explicando o motivo que a fez escolher o grupo como tema do seu TCC. 

A universitária levou um ano estudando a obra de teóricos como Hermann Hesse, e Carl Jung, os artigos de pesquisadoras brasileiras como Ana Akemi Ikeda, Daniela Abrantes Ferreira e Patricia Nogueira Gaia a fim de embasar sua pesquisa, além de entrevistar diversas pessoas para uma grande reportagem sobre racismo e xenofobia na indústria musical estadunidense. De acordo com as informações levantadas por ela para a revista, muitas vezes, enquadrar os artistas em subcategorias nas premiações fonográficas pode ser uma forma de mascarar o preconceito social e o racismo. 

O BTS rompeu as barreiras do K-Pop há muito tempo. Eles são músicos internacionais que cantam em coreano. Isso não deve ser subcategorizado, marginalizado ou rotulado. Por isso, decidi criar uma revista com pautas relevantes, buscando falar sobre o grupo de uma maneira que consiga atingir todos os jovens, independente de idade, gênero, raça ou classe social. Além de trazer uma estética fora da pegada “infantil” que vemos nas revistas convencionais dedicadas ao público feminino”, afirma, concluindo que espera trazer uma mensagem desconstruída sobre o que é BTS e o que ele representa. 

A qualidade visual das produções do BTS também é elencada pela artista e arquiteta Juliana Follador, de 22 anos, como a principal razão de ter escolhido basear seu TCC na discografia do grupo. A ideia de criar Arte, Arquitetura e Cenografia – Proposta Cenográfica de MAP OF THE SOUL: PERSONA nasceu durante o penúltimo ano do curso de arquitetura, enquanto Juliana trabalhava desenvolvendo cenários para publicações da Turma da Mônica Jovem. 

“Fiquei extasiada com a qualidade visual que me foi apresentada pelo BTS. Comecei a pensar no quanto o trabalho deles é amplo e incrível, como ainda há muito a ser explorado por nós academicamente falando. Eles concentram uma quantidade massiva de informações, o que pode agregar muito valor às pesquisas, por isso se tornaram um fenômeno que deve ser estudado e explorado”, aponta.

Contudo, apesar do desejo de estudar mais a fundo quais as técnicas envolvidas nas produções dos MV’s, nos cenários e palcos das turnês mundiais, Juliana diz ter sido mais impactada devido a mensagem transmitida pelo BTS. A artista, que na época enfrentava um quadro de depressão, conta ter sido influenciada pela forma como o grupo produz arte e que, através deles, percebeu a existência de outras formas de criação, diferentes das que estava acostumada até então.  

“Sinto que nos habituamos a viver num mundo onde as relações sociais não tem sido mais priorizadas da forma como deveriam. Conheci o BTS na época da era LOVE YOURSELF e tive uma grande sensação de esperança ao ver como um grupo de tamanha influência é engajado em projetos sociais. Através desses projetos, me identifiquei com eles e com a abordagem artística utilizada por eles para tratar de assuntos sérios. Tudo isso gerou um forte impacto em mim”, afirma. 

Como parte do estudo de campo realizado para coletar informações, Juliana chegou a visitar o Allianz Parque durante o BTS World Tour – Love Yourself: Speak Yourself no Brasil e acompanhou de perto a desmontagem do palco com um funcionário da arena, que a conduziu em todo processo. Embora a elaboração do TCC não tenha sido uma tarefa fácil, a jovem utilizava o Twitter para compartilhar o andamento do seu trabalho e passou a receber incontáveis mensagens positivas de pessoas que se identificavam com ela. 

Dentre as que mais marcaram a artista, Juliana destaca a mensagem de uma cadeirante chamada Yasmin. “Ela trabalhava em uma biblioteca universitária e me contou que nem as pesquisas mais bonitas catalogadas lá eram feitas com tanto cuidado quanto a minha foi”, compartilha. “Yasmin também me disse que teve vontade de voltar a estudar e fazer as coisas que sonhava. Hoje em dia, ela está cursando arquitetura. Acompanhar esse tipo de evolução me trouxe muito orgulho”.

Ao perceber que muitos ARMY’s começaram a entrar em contato com ela para tirar dúvidas e pedir ajuda, Juliana teve a ideia de criar um grupo no WhatsApp buscando reunir em um só lugar todos os universitários, das mais diversas áreas do conhecimento. A iniciativa, que começou com o intuito de facilitar a troca de informações entre os fãs pesquisadores acabou ganhando corpo até se transformar em um projeto nacional: o B-Armys Acadêmicas. “O BTS nos mostrou que através do trabalho em equipe podemos alcançar coisas inimagináveis. Eu sabia que todos ali estavam unidos pelo amor ao mesmo grupo e, ainda assim, possuíam seus próprios sonhos e suas próprias vontades. Reuni todos eles por acreditar que juntos somos mais fortes”, conclui Juliana.

Universitária apresenta o TCC
Artista e arquiteta Juliana apresenta parte do TCC para banca avaliadora.
Banca avaliando a apresentação da artista Juliana Follador na Universidade Santa Cecília. Da esquerda para direita: Orientadora Maria Rita Godoy, Arquiteto e Cenógrafo Rogério Falcão, Prof. Convidado Douglas Carvalho e Profa. Convidada Cristina Ribas.
Juliana após apresentação posa para foto com os professores da Universidade e a banca avaliadora do TCC.

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