Behind The Science. Parte 1: O que leva acadêmicos a desenvolverem pesquisas científicas sobre o BTS e a importância desses estudos

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Que o BTS lê e pensa muito ninguém duvida. Desde 2013, quando o grupo estreou no cenário musical sul-coreano com o single “No More Dream”,  incontáveis temáticas tem percorrido sua vasta discografia.As letras das músicas do BTS obedecem uma estrutura muito bem desenvolvida, passeando por assuntos sensíveis de modo sutil, algumas das vezes, e em outras, nomeando explicitamente os problemas, entregando aos ouvintes inúmeras reflexões e críticas sociais.

De 2 COOL 4 SKOOL (2013) até MAP OF THE SOUL: 7 (2020), considerando as menções conhecidas a livros, filmes, poemas e contos folclóricos, o BTS utilizou direta ou indiretamente mais de 40 referências para criar seus álbuns e faixas. Sem contar as outras influências advindas de gêneros musicais como hip hop, trap radiofônico, R&B e rap. Tudo isso somado ao poderoso exército global de ARMYS (Adorable Representative MC for Youth), engajado dentro e fora da Internet, fez o alcance do grupo se expandir muito além da própria cultura. 

“Como professora de filosofia, sempre contemplei como fazer estudantes e pessoas lerem livros e pensar, e é difícil. Mas o BTS fez isso”, a professora Lee Ji-young, que leciona filosofia na Universidade Sejong, disse em entrevista para o portal The Kpop Herald. A seleção de obras utilizadas pelo grupo inclui clássicos como Hamlet, do poeta, dramaturgo e ator inglês William Shakespeare,  Demian, escrito pelo autor e pintor alemão Hermann Hesse e A metamorfose, do escritor austro-húngaro Franz Kafka.

“Os fãs começaram a ler esses livros para encontrar significados escondidos e histórias dos MVs e músicas do BTS, que são todos interligados”, explica a professora Lee, que em 2018 escreveu um livro sobre o grupo intitulado BTS, Art Revolution. Não à toa, a influência dos sete talentos coreanos continua aumentando e tem motivado jovens pertencentes aos mais diversos contextos sociais a irem além do simples consumo das músicas, vídeos e outros conteúdos. 

Ana Luíza Barbosa, de 23 anos, conheceu o BTS em um evento cultural quando estava no primeiro ano da faculdade de jornalismo. Dois anos após o primeiro contato, ela começou a sentir interesse no tipo de narrativa transmitida pelo grupo. “Muitas pessoas se identificam com a mensagem passada por eles. Através das músicas, muitos que se veem em situações recorrentes de angústia, exclusão, violência, falta de autoestima e amor próprio podem enfrentar seus próprios medos e incentivar outros a enfrentarem seus medos também”, reflete. 

“Muitas pessoas se identificam com a mensagem passada por eles. Através das músicas, muitos que se veem em situações recorrentes de angústia, exclusão, violência, falta de autoestima e amor próprio podem enfrentar seus próprios medos e incentivar outros a enfrentarem seus medos também”

– Ana Luíza Barbosa

A curiosidade foi tamanha que a estudante elaborou seu trabalho de conclusão de curso (TCC) analisando a produção, a narrativa e a recepção da mensagem social do BTS. MAP OF THE SOUL: Um estudo das linguagens de videoclipes do grupo sul-coreano BTS, pesquisa desenvolvida por ela, foi aprovada com nota máxima pela banca e recebeu inúmeros elogios dos orientadores. Ana, que divulgou no Twitter sua conquista, viu em poucas horas a postagem viralizar, tendo mais de 12 mil curtidas e três mil retweets. 

Nem tudo, contudo, foram flores para a estudante de comunicação. Por ser um fenômeno recente no Ocidente, ela relata ter enfrentado inúmeros empecilhos enquanto buscava materiais para referenciar seu trabalho. “A falta de conteúdo na minha própria língua me frustrava e quando eu achava algo em inglês era muito vago”, compartilha. “Precisei procurar influenciadores no Brasil que tratavam de K-pop e cultura coreana, como a Babi Dewet, e pedir indicações para eles”. 

Hoje, após passar por todo o processo de pesquisa e apuração, Ana pretende dar continuidade aos estudos, se especializando na Indústria do Entretenimento sul-coreano e espera que seu trabalho possa ajudar outras pessoas. “Acredito que meu trabalho sobre a Hallyu e a influência do BTS irá facilitar a vida das pessoas que desejam falar academicamente sobre isso”, afirma.

O BTS, que já ganhou reconhecimento no entretenimento sul-coreano por acompanhar seus fãs no desenvolvimento do intelecto, é elencado pelo estudante brasileiro de semiologia e comunicação Thyago Teixeira, de 22 anos, como responsável por incentivar uma ação engajada do seu público. “Os textos multimodais do BTS, ou seja, seus MVS e sua arte, despertam um leitor crítico e ativo. Não é coisa para gente preguiçosa, para leitor passivo. Não é coisa para sentar e absorver como se fosse uma esponja.  E isso está explícito mesmo nas entrelinhas das obras deles”, defende. 

O “efeito BTS” com frequência é visto nas listas espontâneas que surgem entre os fãs, exibindo os livros de escritores que o BTS já leu em algum momento. “Hoje em dia, as pessoas pesquisam cada vez menos, se contentam com leituras rasas e acreditam em notícias falsas. Mesmo o BTS sendo um grupo de pessoas normais como nós, eles não deixam o conhecimento de lado e apoiam o consumo ativo dos seus fãs”, explica Thyago, que atualmente elabora sua monografia sobre a relação semiótica da música Blood Sweat and Tears, pertencente a um dos maiores discos do grupo, Wings.   

Sucessivas vezes o grupo de sete artistas sul-coreanos têm demonstrado o poder de sua influência em outras áreas além da literatura e da música. É o caso, por exemplo, da campanha “Because of You”, uma parceria entre o BTS e a Hyundai para promover o veículo com combustível de hidrogênio da marca sul-coreana. Ainda no final de 2019, a ABB Fórmula E também assinou um contrato com o grupo, buscando divulgar os benefícios do uso de veículos elétricos no combate à poluição do ar. 

E não para por aí. O BTS atua como embaixador honorário do turismo em Seul e de marcas globais como a esportiva FILA e a companhia de eletrônicos SAMSUNG. Em 2017, o grupo promoveu a campanha anti-violência Love Myself, em parceria com o Comitê Coreano e do Japão para a UNICEF e em 2018 chegou a discursar na 73ª Assembleia Geral da ONU, no lançamento da campanha “Generation Unlimited”. 

“O BTS não é apenas referência na música, mas como um todo. O fato deles terem ultrapassado a própria indústria musical, atingido e ganhado reconhecimento em outros setores, mostra que chegaram ao topo”, argumenta o universitário Thyago. 

Para ele, uma das consequências diretas desse movimento está na forma como a Hallyu vem sendo percebida, o que tem motivado cada vez mais estudos no meio acadêmico. “Pesquisar o BTS é uma maneira de enaltecer as tradições e a cultura do povo sul-coreano. Levar um grupo que começou do zero, sofrendo muito hate, muitos boicotes e precisou lutar para conquistar espaço na música é também um meio para lutar contra a hegemonia, o racismo e o ódio exacerbado a diferentes etnias”, complementa. 

Ana Luíza Barbosa, 23, pousa para foto antes de apresentar para a banca o trabalho de conclusão de curso
Universitária com a banca examinadora do tcc no Centro Universitário INTA; Da esquerda para direita: Me. José Augustiano Xavier dos Santos, Me. Liliane Luz Alvez, Ana Luíza Barbosa e Me. Adilson Rodrigues da Nóbrega
Ana Luíza faz sinal com a mão após apresentação, imitando gesto realizado pelo BTS no MV Boy With Love

9 comentários em “Behind The Science. Parte 1: O que leva acadêmicos a desenvolverem pesquisas científicas sobre o BTS e a importância desses estudos”

  1. Adorei a iniciativa de vocês! É muito inspirador! Continuem com o excelente trabalho! 💜

    Estarei acompanhando ^^

    1. Olá! 💜 Agradecemos sua mensagem! Ficamos muito felizes em saber que você gostou do nosso trabalho! Esperamos que tenhamos te inspirado um pouquinho! Caso você queira receber mais informações sobre nossos próximos projetos, pode deixar seu e-mail aqui nesse formulário!
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      Equipe BAA 💜

  2. Vocês começaram com o pé direito; amei a equipe, amei esse portal amei a iniciativa. Percebi que o Bangtan iria mudar minha vida quando me peguei lendo Hermann Hesse aos 12 anos por influencias da era WINGS.

    1. Oi! 💜 Obrigada pela sua mensagem! Ficamos muito felizes em saber que você gostou do nosso trabalho! Esperamos que tenhamos te inspirado um pouquinho! Caso você queira receber mais informações sobre nossos próximos projetos, pode deixar seu e-mail aqui nesse formulário!
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    1. Olá!! O resultado estão sendo incrível! Com certeza seguiremos compartilhando um pouco do nosso conhecimento e o de outras mentes brilhantes em nosso site! Caso deseje receber mais informações sobre nossos próximos projetos, pode deixar seu e-mail aqui nesse formulário!
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  3. Isabela Cristina Pereira

    Eu vim pelo “Kpapo” e é muito inspirador ver a iniciativa de vocês pois quando eu tive a ideia de fazer meu TCC sobre o Kpop eu achei que ia ser bem difícil, principalmente na minha área de administração, ainda é, mas são conteúdos como o de vocês que deixam ele mais leve. Muito Obrigada.

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