As discussões em torno do alistamento militar do membro mais velho do BTS. E o que está em jogo

Com a data do alistamento de Kim Seok-jin cada vez mais próxima e as conquistas recentes da maior boyband da atualidade, debate foi reaceso 

BTS com o Presidente sul-coreano Moon Jae-in. Reprodução: NEWSIS

Por ESD
Revisado por: Brunna Martins e Julyanna Dias

No final de agosto, pela primeira vez, o BTS alcançou o topo da parada musical americana Billboard Hot 100 com o single em inglês “Dynamite”. No mesmo dia (31), o presidente sul-coreano Moon Jae-in parabenizou o septeto em seu Twitter, classificando a conquista como “um feito esplêndido que aumenta ainda mais o orgulho do K-pop”. 

No dia seguinte à comemoração presidencial no Twitter (01/09), o canal televisivo MBC News trouxe uma notícia que reacendeu um debate antigo, porém recorrente entre membros do fandom ARMY e simpatizantes do grupo pop: o governo e o partido no poder tem revisado as leis para o serviço militar obrigatório vigentes no país do leste-asiático.

Segundo o telejornal da MBC News, recentemente, membros do governo e integrantes do Partido Democrático terminaram uma consulta sobre o tema e estão planejando propor ao Parlamento uma revisão do atual regulamento para permitir que figuras do campo da cultura popular e das artes adiem o alistamento obrigatório até os 30 anos de idade. 

O prorrogamento, no entanto, será concedido apenas mediante recomendação do Ministério da Cultura, Esportes e Turismo, que  deverá indicar os indivíduos de acordo com o tamanho da contribuição feita para cultura e a economia da Coreia do Sul.

Largamente discutido entre membros da política, da população e fãs de todo mundo, que acompanham de perto as decisões governamentais e cobram um posicionamento devido às inúmeras contribuições do BTS em popularizar a própria cultura mundo afora, o tema é polêmico por envolver a mentalidade, valores e as tradições do povo sul-coreano. 

As leis atuais obrigam todo homem saudável, com idade entre 18 e 28 anos, a servir o exército por um ano e seis meses. Poucos são os casos de isenção, inclusive entre os idols de K-Pop. Se nada mudar até dezembro de 2020, Kim Seok-jin, membro mais velho do BTS, estará apto a se alistar nas forças armadas, pois esse será o mês em que ele terá completado 28 anos, idade limite para sua inscrição. 

Como consequência, Seok-jin precisará interromper suas atividades como vocalista da maior boyband da atualidade — incluindo promoções, shows, eventos, etc. — durante o período em que estiver servindo seu país de origem. 

O que está em debate

Atualmente, a lei já prevê algumas concessões para os homens coreanos que, por algum motivo, precisam adiar a ida ao exército. É o caso, por exemplo, dos alunos que frequentam o ensino médio e superior, incluindo a pós-graduação, daqueles que estão inscritos em institutos de treinamento, ou  fazendo pesquisa judicial, ou são atletas de destaque e ajudam a promover o prestígio nacional. 

Jeon Yong-gi, membro do partido democrata e do Comitê de Cultura, Esportes e Turismo, foi responsável por introduzir o debate a respeito do atual sistema de isenções na Assembleia Nacional. De acordo com ele, existe uma diferença entre adiar o serviço militar e fazer isenções. “Precisamos dar a opção de adiar o serviço militar para aqueles cuja carreira atinge o pico na casa dos 20 anos”, disse ao Money Today em entrevista por telefone. 

Seu objetivo com a proposta de alteração na legislação é que o Estado, através de suas leis, garanta aos jovens a oportunidade de se moverem de acordo com seus próprios planos e interesses. Na Coreia do Sul, muitos adolescentes que desejam ser idols passam anos treinando em agências de entretenimento, aprendendo novas habilidades como dança, idiomas e teatro, se aperfeiçoando até estrearem (se estrearem). 

Após o debut, levam uma vida atarefada, com rotinas de trabalhos exaustivas e agendas ocupadas entre shows, gravações e ensaios. Em termos numéricos, o K-pop é um mercado lucrativo que movimenta mais de US$4,7 bilhões todos os anos. Só o BTS, segundo um levantamento de 2018 do Instituto Hyundai, gera cerca de US$3,6 bilhões anuais à Coreia do Sul e ajuda a impulsionar o turismo e vendas de exportação do seu país. 

Além do pop, no país do leste-asiático, existe uma forte cultura de jogos eletrônicos (e-Sports), com partidas de nível profissional transmitidas para centenas de milhares de pessoas ao redor do mundo. O sucesso da modalidade é tanto que, nos anos 2000, o governo coreano criou uma associação – a Korean e-Sports Association – para gerenciar esportes do gênero no país. 

O primeiro estádio do mundo também surgiu lá, em 2005,  no distrito de Yongsan, e realiza inúmeras partidas com arquibancadas lotadas.  Em 2019, a receita total dos e-Sports ultrapassou US$1 bilhão, sem levar em conta os equipamentos como cadeiras, fones de ouvido, mouse para jogos, utilizados pelos gamers, o que aumentaria ainda mais esse número. 

Faker, um importante jogador profissional sul-coreano de League of Legends, avaliado por muitos como o maior gamer de todos os tempos, tem 24 anos e trouxe inúmeras contribuições para seu país de origem, tendo ajudado a difundir a cultura de jogos e a imagem da Coreia do Sul globalmente. Seu salário anual é estimado em mais de US$2.5 milhões, fazendo dele o maior ganhador de receitas do setor.

Reprodução: Seoulz

Segundo um levantamento da Nielsen, em 2018, na Coreia do Sul, 39% dos fãs de e-Sports tinham entre 25-34 anos e 23%, o segundo maior número, idades entre 18-24 anos. Os números com as idades do público variam conforme a região. Nos Estados Unidos, por exemplo, segundo um relatório feito este ano pela Entertainment Software Association (ESA) – órgão público responsável pela indústria dos jogos – a idade média dos jogadores norte-americanos é de 35-44 anos. 

E apesar de os jogadores profissionais na Coreia do Sul geralmente se aposentarem em torno dos 27 anos de idade, Faker diz que raramente pensa sobre isso, mesmo tendo economias suficientes para se aposentar precocemente. “Quero continuar [jogando] até os 27 anos ou até mais. Estou confiante de que posso continuar a fazer isso até essa idade, ou mesmo além desse ponto”, disse Lee em entrevista para The Korea Herald.

Caso precisem servir ao exército na idade exigida pelo governo, tanto os maiores representantes da onda coreana, o BTS, quanto os maiores jogadores profissionais de e-Sports terão que interromper suas atividades por mais de um ano. Como consequência, segundo apontado pelo parlamentar Jeon Yong-gi, eles correm o risco de “perder ou reduzir as chances de sucesso antes da hora”. 

O que diz o governo

Durante uma sessão plenária, no dia 14 de setembro (KST), o ministro da Defesa, Suh Wook, apresentou ao Comitê de Defesa Nacional uma carta por escrito e respondeu sem rodeios a pergunta de como ele avalia o atual sistema de isenção do serviço militar e o que acha de o BTS receber uma isenção militar especial. “Todos devem ser tratados de forma justa e equitativa. A exceção do serviço militar especial para artistas talentosos da cultura pop é uma questão em que um consenso nacional deve preceder, e discussão suficiente é necessária com antecedência”, defendeu na Assembleia Nacional. 

Por ocasião do Fórum de Ministros da Cultura da UNESCO, ocorrido em Paris, em novembro do ano passado, o ministro da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia do Sul, Park Yang-woo, também falou a respeito do alistamento militar obrigatório para membros do BTS, afirmando que, possivelmente, o grupo não ficará isento, mesmo sendo aprovadas novas leis. 

“No caso do BTS, pessoalmente gostaria de permitir isenções para eles de acordo com certos padrões, mas a Administração de Força de Trabalho Militar e o Ministério da Defesa Nacional estão inclinados a reduzir o escopo geral [de isenções]”, afirmou durante uma coletiva de imprensa com repórteres coreanos em Paris. “Ao contrário das artes clássicas ou dos desportos, é difícil fixar os critérios de seleção nas áreas da cultura e das artes populares, o que dificulta a institucionalização [do sistema de isenção]”, disse o ministro.

Atualmente, todos os jovens sul-coreanos considerados aptos fisicamente são obrigados a servirem nas Forças Armadas para defender o país contra a Coreia do Norte. O conflito, iniciado em 1950 com a Guerra da Coreia, não terminou oficialmente, apesar do cessar-fogo em 1953.

Por outro lado, devido ao crescimento da onda coreana, o governo do presidente Moon Jae-in tem recebido cada vez mais pedidos para permitir que o BTS seja isento do serviço militar, graças ao papel do grupo em promover a imagem nacional da Coreia. Geralmente, isenções desse tipo só são concedidas a atletas premiados ou músicos clássicos, mas exceções às restrições são avaliadas continuamente. Em 2019, por exemplo, a fim de permitir a continuidade do trabalho dos idols no exterior, o governo teve que flexibilizar as regras de viagens internacionais para artistas com idades próximas a data do alistamento obrigatório poderem se locomover. 

“Até agora, os artistas [da TV] após os 25 anos enfrentaram fortes restrições para ir ao exterior, mas [as novas diretrizes] estão se movendo no sentido de remover as restrições para aquelas recomendadas pelo ministro da Cultura”, afirmou Park. “No geral, as novas diretrizes manterão as atuais isenções militares concedidas a atletas e artistas [clássicos], mas exigirá que eles façam maiores contribuições sociais em vez da isenção”, acrescentou.

Um dia após a coletiva com o ministro Park Yang-woo, um oficial do Ministério da Defesa, Lee Nam-woo, anunciou por meio de um briefing que ao invés de estender as isenções, eles terão que restringi-las para se preparar para a falta de mão de obra devido à queda na taxa de natalidade enfrentada pelo país. “Segundo as novas regras, menos pessoas do setor industrial e de pesquisa se qualificarão para as isenções. Não haverá nenhuma mudança nas isenções de artistas”, disse Lee na ocasião.

Apesar da relutância, caso o projeto de lei proposto pelo democrata Jeon Yong-gi seja aprovado pelo legislativo sul-coreano, o governo não terá muito o que fazer. A proposta de atualização da lei, no entanto, deverá tramitar e ser aprovada de maneira regular pelo Parlamento sul-coreano, o que significa que Kim Seok-jin pode não ser contemplado em tempo hábil. Contudo, ele ainda poderá se beneficiar da isenção para matriculados na pós-graduação. Todos os membros do BTS estão atualmente matriculados em programas de pós-graduação ou graduação, incluindo o membro mais jovem, Jeon Jung-kook. 

A discussão, entretanto, é longa e a isenção militar vista de forma negativa pelo público. Ainda assim, os governantes continuam procurando uma forma de minimizar o período de ausência do grupo mundialmente famoso. Um dos caminhos possíveis apontado como alternativa é o de atrasar o alistamento obrigatório dos membros do BTS por cinco anos para que Kim Seok-jin, de 27 anos, se aliste ao mesmo tempo que Jeon Jung-kook, de 23 anos. Segundo essa proposta, os integrantes se alistarão juntos nas Forças Armadas em 2025.  

O que diz o BTS

Na coletiva de imprensa realizada para promover o álbum ”Map of the soul: 7”, no dia 24 de fevereiro de 2020, em Seul, Kim Seok-jin afirmou que ”está pronto para servir ao exército a qualquer momento”. 

Jin respondeu a pergunta do exército de forma serena, revelando que este é um assunto delicado e ainda não foi discutido, mas que é um dever e enquanto não for convocado continuará trabalhando duro. Quando for chamado, porém, irá responder. 

O artista é frequentemente questionado pela imprensa sobre esse tema e sempre responde de modo semelhante, dizendo que entende ser um dever como coreano e que irá cumpri-lo oportunamente. Durante entrevista para o canal televisivo CBS, em abril de 2019, outra vez ele se posicionou quanto ao alistamento, alegando ser algo natural. “Como um coreano, isso é natural, e um dia, quando o dever chamar, estaremos prontos para responder e dar o nosso melhor”, disse Jin.  

Bang Si-Hyuk, presidente e CEO da Big Hit Entertainment, gravadora responsável pelo BTS, também já se pronunciou sobre o tema, ratificando o compromisso da empresa com o serviço militar. “A empresa acredita que o serviço militar é um dever”, disse ao Hollywood Reporter. “Tentaremos mostrar aos fãs o melhor do BTS até, e depois, que os membros tenham cumprido seus deveres de serviço.”

Recentemente, a Big Hit Entertainment divulgou sua declaração de registro para oferta pública inicial (IPO) por meio do Sistema de Análise, Recuperação e Transferência de Dados, fornecido pelo Serviço de Sistema de Divulgação Eletrônica do Serviço de Supervisão Financeira (DART). O documento, com dados sobre a empresa direcionados aos investidores do mercado financeiro, chegou a elencar o serviço militar obrigatório como um dos riscos que os acionistas devem prestar atenção antes de investir na empresa. 

“BTS consiste em membros nascidos entre 1992 e 1997 que são obrigados a se alistar como soldados em serviço ativo. Foi avaliado que será possível para o membro mais velho Kim Seok-Jin atrasar seu alistamento até o final de 2021, com base na lei do serviço militar”, afirma trecho do comunicado, traduzido e noticiado pela Revista KoreaIn.

“Para se preparar para o risco de artistas suspenderem suas atividades devido a alistamento militar […], a empresa continua a expandir a proporção da receita obtida por meio de produtos que não exigem a participação direta dos artistas, como mercadorias de licenciamento e conteúdo de vídeo. Para minimizar o risco de vendas reduzidas devido ao hiato iminente de nossos principais artistas […], estamos analisando uma ampla variedade de opções de negócios, como álbuns pré-produzidos e conteúdos de vídeo, bem como uma operação flexível de artistas capazes de promover”.

O que dizem os fãs

Ao longo dos últimos sete anos desde a estreia, o BTS contou com o apoio de inúmeros fãs ao redor do mundo. Os ARMYS, nome oficial do fã-clube, acompanharam de perto a evolução dos sete artistas e foram, em grande medida, responsáveis pelo sucesso estrondoso do grupo globalmente. 

Apesar de distante da Coreia do Sul do ponto de vista geográfico, linguístico, social e cultural, o Brasil faz parte da história do BTS desde os primeiros anos, sendo escolhido como o primeiro país da América do Sul a receber o fanmeeting intitulado ‘RWeL8?’ em 2014. O grupo ainda retornou ao Brasil outras três vezes: em 2015 com a turnê ‘BTS Live Trilogy Episode II: The Red Bullet’, em 2017 com a turnê ‘BTS Live Trilogy Episode III: The Wings Tour’ e em 2019 com a aclamada turnê mundial em estádios ‘Love Yourself: Speak Yourself’. 

“Desde o pré-debut, são sete anos. Acredito que eles passaram de adolescentes para homens, e os objetivos foram se tornando cada vez maiores”, compartilha a dançarina Ni, que acompanha o BTS desde a estreia. “O que continuou foi o amor pelos fãs, a energia boa que eles transmitem, a união estável entre os membros e a humildade que eles tem desde sempre”.

O sentimento de admiração e orgulho é compartilhado pelas fãs mais antigas, que acompanham o grupo desde o início da caminhada na indústria do entretenimento. “Temos a mesma faixa etária e a impressão que tenho é que os meninos fazem uma trilha sonora específica a cada temporada da minha vida”, reflete a estudante de administração Patrícia Albuquerque. “É impressionante como as etapas da minha vida estão em sincronia com as eras [trabalhadas] pelo BTS, e ao mesmo tempo as músicas são lançadas no momento certo para me auxiliar e motivar mais”.

O impacto do BTS vai além das fronteiras geográficas. A mensagem transmitida através das músicas ajuda a promover uma relação horizontal com o público, onde pensamentos e emoções expressos pelos artistas repercutem nos ouvintes e fortalece a identificação entre ambos. “Os meninos sonharam alto durante anos e conquistaram tudo aos poucos, com o apoio árduo dos fãs que moveram montanhas para realizar tudo. O fandom se move querendo realizar os sonhos deles, não para bater recordes”, relata a estudante Gabriela Sousa, fã desde 2014. “Eles cativaram a gente de uma forma que não está escrito. A paixão pela música, a trajetória, os pensamentos, as personalidades… Eles são preciosos em vários sentidos”.

A biomédica Beatriz Azevedo também diz sentir orgulho e gratidão pelo trabalho do BTS. “Sempre acreditei nos meninos, desde o primeiro stage. Tenho orgulho de ter acompanhado cada momento da carreira deles, orgulho de tudo o que eles conquistaram e de tudo o que os fãs fazem para ajudá-los nessas conquistas”, reparte, dizendo se sentir grata por eles nunca terem desistido, mesmo diante das dificuldades do percurso. “Sinto, na verdade, que eles são meus amigos e que sempre escrevem o que estou precisando ouvir”.

Por motivos como esses, as discussões a respeito do alistamento militar obrigatório acabam ganhando força dentro do fandom, que se dividem quanto às opiniões sobre o tema. O debate, no entanto, leva em conta as diferenças culturais, o respeito às tradições sul-coreanas e o peso do BTS para seu país de origem.

“Pelo que conheço da cultura coreana, e de alguns amigos que são coreanos e serviram o exército, para eles é um grande orgulho ir para o exército e servir o país de alguma forma. Então, se pensar por este lado, os meninos também devem querer ir e dar mais orgulho do que já deram ao seu país”, afirma a dançarina Ni. “Claro que irei sentir falta deles, porque é impossível não sentir falta de algo ou alguém tão presente na sua vida, mas sei que é algo normal. Já vivenciei muitos ídolos que gosto indo e voltando do exército, por isso, aprendi a me conformar e esperar”. 

Para a estudante Patrícia, esse é um ponto muito delicado, principalmente por não ser uma cidadã coreana e o Brasil “não ser o país mais patriota do mundo”. “Posso não entender esse sentimento de servir a pátria, mas respeito. Sei que isso é algo muito importante para os sul-coreanos. Pessoalmente, é claro que eu não quero que eles vão, pois seriam, no mínimo, dois anos sem a formação completa do grupo, porém, acredito que esse não seja meu espaço de fala, é algo que tem que partir do governo da Coreia e deles”, defende. 

Ainda assim, para ela, é fundamental levar em conta o peso do BTS para a economia do país. “Levando em conta o quanto eles colaboraram para o crescimento do PIB do país, penso que o alistamento deveria ser algo a ser repensado. Ao meu ver, [caso adiassem a inscrição], eles estariam servindo a pátria até mais do que se tivessem que servir ao exército, só não da maneira tradicional”, afirma.

Já a biomédica Bia se preocupa com as consequências para o grupo caso eles decidam não ir. “O alistamento na Coreia do Sul tem muito a ver com honra, uma vez que os coreanos são bem patriotas. Não sei o quão prejudicados eles seriam se não fossem. Apesar disso, como BTS está trazendo ganhos econômicos absurdos para o país, acho sim válido revisar o caso deles, visto que isso irá influenciar diretamente na economia e na divulgação da Coreia do Sul”, diz. 

Embora os fãs internacionais se preocupem e acompanhem os desdobramentos desse caso, para Bia, a decisão não cabe ao público internacional.  “Os fãs internacionais não vivem a mesma realidade que os coreanos, então, não temos como ter uma opinião realmente válida sobre algo que não faz parte do nosso mundo. Creio que apenas eles devam abordar esse tema, visto que é provável que não entendamos e não nos identifiquemos com a situação. Além disso, nós não sabemos o que os próprios meninos pensam sobre isso. A única coisa que eu quero é que a decisão final seja a melhor possível para eles”, aponta Bia.

Apesar disso, existem fãs que pensam diferente. É o caso, por exemplo, da estudante Gabriela Sousa, que elenca os recordes do BTS e o papel preponderante realizado por eles em disseminar a própria cultura e o K-Pop pelo mundo como elementos de honra o suficiente para serem isentos do alistamento. “Não acho que o BTS deva ir para o exército e acho que todo o ARMY concorda comigo. Eles vão além da música e movimentam toda uma indústria. Eles lançam diversos conteúdos de entretenimento, filmes, marcas de roupa, acessórios, bonecos, além das diversas marcas que criaram como o BT21, e o novo TinyTan”, diz. 

“É absurdo o quanto isso gera lucro não só para empresa, mas também para o próprio país. Fora o quão longe eles chegaram no exterior, ao ponto de alcançar o número um do Hot 100 da Billboard. Tudo isso mostra o quão bem a cultura do K-Pop tem sido disseminada por eles. Mais e mais pessoas escutam e se apaixonam pela arte deles. Essa arte que não só abre espaço para a própria Coreia do Sul, como também para todos os artistas estrangeiros do mundo. E, encerrar isso por uma obrigação que, em alguns casos como o deles, poderia ser exceção, é uma burrice”, conclui Gabriela.

Após a ida do membro mais velho, Kim Seok-Jin, para o exército, será dada a largada até os outros membros, hoje com idades entre 23-27 anos, irem também. A pausa de um ano e seis meses impedirá que todos os integrantes promovam juntos até pelo menos 2029 (confira a imagem abaixo). 

Um meio termo para esse impasse é a possibilidade de enviar todos os membros de uma só vez, proposta que vem sendo discutida pelos políticos sul-coreanos. A dançarina Ni também concorda com essa visão. “Acredito que eles devam ir, mas não um de cada vez e sim todos juntos. Assim, todos estariam juntos e a ausência seria de apenas dois anos. Se cada um for na ordem [da idade], vai demorar até que eles estejam reunidos novamente”, explica Ni. “Se essa decisão deixar o BTS bem, não vejo motivos para eles não irem. E, quanto mais cedo forem, mais rápido voltarão”. 

O dever de servir

Na Coreia do Sul, o serviço militar com frequência é visto como parte integrante da identidade masculina. A estrutura social, incluindo o mercado de trabalho, valoriza homens que escolheram voluntariamente servir à nação. 

“Ser um cidadão sul-coreano vem com essa demanda de assumir uma identidade militar, se você for um homem”, o professor de Estudos Coreanos na Universidade do Havaí em Manoa, C. Harrison Kim, disse para o portal de notícias The World em entrevista sobre o tema. “Os homens em seus primeiros anos entram no serviço militar e, em seguida, surgem com essa noção de ordem, hierarquia e lealdade – e, claro, um mundo sem mulheres”.

Segundo noticiado pelo The World, as empresas sul-coreanas são conhecidas por negligenciar as contratações de homens que não serviram ao exército e até mesmo envergonhar publicamente aqueles que tenham se esquivado de seus serviços.

A rigidez com que é encarado o alistamento militar se deve, em partes, à guerra atualmente em curso com a Coreia do Norte. Contudo, outros fatores também servem para explicar o problema. A Coreia do Sul tem a menor taxa de natalidade do mundo, de acordo com um relatório do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA) divulgado em junho de 2020, o que se traduz, na prática, em uma crescente crise populacional. 

Além disso, de acordo com dados de 2019 divulgados pelo Statistics Korea, pelo segundo ano consecutivo, o país do leste-asiático sofreu uma queda histórica na taxa de fecundidade, tendo alcançado a mínima de 0,92 em 2019 – ou menos de um bebê por mulher – ante 0,98 de um ano atrás. Em 2018, o país já havia atingido seu nível mais baixo desde o início dos registros, em 1970. 

A taxa de fecundidade é uma estimativa para saber quantos filhos uma mulher terá ao longo da vida. A média de pontos entre 37 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de 1,63, o que faz da Coreia do Sul o país da OCDE com a menor taxa dentre todos os demais.

Somado a tudo isso está a projeção de queda no número de homens saudáveis que poderão se inscrever nas forças armadas nos próximos anos. Conforme veiculado pelo The World, em 2018, a Coreia do Sul tinha cerca de 599.000 soldados em suas forças armadas. Contudo, segundo as leis atuais, o número de cidadãos sul-coreanos qualificados para o serviço militar deverá cair para apenas 225.000 em 2025 – e depois 161.000 em 2038. 

A combinação da baixa taxa de fertilidade, menor número de pessoas aptas a se alistarem, e as fracas perspectivas de emprego no país (que todos os anos empurra para o exterior muitos sul-coreanos) forçará o governo a endurecer as regras para isenções e flexibilizar as regras para o alistamento. 

O Instituto Coreano de Análise de Defesa, administrado pelo governo, concluiu recentemente uma pesquisa a fim de recrutar cidadãos naturalizados (pessoas que ganham a cidadania sul-coreana, mas não nascem com ela) como alternativa para lidar com o número cada vez menor de soldados disponíveis no país.

“Estamos enfrentando uma crise populacional e estamos tentando descobrir como podemos aumentar o número de soldados em nosso país”, afirmou o professor de estudos internacionais na Universidade da Coreia, Andrew Eungi Kim. “É um problema sério. Se continuarmos a recrutar apenas homens sul-coreanos na casa dos 20 anos, o número de soldados cairá para quase metade do que é agora nas próximas duas décadas”, explicou.

* Todas as referências utilizadas estão no próprio texto.
** Este assunto é extenso e um único texto não esgota suas possibilidades.
*** Caso queira saber mais sobre o Serviço Militar na Coreia do Sul você pode conferir no site: http://www.mma.go.kr/eng/contents.do?mc=mma0000838

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *