Scenery: Uma conversa entre o fotógrafo e sua fotografia

Foto: reprodução do BANGTAN BLOG: 풍경 (Scenery) by V

Escrito por: Kimberly Mello
Revisado por: Brunna Martins e Julyanna Dias

Olá, artistas do BAA! Esperamos que estejam bem e que tenham um final de ano incrível, recheado de arte e inspiração! Hoje é um dia especial, em que o aniversário de Kim Taehyung caiu no exato dia de postagem do painel Arte! E levando em consideração o seu apreço por arte, gostaríamos de abordar no painel uma de suas maiores paixões: a fotografia, que também foi tema de sua primeira composição autoral fora do BTS: Scenery. 

A arte como Fotografia

A arte constrói sentido através dos mais diversos formatos, como também possibilita inúmeras maneiras de interpretações a partir dos mesmos. Uma das maiores ferramentas para que esse processo possa ocorrer é o Olhar! Mas não apenas um olhar fisiológico e seus fenômenos, mas o olhar que estende-se para além daquilo que é visível e muitas vezes inexplicável. A luz, formas, cores e movimentos trabalham juntos para transmitir a beleza e história, que apenas o olhar do fotógrafo encontra em um cenário onde ninguém os percebe. 

Assim como as diversas formas de expressão humana, não se tem uma origem exata da criação da fotografia. Até que a primeira fotografia permanente pudesse ser captada em 1826, pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, pequenos passos foram dados para que finalmente o ser humano pudesse desenhar com a luz e os contrastes criados por ela

A câmera escura, ou câmera obscura em latim, é um aparelho que reproduz os princípios ópticos através de uma pequena abertura na parede oposta de uma caixa ou sala completamente escura. A imagem que estaria fora da sala era reproduzida de forma invertida na parede contrária ao do orifício. Apesar de começar a ser utilizada durante o Renascentismo, existem registros que falam sobre sua existência desde o filósofo Chinês Mozi (470 a.C – 39 0 a.C) à Aristóteles, e até mesmo por Leonardo da Vinci, em um registro sobre a ‘camera obscura’ em 1500: “… um espaço tão ínfimo contém a imagem do Universo.” (ANG, 2015). Estudos sobre a óptica, captação de imagem como o Cianotipia — técnica de impressão de plantas em um papel sensível à luz —, e posteriormente sobre a química fotográfica, foram essenciais para tornar real a possibilidade de eternizar momentos em um pedaço de papel. 

Inicialmente, a fotografia enfrentou desafios até que pudesse ser reconhecida como uma forma de expressar arte, contudo, a arte fotográfica está longe de ser apenas um registro fotográfico ou fotografia comercial. É uma expressão artística que não depende da câmera e sim do olhar de quem fotografa, pois é dele que vem a capacidade de contar histórias e evidenciar belezas, antes, despercebidas aos olhos. 

Quando a música encontra a fotografia

Kim Taehyung sempre demonstrou seu encanto e paixão por essa arte de desenhar utilizando a luz e um carinho especial por sua ferramenta: a câmera. Além de sempre compartilhar outros olhares com o ARMY nas redes sociais do grupo, Taehyung também implanta suas inspirações em pseudônimos como: Vante, junção do seu nome artístico no Bangtan Boys, V, com o nome de um de seus fotógrafos favoritos, o australiano Ante Batzim, como também o apelido Vedi, originado de sua admiração pelo fotógrafo francês Hedi Slimane

No dia 31 de Janeiro de 2019, V lançou seu primeiro solo autoral, expressando a relação com a câmera, o cenário e a eternização de um momento em imagem. A letra e a melodia compõem uma balada, em que, desde os ruídos à voz de Taehyung, tornam-se instrumentos que constroem uma paisagem sonora imersiva em busca da entrega de uma experiência imaginativa, para acrescentar sentido à composição. 

Em “Scenery”, cada detalhe é importante e a imaginação torna-se essencial para aproveitar todas as particularidades escondidas em meio a notas e falsetes cuidadosamente escolhidos. A música inicia-se com fortes sons de vento. Ao fundo, o som de sinos balançando, tecidos atritando-se, acompanhados de suspiros curtos e espaçados. Uma orquestra de ruídos brancos que constroem uma paisagem, sem que seja necessário imagens ou explicações, convidando-nos a entrar no instante em que o fotógrafo almeja guardar. 

Timidamente, uma nota sibilante, semelhante ao assovio, começa a ecoar na melodia, apresentando em seguida leves teclas do piano que passam a guiar a estrutura principal da música, criando uma esfera nostálgica. A voz rouca e soprante de V passa a liberar sentimentos através da poesia.


“Eu te vejo novamente
Nesse caminho cheio de flores
Eu me pergunto se isso ficará em mim”
Scenery – V

Para o fotógrafo artista, o momento estático é um precioso milisegundo que jamais retornará. Um ‘cenário’ único de emoção e beleza que precisa ser capturado como uma forma de eternizar sentimentos e histórias. Tal como os cronistas, as fotografias carregam uma linguagem que transmite valores culturais, históricos e artísticos, transformando o cotidiano com poética. 

A voz de V, como os claros respiros durante a música, podem sugerir algumas interpretações. Uma delas, pode ser ligada à contemplação e a aproximação, já que esses sons só são possíveis de ouvir claramente, quando se está muitíssimo próximo de alguém. Sons do obturador de uma câmera analógica sendo acionado e o filme rodando são ouvidos logo após o trecho, sugerindo o click de uma foto no instante em que V diz: “Eu me pergunto se isso ficará em mim”, associando assim a fotografia ao desejo de guardar aquele momento. 


“Eu deixo os meus sentimentos
Naquele parque no qual a lua já foi embora
Essa música foi feita pra você
Eu escuto o som do filme
Daquele céu noturno iluminado pela lua”
Scenery – V

Ao mesmo tempo que a composição musical transmite frio, ela aquece com a aproximação, criando um lugar aconchegante para quem a ouve. Os respiros do cantor durante a música também podem construir uma caminhada, na qual inúmeros ‘cenários’ diferentes são encontrados pelo fotógrafo, expressando sua gratidão pelos momentos que guardou consigo e frustração pelos que perdeu, almejando mais uma chance de poder capturá-los.

“Eu ainda imagino, imagino, linda história
Ainda imagino, imagino, a melhor parte
Eu ainda fico vagando, próxima história
Eu quero te tornar minha”
Scenery – V

A imaginação do fotógrafo é o que alimenta seu olhar sensível, permitindo-lhe enxergar além do que se pode ver. As histórias que V comenta no refrão, podem ser os ‘cenários’ que procura guardar consigo, como um colecionador de momentos. O primeiro refrão também traz consigo notas mais limpas e uma entonação mais forte, podendo expressar desejo e euforia pelo processo de colher histórias através de imagens e luz. 

Sons seguidos de clicks podem ser ouvidos durante a pausa. Um som característico de quando um fotógrafo faz uma sequência de imagens em movimento, na esperança de que uma saia bem iluminada. Sons que misturam-se a narrativa da música, em que no próximo trecho, V diz estar triste por ter perdido a fotografia, podendo ser interpretado como se as fotos não tivessem sido bem sucedidas e que se arrependia por não ter escolhido melhor as configurações da câmera, para capturar uma imagem mais bem produzida e nítida. 

“Meu coração está triste porque perdeu
A imagem naquele segundo
Eu me arrependo, espero ter mais uma chance
Eu vou criar uma luz
Reunindo a luz da lua pedaço por pedaço
Por favor, venha para o meu lado
Do mesmo jeito que você veio ontem”
Scenery – V

A partir deste momento, a paisagem sonora passa a receber mais instrumentos em sua composição, envolvendo pouco a pouco o ouvinte em sentimentos de esperanças e frustrações de um fotógrafo artista. Sua segunda principal ferramenta é a luz, que possibilita a captação de suas lentes. Na letra, V diz que irá criar uma luz, reunindo o brilho da lua pedaço por pedaço se for preciso, para que aquele cenário seja capturado por sua câmera. 

A função da luz na captação é muito importante, pois sem ela, não há foto, da mesma forma que não existe visão. O sensor que se encontra atrás das lentes de uma câmara recebe luz para que seja possível o registro da foto no filme, um papel hipersensível à iluminação. O excesso ou a falta desta iluminação é que resulta em fotografias muito claras ou muito escuras, comprometendo a nitidez das imagens. Por esse motivo, reunir a luz da lua “pedaço por pedaço” é necessário para que ele consiga registrar o cenário que perdeu e espera conseguir encontrar novamente para produzir uma boa foto. 

“Se você for embora, deixando sua pegada
Eu vou manter aquele calor seguro
Eu vou mantê-lo em preto e branco”
Scenery – V

A fotografia preto e branco trabalha essencialmente com iluminação e contrastes, conseguindo assim, entregar mais nitidez durante sua revelação. Por não possuir cores, o efeito dá ênfase à imagem em todos os seus detalhes, conservando a emoção e sensibilidade contidas na fotografia. 

Ao findar da música, V diz que caso esse momento nunca retorne, deixando apenas sua pegada através da foto não tão bem sucedida, ele irá guardar o calor daquele sentimento, conservando a fotografia e revelando-a em preto e branco. As notas do piano passam a ficar mais fracas e a voz de Taehyung torna a ficar soprosa, como se cantasse enquanto suspira, encerrando a música com notas calmas alongadas, onde o violino ganha destaque de forma crescente, podendo ser interpretado como um final que possui uma continuação, já que a jornada de um fotógrafo artista nunca finaliza, pois ele sempre estará em busca de um próximo cenário. 

Scenery é uma obra bem construída com narrativa, poesia e referências à tecnologia fotográfica. É interessante pensarmos também sobre a ligação que existe entre o tema “Cenário” e a paisagem sonora criada pela equipe dirigida por DOCSKIM e V, que desenvolveram sentido, utilizando ruídos e instrumentos bem posicionados durante a música, cooperando com a narrativa desenvolvida na letra e sentimentos provocados pela imersão musical. 

Esperamos que o conteúdo desta postagem tenha inspirado vocês em um dia tão especial quanto o aniversário de Kim Taehyung. O texto apresenta uma linha artística, e apesar de possuir algumas informações técnicas, ele tem o objetivo de mostrar a arte que existe a partir de outros tipos expressões  e inspirá-los a desenvolver o olhar artístico a partir de outros olhares! 

Compartilhe conosco suas interpretações de “Scenery” nos comentários e nas redes com a #ArteComBAA! 

REFERÊNCIAS 

  • SANTANA, Guilherme. Câmara escura. Todo Estudo. Disponível em: https://www.todoestudo.com.br/fisica/camara-escura. Acesso em: 24 de December de 2020.
  • Como referenciar letra de música? https://btsblog.ibighit.com/m/385
  • NV, Nvwrites. The Soundscape of Kim Taehyung’s「Scenery 풍경 ]. [S. l.], 14 ago. 2020. Disponível em: https://nvwrites.medium.com/the-soundscape-of-kim-taehyungs-scenery-%ED%92%8D%EA%B2%BD-an-analysis-and-review-1dac2266a7d4. Acesso em: 23 dez. 2020.
  • TÔRRES, Lígia. OLHAR FOTOGRÁFICO: UM DOS ELEMENTOS MAIS IMPORTANTES DA FOTOGRAFIA. [S. l.], 21 fev. 2020. Disponível em: https://www.ocasaldafoto.com/olhar-fotografico-elemento-mais-importante-da-fotografia/. Acesso em: 23 dez. 2020.
  • NETO, Ruy. A FOTOGRAFIA EM PRETO E BRANCO. [S. l.], 2020. Disponível em: https://www.epics.com.br/blog/a-fotografia-em-preto-e-branco. Acesso em: 23 dez. 2020.
  • ANG, Ton. Fotografia: O guia visual definitivo do século XIX à era digital. [S. l.]: Publifolha, 2015.

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