A PROVOCAÇÃO EM STRANGE: o que acontece quando dois rappers se unem para questionar os valores e opiniões pré-concebidas

Créditos: Big Hit Entertainment

Por ESD
Revisado por: Cristiane Machado Elianete Saboia


Quatro anos após ter lançado sua primeira mixtape solo, Agust D, alter-ego do rapper SUGA (BTS), fez seu retorno surpresa com o álbum D-2, no dia 22 de maio. No seu segundo trabalho, o músico levantou uma série de reflexões sobre o mundo, expondo algumas de suas experiências pessoais mais recentes (outras nem tanto), e convidou os ouvintes a mergulharem em seus próprios sentimentos. Ao todo, o álbum possui dez faixas, com duração de 32 minutos, todas elas escritas e produzidas pelo rapper-compositor.

Dessa vez, o artista disse estar em um ritmo mais relaxado quanto a abordagem para criação das músicas em comparação à mixtape anterior.“Minha mixtape anterior focou mais em ser melhor no rap, melhor em fazer música, som, mixagem, master e assim por diante. Eu trabalhei em muito mais projetos desde então e realmente não tentei me tornar perfeito. Perfeição é um termo esquivo¹. Eu simplesmente fiz o meu melhor”, explicou SUGA em entrevista para Billboard. 

O fato das coisas “acontecerem com mais força” antes, de acordo com o rapper, acabou por impactar diretamente o teor criativo e a condução do seu primeiro álbum solo, lançado em 2016. Quando perguntado pela revista Time sobre o que teria mudado para ele desde então, o jovem músico revelou que, na verdade, sua vida continua a mesma. 

“Minha vida é a mesma. Minhas formas de trabalho e padrões diários não mudaram muito”, disse, para em seguida avaliar que a principal mudança ocorrida nos últimos sete anos foi a expansão do BTS pelo mundo. “Talvez a minha posição na indústria da música? Do ponto de vista de um músico, uma mudança pode ser que eu tive um resultado bastante decente com os álbuns do BTS ou com outros trabalhos externos. Pessoalmente, eu me tornei mais maduro em comparação com 2016”, reflete.

A persona de Agust D, sua figura contestadora e irreverente, que critica os aspectos da vida e os valores da sociedade, não obstante, continua presente na nova mixtape. Em D-2, a mudança sensível está no olhar de SUGA sobre o mundo. Temos um rapper mais amadurecido, alguém que agora encara a perfeição como um termo esquivo e prefere fazer o que pode ser feito, ao invés de tentar ser perfeito.

E, se a antiga mixtape focou em resgatar o passado do rapper internacionalmente conhecido, a nova fala sobre o presente, abordando problemas enfrentados por todas as pessoas, nas diferentes partes do globo. A desigualdade alta, polarização e a descrença, três elementos comuns nas crises políticas, não ficaram de fora de sua criação artística. 

Na faixa intitulada Strange, o afiado Agust D se une ao seu reflexivo colega de banda RM para dialogar a respeito dessas questões complexas, citando uma a uma as principais delas: capitalismo, padrões estabelecidos e política. Ambos cantam a respeito de suas percepções sem, contudo, oferecer uma resposta que solucione esses impasses. A faixa, que vai além de uma exposição do mundo atual, brinca com os juízos de valores e opiniões cristalizadas dos ouvintes, mostrando o quanto a humanidade é complexa, cercada de  dilemas e contradições.   

Agust D inicia a canção com uma reflexão:

Tudo em pó
Você vê?
Bem, bem, bem…
Tudo em luxúria
Oh, o que você vê? 
Bem, bem, bem 
Alguém me diz se a vida é dor
Bem, bem, bem
Se existe um Deus, me diga, se a vida é alegria 

Na primeira estrofe, o rapper questionador parece brincar com o inverso das palavras pó/luxúria, dor/alegria. Ele pergunta ao seu companheiro de banda e também aos ouvintes “O que você vê?”, como se estivesse levando em conta a perspectiva da pessoa sobre o espaço em que ela existe.  

SUGA também parece questionar a existência de uma divindade superior já que, para ele, a vida não é felicidade (ou dor). Ele parece interessado em resgatar os questionamentos sobre a que muitas pessoas fazem em determinados momentos da vida. A esse questionamento, RM responde em sua primeira parte na música:

Você acha que tem bom gosto?
Oh bebê, como você sabe?
Quero dizer, pelo amor de Deus
Tudo está sob controle

O jogo de palavras entre ambos continua, mas dessa vez, RM parece intencionalmente se expressar como alguém que acredita em Deus se expressaria. “Pelo amor de Deus, tudo está sob controle”, canta o rapper. Em Moonlight, faixa que abre a mixtape, SUGA também se refere a figura de Deus, dessa vez para desabafar sobre seus pensamentos em um trecho em que afirma:

“Quanto mais terrível é a batalha com a preguiça dentro mim
Às vezes, eu me ressinto com Deus
Perguntando porque Ele me fez viver uma vida assim
O que estou fazendo e se eu amo a música”.

– Moonlight  

 

Logo, a prioridade dos músicos em Strange não parece estar em duvidar ou acreditar na existência de Deus, mas sim, em questionar as crenças e filosofias de seus ouvintes e deles mesmos, independente de qual sejam estas. Continuando sua fala na música, SUGA canta como se estivesse em um diálogo:

Esse grande sistema chamado “mundo”
Se não for conflito e guerra nele, insira sobrevivência
Uma vida que não podemos rejeitar
O capitalismo injeta a morfina chamada esperança
Como um efeito colateral dos sonhos
A riqueza aumenta a riqueza e testa a ganância
Os ricos invejam avidamente até os pobres
Este mundo é preto e branco, só existem esses dois
Vale a pena ver o final deste jogo interminável de soma zero

Seu amigo RM responde:

Te dando múltiplas escolhas
Depois escolhendo deixar o capitalismo tomar o controle
As pessoas falam “meu feed fala por mim”
Não importa quanto dinheiro nós temos,
Todos nós somos escravos desse sistema
Ocupados se gabando pelas suas coleira e casas de cachorro
Lutando o dia todo sobre quem brilha mais forte
Agora provavelmente nem você sabe
Oh bebê, qual é o seu nome?

O interessante nesses trechos, que revelam para onde o texto está nos conduzindo, é que eles parecem se complementar, como se AGUST D e RM estivessem completando a linha um do outro:

AGUST D Esse grande sistema chamado “mundo”

RM Te dando múltiplas escolhas

AGUST D Se não for conflito e guerra nele, insira sobrevivência

RM Depois escolhendo deixar o capitalismo tomar o controle

AGUST D Uma vida que não podemos rejeitar

RM As pessoas falam “meu feed fala por mim”

AGUST D O capitalismo injeta a morfina chamada esperança

RM Não importa quanto dinheiro nós temos

AGUST D Como um efeito colateral dos sonhos

RM Todos nós somos escravos desse sistema

AGUST D A riqueza aumenta a riqueza e testa a ganância

RM Ocupados se gabando pelas suas coleira e casas de cachorro

AGUST D Os ricos invejam avidamente até os pobres

RM Lutando o dia todo sobre quem brilha mais forte

AGUST D Este mundo é preto e branco, só existem esses dois

RM Agora provavelmente nem você sabe

AGUST D Vale a pena ver o final deste jogo interminável de soma zero

RM Oh bebê, qual é o seu nome?

O mundo aqui é visto como um grande sistema, que oferece múltiplas escolhas: conflito, guerra, sobrevivência, capitalismo, esperança, escravidão, ganância. E o capitalismo é apresentado como o grande responsável por todos esses problemas. Apesar disso, Agust D não acredita em uma visão única e maniqueísta². Ele critica o capitalismo, mas também se enxerga como parte desse sistema “Uma vida que não podemos rejeitar”, canta. E se o capitalismo injeta a morfina, remédio analgésico que auxilia no tratamento de dores crônicas e intensas, este pode ser considerado bom ou até mesmo ruim? O músico não responde. 

Do mesmo modo, RM enxerga esse sistema como um indesejado efeito colateral dos sonhos, afirmando “não importa quanto dinheiro nós temos, somos escravos desse sistema”, estamos “ocupados se gabando pelas  nossas coleiras e casas de cachorro”.

Ambos se inserem na música, analisando eles mesmos e a sociedade. 

Durante a live que fez para comentar os bastidores de sua mixtape, SUGA revelou aos espectadores que, quando RM estava começando sua parte na letra de Strange, ele estava sobrecarregado e perguntou se era correto alguém privilegiado falar sobre “essas coisas”. “Eu disse para ele (RM) que ele poderia escrever sobre isso na letra. Só o que temos que fazer é perguntar. A interpretação é por conta dos ouvintes. Então, é por isso que o título em coreano termina desse jeito. Significa que estamos pedindo uma resposta, se houver alguma”, afirmou.

Perto da última parte, cantada por Agust D, ele traz para o tabuleiro ainda mais questionamentos:

Polarização é a mais feia das flores do mundo
Faz muito tempo que a verdade tem sido devorada por mentiras
Quem é o que mais se beneficia com isso?
Quem no mundo é o que mais sofre?

Também perto da última parte de RM, este declara:

Polarização, a flor que já está em plena floração;
Uma unha redonda que foi martelada em um buraco quadrado
Mas ainda, de alguma forma, continuamos, desse jeito
Cada um em seu próprio galinheiro, dizemos que estamos bem

Agust D acredita haver uma verdade, a qual ele não revela, que vem sendo devorada por mentiras. A afirmação se segue a constatação de que a polarização é a mais feia das flores do mundo. Por que o músico escolheu a flor como metáfora para polarização? Talvez pela beleza de suas pétalas e o cheiro agradável, ou pelo fato de produzir sementes e existir aos montes. Apesar disso, a flor é frágil e uma vez arrancada da terra, não sobrevive. O rapper se refere a flor da polarização como sendo desprovida de beleza, a mais feia do mundo. 

Para o blog do G1 o cientista político Sérgio Abranches escreveu que “quando polarização gera impasse e paralisia, ou quando se radicaliza e é dominada por dois polos extremistas, passa a ter carga negativa e tende à ruptura democráticas”. “E quem é o que mais se beneficia com isso? Quem no mundo é o que mais sofre?”, questiona Agust D. Essa pergunta parece se somar a sua afirmação anterior de que estamos em um “jogo interminável de soma zero”. Talvez a verdade a que Agust D se refere é de que, no fim das contas, nenhuma justificação ideológica importa, o que importa é a vida humana. Em entrevista para Billboard, quando perguntado sobre qual verso ou pensamento de D-2  SUGA gostaria que os ouvintes refletissem a respeito, ele citou o trecho da faixa People em que canta: “E daí, se nós vivemos assim, e daí. O seu comum é o meu extraordinário. O meu extraordinário é o seu comum”.

Para RM, apesar de incompatível, por conveniência, aceitamos ter “uma unha redonda martelada em um buraco quadrado”. Essa afirmação dá margem para inúmeras interpretações. Uma dessas pode ser a aceitação de discursos políticos extremados e formas de governo que, apesar de errados, são defendidos pelas pessoas por oferecerem perspectivas de melhoras econômicas, estabilidade e até mesmo segurança. Pode ser também o jovem que entra para o tráfico numa tentativa de melhorar de vida, o soldado que se curva perante um regime totalitário em troca de uma posição e status ou a mulher que prefere se submeter aos padrões de beleza impostos pela mídia e as celebridades.  Não sabemos e RM não está interessado em responder a que padrão ele está se referindo na música.

SUGA finalmente conclui:

Aqueles que não estão doentes em um mundo doente
São tratados como mutantes, isso não é estranho?
Aqueles com os olhos abertos em um mundo que fechou seus olhos
Agora estão se tornando cegos, isso não é estranho?
Aqueles que querem paz, aqueles que querem brigar
Estão nos dois extremos da ideologia, isso não é estranho?
Eles dizem para termos sonhos, embora eles não tenham nenhum
Ninguém tem as respostas, isso não é estranho?

RM acompanha: 

Aqueles que não estão doentes em um mundo doente
São tratados como mutantes, isso não é estranho?
Aqueles com os olhos abertos em um mundo que fechou seus olhos
O fato de que eles são os únicos com os olhos abertos
Eu acho mais estranho ainda
Aqueles que querem paz, aqueles que querem brigar
Jogos de palavras que mudam rápido como um estalar de dedos
É um tipo de mundo onde os sonhos se tornaram opcionais
Não há resposta certa, essa é a resposta

O paradoxo entre quem tem os olhos abertos em um mundo que fechou os olhos, somado ao fato dos músicos estranharem essa atitude, demonstra a desconfiança com que ambos avaliam esse tipo de comportamento, um tanto sagaz. “O fato de que eles são os únicos com os olhos abertos, eu acho mais estranho ainda”, RM declara. Por que eles não fecharam os olhos? Por que querem mantê-los abertos? Todos possuem interesses, sejam quais forem. Eles questionam quem se considera bom, quem se acha lúcido, quem acredita ter um bom caráter, quem se considera da paz, questionam quem quer brigar, quem diz para sonhar, mas no fundo, não sonham. 

Já que no nosso mundo as palavras são apenas um jogo que mudam rápido como um estalar de dedos, a resposta é que é melhor não ter respostas. O próprio Agust D corroborou com essa visão em outros momentos. Quando perguntado pela revista TIME se é importante para figuras públicas como ele desafiarem normas e levantarem questões sobre o modo como as pessoas vivem, SUGA respondeu que seu papel não é influenciar as escolhas de ninguém. “Eu apenas jogo o ponto de interrogação, cabe a cada indivíduo decidir. Na minha opinião pessoal, geralmente é melhor para aqueles que têm tanta influência sobre os outros desconfiarem de expressar em voz alta suas opiniões tendenciosas”, conclui.

Curtiu a análise de Strange e quer compartilhar sua visão sobre a música? Você pode me mandar um e-mail (esd.olhar@gmail.com) ou vir bater um papo comigo no Twitter (@esd_olhar) ou no Instagram (@esd_baa).

¹Esquivo: Segundo o dicionário online Aurélio, esquivo é um adjetivo e significa alguém que evita o trato, a convivência. Áspero, indócil.

²Maniqueísta: Que tende a separar algo em conceitos opostos ou incompatíveis: visão maniqueísta de que a riqueza é inimiga da pobreza.

[LETRA] STRANGE 

Fonte: BTS Trans/ doyou_bangtan/ Bangtan Brasil

Link: https://bangtan.com.br/letra-strange-feat-rm-agust-d/





Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *