A GLOBALIZAÇÃO SUL-COREANA: Questões históricas e debates acerca das produções cinematográficas asiáticas

Imagem da bandeira sul coreana que geralmente é apresentada em filmes que tem auxílio governamental. 
Fonte: The Korea Time


Por Vitória Rapallo
Revisado por Helmer Marra e Mariana Mathias

Os processos sócio-históricos do cinema asiático que consolidou a filmografia sul-coreana no mercado cinematográfico atual. Com base na pesquisa “A BEM SUCEDIDA EXPERIÊNCIA SUL–COREANA NO AUDIOVISUAL” feita pela Drª. Luana Rufino – Superintendente de Análise de Mercado/ANCINE – divulgada pelo RioMarket, a área de negócios do Festival do Rio que tem como compromisso contribuir para o desenvolvimento da indústria audiovisual. Permitindo a troca de conhecimento entre inúmeros profissionais renomados, bem como novos produtores e empresas conceituadas da área, esse festival proporciona uma interligação entre a crítica especializada, as jornalistas e os pesquisadores do mercado. 

Essa análise estuda esses processos de ajustes econômicos e industriais, direcionando a exportação dos materiais de audiovisual. Assim como soma para um olhar mais aprofundado sobre o cinema sul-coreano, expondo questões técnicas que sobrepõem todo o percurso na produção de sua metodologia.

A menina que comprava livros: [Evento] Rio Market com Q&A de Alice ...
Logo que a cada evento tem sua paleta de cores mudadas para assim representar a temática proposta – Fonte:  RioMarket

No início da análise da autora, ela concede o deslumbrante trabalho de marketing desenvolvido pelo país nesses últimos anos, e entrega aos leitores o início de sua era de ouro. A autora descreve “A trajetória sul-coreana da indústria criativa do audiovisual oferece contribuições importantes à análise da elaboração de políticas industriais voltada ao setor. Seu grande e rápido sucesso pode ser explicado por políticas explícitas formuladas pelo governo a partir dos anos 1990”. 

  A bem sucedida experiência sul coreana no audiovisual. 
Fonte: RioMarket

Porém, para maior articulação sobre o tema, é necessária uma abordagem sobre os processos sócios-históricos da Ásia aos quais foram necessários buscar dados para essa amplitude no comércio cinematográfico sul-coreano. Portanto, é necessário voltarmos décadas atrás.

Pairando o olhar sobre o novo cinema asiático e todas as referências, indicações e premiações adquiridas nos últimos tempos, será necessário compreender que: o cinema coreano, em específico, faz parte de um conjunto estético milenar, integrando China, Japão, Coreia e Índia. Onde se referência e inspira gerações com sua técnica hereditária.

História do cinema Asiático

Documentário relata sequestro de cineastas por ditador da Coreia ...
 Making of do filme “Old Boy” – imagem extraída dos extras do filme 

Ao longo de séculos, inventos, ideias e dispositivos foram desenvolvidos e convergidos para delinear os princípios que criaram tecnicamente o cinema. Luz e sombra, reflexão e refração, os estudos da óptica e cinética, aliados à fisiologia do olho humano, constituíram os elementos formadores para a técnica cinematográfica. 

O cinema japonês está dentre os cinemas mais singulares do mundo. O fato de ter sido um país distante do Ocidente até a abertura de seus portos em 1868 na Era Meiji, contribuiu para um material extremamente rico e exótico aos olhos ocidentais. Contudo, o cinema japonês não se resume apenas a um retrato de um Japão feudal, onde “Daimyos” e Samurais reinavam, mas também a um retrato de uma sociedade complexa em meio a tradições milenares até histórias fantásticas e futurísticas.

Os primeiros filmes relatam o cotidiano japonês com recursos cênicos primitivos produzidos pela casa fotográfica Konishi, promovendo registros culturais e sociais. Estes filmes proporcionam  materiais às readaptações de conhecidos dramas da época e aprimoramento das técnicas fílmicas, posteriormente.  

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 Cinema em Série/ imagem de produções de filmes no gênero ação/Daimos e Samurais.
Fonte: Japão Astral

No entanto, a China torna-se independente apenas em 1947 e, após esse acontecimento, um grupo de amantes do cinema reúne-se para criar o cineclube Calcutta Film Society”, a fim de promover o realismo no cinema indiano. Filmes estes que iam na direção contrária dos filmes fantásticos que agradavam a população do país. 

A partir dos anos 1980, o cinema indiano começa a consolidar-se do modo que o vemos hoje; isto é, não mais baseado em problemas sociais ou econômicos, como é retratado no cinema dos países já citados. Por sua vez, a temática é a dos dramalhões familiares com elementos primordiais para a audiência do país: romance, drama, comédia, música e dança. Devido a isso, em 1990 Bollywood, aumentou sua popularidade pelo mundo.

Roupas coloridas e muita música, são elementos que marcam os filmes produzidos desde então. A população consome seu próprio cinema de forma única. É um entretenimento por completo, onde as pessoas levantam de suas cadeiras no cinema para dançarem junto com as personagens do filme. Mesmo em locais mais pobres e de população que não tem acesso às salas de cinema, os DVDs piratas ajudam em seu entretenimento. Então, dessa forma, cabe uma acessibilidade e instrumentalização ao que se assemelha aos cinemas. 

Todos esses inventos técnicos e estudos que fazem da cinematografia atual, são decorrentes do período que chamamos de “pré-cinema”. Que por sua vez, tem início por volta do ano de 5.000 a.C na China, com o “Teatro de Sombras”. Trata-se de uma arte milenar de contar histórias e entreter com bonecos de sombra. Essa prática consiste em projeção de sombras nas paredes ou telas de linho, com figuras humanas, animais ou recortes de objetos e cenários. Sua temática contada por um único narrador, por vezes, envolvia guerreiros, princesas e dragões. E ainda hoje é uma forma popular de entretenimento tanto para crianças quanto para adultos em muitos países ao redor do mundo.

Lenda chinesa sobre a origem do teatro de sombras
Imagem ilustrativa da era “pré cinema” na China, o ilustre cinema teatral (Teatro de sombras) da tela de linho. Fonte:  Lenda chinesas

Períodos do audiovisual sul-coreano.

Tabela da estruturação do audiovisual na Ásia juntamente aos fatores decorrentes da época. Fonte: RioMarket.

A vista disso, o cinema sul-coreano e a cronologia do modelo exportador de audiovisual diferem-se em duas formas. A primeira é a mudança gerada na independência no ano de 1948, até 1959, que desencadeou um grande esforço para a reconstrução da economia, devastada pela guerra. A segunda etapa emerge após 1960, quando iniciou a exportação cultural sul-coreana.

Segundo Luana Rufino (2017, p.3). O cinema sul-coreano teve um renascimento no ano de 1990, logo após a decadência do mercado de audiovisual. A melhora viera a ocorrer com o surgimento da democracia após décadas de ditadura militar. 

Dessa forma, muitos políticos daquela época não viam com bons olhos as imagens e mensagens transmitidas por alguns produtores e realizadores mais críticos da sociedade no geral, cujos os trabalhos podiam ser perigosos e ter efeitos negativos, até mesmo subvertidos, ao questionarem o status e que uma imagem pouco positiva teria sobre os respectivos países.

A Coreia do Sul precisou de uma recomposição pós-guerra, com uma economia quebrada e um país dividido entre sul e norte. A nação sul-coreana deslumbrou o grande avanço econômico do Japão, que em 1959 já havia produzido o clássico “Bom Dia!”.  Um ato revolucionário no cinema japonês. Naquela época a técnica de como segurar a câmera,utilizar o filtro preto e branco,  dirigir e roteirizar, assim como quais equipamentos utilizar todo esse processo já era produzido lá. 

Herança técnica das produções dos cinemas asiáticos 

Toda a construção do cinema japonês e do sul-coreano teve grande influência dos grandes palcos teatrais chineses. Nesse período a China ainda estava fechada para o mundo, mantendo seus parâmetros culturais para os remanescentes e nascidos chineses. Esse teor dramatúrgico, que hoje temos tanta familiaridade nas novelas coreanas, da cultura pop, carrega influências clássicas da narrativa romântica das tragédias gregas. 

É notável o seguimento que o cinema asiático delineou, transmutou-se até a década presente. A forma do quão original tornou-se, visto que sua matriz criativa ainda é a base cultural e ancestral chinesa.  E esse percurso do mercado é sinalizado por Rufino como “[…] Setor de economia cultural, o foco tem sido a chamada indústria criativa do audiovisual ou indústria do entretenimento como líder da próxima geração do crescimento econômico nacional”.

Por fim, Luana Rufino que acompanhou a evolução do cinema asiático, descreveu a estética da cinematografia da sul coreana como: um mercado  lucrativo que criou uma forma de expressão junto a uma nova linguagem do audiovisual.

Dessa forma, ampliou inúmeras discussões nos padrões estéticos como: políticos, econômicos e sociais. Com isso, traz consigo o misticismo, fantasia, musicalidade e ancestralidade que foram mantidos em ambos processos fílmicos, estáticos como uma fotografia de uma país milenar com tanta originalidade e versatilidade para retratar mediante a era da globalização. 

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