A GLOBALIZAÇÃO SUL-COREANA: Questões históricas e debates acerca das produções cinematográficas asiáticas – PARTE II

Confira uma prévia dos filmes coreanos mais esperados de 2020 ...

Por: Vitória Rapallo
Revisão por: Lale e Rafaela

No último artigo, voltamos décadas atrás para abordar o tão amplo cinema asiático, citamos o quanto ele evoluiu no decorrer dos anos, sem abandonar sua matriz milenar. Mantendo — a sua fotografia estática como um retrato de sua cultura. Dito isso, o enfoque dessa matéria se voltará ao desenvolvimento do cinema sul-coreano atual. 

Todavia, o cinema começou a ser encarado como uma vertente lúdica, ao transmitir determinados valores. A visão do dinamismo da vida social, acabou por influenciar um comportamento do público, tanto na questão social quanto no âmbito estético das produções cinematográficas. 

A Coreia do Sul possui a quinta maior indústria cinematográfica do mundo, e sua presença está crescendo nos últimos anos e décadas no circuito de festivais ao redor do planeta.  A pesquisadora Luana Rufino, cita que: “No espaço de 20 anos a Coréia do Sul, saiu de um market share nacional irrisório de 2,1% em 1994 para alcançar a marca significativa de 57% em 2014, isto é, uma participação nacional do mercado maior do que países que investem pesadamente na cultura, como a França que obteve 36,8% nesse mesmo ano”.

Ao nascer o cinema esteve na origem de um novo hábito cultural, que modificou as atividades de lazer e introduziu alterações profundas nos costumes de milhares de pessoas. Para muitos, a relação do cinema,  mercado, os aspectos econômicos e políticos, são decorrentes do processo que engloba estratégias de produção e financiamentos em conjunto do  marketing de produção de cada distribuidora. 

Políticas de promoção à economia criativa do audiovisual na Coreia do Sul

Estrutura de Suporte das Políticas Públicas ao Setor Audiovisual na Coréia do Sul Fonte: Zubelli (2017)

Em termos de popularidade a nível mundial, o cinema sul-coreano ainda é relativamente novo. Apesar disso, desde o final da década de 1990 o país vem gradualmente acumulando participações expressivas em festivais internacionais de cinema e emplacando alguns sucessos de bilheteria.

Apesar do avanço, pode ser atribuído a soma de diversos fatores, um dos destaques é: o investimento de “chaebols” no cinema local, que é um movimento que se iniciou com a Samsung em 1992 e foi seguido por outras grandes empresas do país, que resultou em grande sucesso na bilheteria interna.

O país também é um dos poucos do mundo que tem o cinema nacional  mais visto que o cinema estadunidense, ações incentivadas pelo governo atual, que incluem desde o estabelecimento de cotas de telas definindo uma quantidade mínima de filmes nacionais a serem exibidos pelos cinemas do país,  até o financiamento de produções através do KOFIC, sendo uma organização do governo que apoia obras de baixo orçamento, sendo filmes independentes, com coprodução internacional, filmes de arte e documentários.

Rufino afirma  que: “Assim, quando o governo coreano anunciou essa indústria como a nova catalisadora do crescimento econômico, as grandes corporações familiares do país (Chaebols) – como Hyundai, Samsung, Daewoo, entre outras – voltaram-se ao setor na busca dos benefícios da política e entraram em toda a cadeia: produção, distribuição, exibição e importação”.

Making of do longa Okja. Fonte: Okja Movie

Os streamings e a revolução no consumo de filmes 

É evidente que o cinema foi consolidado com a globalização, tornando-se um mercado tão lucrativo, que criou uma forma de expressão e uma nova linguagem do audiovisual. Isto é, possibilitou amplas discussões nos teores estéticos, políticos, econômicos e sociais. 

Afinal, quando é mencionado “globalização” existe tendência em pensar que se trata de um fenômeno recente tendo início há pouco mais das duas décadas. Porém, a sua instrumentalização foi feita no processo de aprofundamento internacional da integração econômica, social, cultural e política. Que atualmente é bastante impulsionada no meio da telecomunicação através das redes de streamings. 

A partir disso, o desenvolvimento econômico obtido pela Coreia do Sul, tem sido insistentemente destacado em artigos científicos, telejornais e demais meios de comunicação. Seu destaque é devido ao sucesso em sustentar rápido o índice de crescimento, com base no sistema econômico orientado para suma exportação com enfoque em material fílmico, cultural e fonográfico. 

Parasita estampando a capa de todos os jornais da Coréia do Sul. Foi  a primeira vez que um filme fora do Ocidente venceu nesta categoria. Fonte: The Korea Times

A ascensão da onda sul-coreana: Hallywood 

Imagem que representa “metonímia” dada pelo fandom cinéfilo da onda Hallyu, para a sua contiguidade conceitual com outra palavra ‘wood” de “Hollywood”. Fonte: Quarantaine Studio’s

No momento atual, estamos na segunda era de ouro do cinema sul-coreano, marcada pela renovação dessa indústria cinematográfica, assim como explica o Professor adjunto do Curso de Cinema e Audiovisual do Instituto de Artes e Design da Universidade Federal de Juiz de Fora; Luiz Carlos Oliveira Júnior em artigo publicado no livro “Cinema Mundial Contemporâneo (PAPIRUS). Os fatores que contribuíram para esse boom foram: investimento de capital privado, a chegada de uma nova geração de cineastas, o estímulo aos festivais locais, cota para exibição de filmes americanos e o estabelecimento de um período mínimo de dias de exibição dos filmes nacionais nas salas de cinema do país.

Com isso, logo após a popularização de K-dramas (novelas coreanas) que assim foi instrumentalizada de forma similar como a venda de animes no Japão, funcionando da seguinte forma: mediante à sua popularidade devido ao amplo comércio nas bancas e pelas exportações correlacionando-a cultura do país, que gradualmente foi gerando uma renda alta que esse produto passou a somar para a economia do país. 

Entretanto, o sucesso eminente desse mercado em sumo desenvolvimento, os pesquisadores do âmbito econômico e cinematográfico juntaram-se para abordar um assunto crescente “a ascensão da hallyu devido a globalização” objetivando os processos sócios-históricos, e passeando por processos cruciais para a crescente dessa gama cinematográfica citando o modelo e os planos de desenvolvimento econômico. 

Cena do filme “A Criada” – Fonte: Documentário de produção A Criada 

O cinema atual sul-coreano e o realismo social 

Aqueles que estudam cinema sabem que cada país possui uma “assinatura” na narrativa contada. Isto é, a Itália com o neorrealismo, a nouvelle vague francesa, o cinema Hollywoodiano, entre outras escolas cinematográficas.  Cada uma trouxe para a sétima arte características que acabam, de certa forma, influenciando outras produções.

No entanto, esse modelo de produção cinematográfica sul-coreana é capaz de apontar qual é o sentido da produção. Com isso, demonstrando uma estratégia para assim combater o poder da Coreia do Norte e demonstrar toda sua influência na região. O governo do Sul, tem agido dessa forma, e tem tomado ações de investimentos na cultura para poder exportar seus produtos e assim ganhar influência cultural ao redor do mundo. 

É notável a motivação desse modelo exportador, não apenas por seu impacto cultural ao redor do mundo, mais sim pelo formato adotado que se demonstrou muito inteligente, fazendo com que a sétima arte some economicamente além de retratar o comportamento de um povo como inúmeros preceitos sociais. 

O atual cinema da Coreia do Sul é marcado pela preocupação com o realismo social. Os personagens que são desenvolvidos ocupam as classes trabalhadoras ou são estudantes radicais, e problemas como a questão da urbanização, inquietação industrial e colapsos familiares compõem as tramas decorrentes.

Por fim, está é a sétima arte, que agrega inúmeras possibilidades de se contar uma história.  O Oscar 2019 não veio apenas fazer justiça a democratização do acesso no meio cinematográfico, mas concedeu o ilustre reconhecimento a todos os diretores que transformaram o cinema sul-coreano em um dos mais autorais já vistos atualmente, superando a barreira linguística imposta por opositores da verdadeira arte.

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